Assim que a aula acabou, Rosa agarrou meu braço e me puxou para sorveteria perto da escola. Tínhamos uma regra de sempre tomamos um quando estamos tristes, foi uma tradição que começamos quando éramos crianças, mas quem não ama um sorvete?
Depois de pegarmos nossos sorvetes, o meu de morango e o dela de chocolate, nos sentamos na praça ao lado da escola, que naquele horária não ficava tão cheia, o que servia ao nosso propósito de conversar.
—Fui perguntar se André tinha visto você e ele me disse onde estava, mas a cara dele não estava nada boa —começou ela —Depois encontrei você chorando. Vocês brigaram?
—De certa forma, sim —suspirei e ela me olhou de lado, curiosa. Levei meu sorvete a boca, pensando como começar aquela conversa.
—O que ele fez? —perguntou ela séria —O quanto preciso bater nele?
—Talvez um pouco —falei sorrindo, então voltei a suspirar —Mas antes de te contar isso, preciso te contar outra coisa.
—Sim?
—Eu estou namorando com Cristiano —admiti rápido olhando para baixo. Estava envergonhada demais para a encarar.
—Eu sei —disse ela e virei em sua direção, surpresa. Ela estava calmamente tomado seu sorvete.
—Você sabe?! —questionei.
—Bem, eu estava desconfiando —disse ela pensativa —Vocês dois estavam agindo muito estranho ultimamente. E bem, não estavam se esforçando muito para esconder.
—E por que não me questionou?
—Por que você não me contou? —devolveu ela séria.
—Eu não estava pronta —ainda não me sentia pronta. Só pensar em admitir isso para todos sentia vontade de sair correndo, mas precisava conversar com a minha melhor amiga.
—Ai está sua resposta —disse ela terminando seu sorvete e usando o guardanapo para limpar a boca —Quando você estivesse pronta para me contar, você iria contar.
—E como se sente sobre isso? —a olhei nervosa.
—E eu tenho que sentir alguma coisa? —perguntou ela e quando viu meu olhar sério, sorriu —É claro que eu amei, bobinha. Não posso pensar em uma garota melhor para o meu irmão. E nem a mamãe.
—A sua mãe sabe? —coloquei a mão no rosto, envergonhada.
—Ela adivinhou quando não conseguiu dormi por causa de certas pessoas —disse ela sorrindo sugestiva.
—Ai meu Deus —eu iria morrer de vergonha —Ela escutou...?
—Sim —ela riu da minha vergonha, enquanto eu só queria me enterrar em algum buraco —E se preparar que ela vai falar nisso quando vocês assumirem o relacionamento para ela.
—Não sei se tem mais relacionamento —suspirei cansada.
—Por quê?
Contei o que aconteceu com detalhes e ela me escutou atentamente, sem falar nada. Tudo que fazia era assenti com a cabeça de vez em quando mostrando que estava me ouvindo. Sua falta de resposta me deixava receosa, principalmente quando terminei e ela não disse nada por um longo tempo.
—Você queria beijar o André? —questionou ela por fim —Pode ser sincera comigo, não vou te julgar.
—Não sei se queria isso —olhei para minhas mãos —Mas posso te garantir que eu não iria o beijar, mesmo que Cristiano não tivesse chegado —a encarei séria —Eu gosto muito do Cristiano, mais do que já gostei de qualquer garoto e não quero perder o que temos. Isso é muito estranho de se falar levando em consideração nossa história, mas é a verdade.
—Ótimo —disse ela e se levantou, jogando os papéis no lixo —Vamos.
—Para onde? —a olhei confusa.
—Para minha casa, oras —respondeu como se fosse óbvio —Você quer se resolver com meu irmão, certo?
—Ele não quer falar comigo —expliquei nervosa —Não me responde, nem atende minhas ligações.
—E você vai deixar por isso mesmo? —antes que respondesse, ela acrescentou —Você não pode ficar só esperando ele vim até você, às vezes, precisa ir até ele também.
—Mas...
—Mas nada —interrompeu ela —Vamos logo.
Sem muitas alternativas, me levantei e joguei o resto do sorvete no lixo, então a seguir para o estacionamento, onde estava sua moto e fomos para sua casa em silêncio. Estava nervosa e receosa demais para conversar. O que diria a Cristiano quando o visse? O que ele diria ao me ver?
Rosa parou em frente a sua casa, mas não desligou a moto. Esperou eu descer e quando o fiz, me estendeu a chave da sua casa.
—Provavelmente ele vai estar no quarto dele. A mamãe está trabalhando e eu vou para casa de David —explicou ela colocando a chave na minha mão. Piscou o olho para mim —Dar privacidade a vocês caso as coisas esquentem.
—Rosângela! —a repreendi sentido meu rosto quente. Ela só fez ri.
—Qualquer coisa, me liga, ok? —assenti com a cabeça e seu rosto ficou sério —Não magoe meu irmão novamente. Não me faça me arrepender de te ajudar.
—Pode deixar, Rosa —prometi tão séria quanto ela —A última coisa que eu quero é magoar seu irmão.
—Acho bom —fez uma pausa —Boa sorte.
Antes de eu responder, ela deu partida na moto e fiquei a observando ir embora. Estava sem coragem de entrar. O que eu diria? Como me explicaria? Ele sequer me daria a chance de falar? Não parecia querer me ouvir. Nem ontem e muito menos hoje.
Não poderia ficar na calçada para sempre, por mais tentador que parecesse, então abri a porta e entrei. Seguindo o conselho de Rosa fui direto ao quarto dele, que estava com a porta meio aberta e a empurrei, encontrando o quarto vazio. Ele não estava ali, mas a tela do computador estava ligado, então logo voltaria.
Resolvi entrar e o esperar voltar. Me sentei em sua cama e coloquei a mochila no chão, olhando suas coisas. A cama bem arrumada e seus lençóis dobrados, ele era tão organizado. Diferente de mim que deixo tudo uma bagunça arrumada, sei onde está tudo, mas ainda parece uma bagunça para os outros.
—O que faz aqui? —a pergunta me assustou e virei em um pulo para porta. Ele estava parado, seus olhos sérios em mim. Não parecia nenhum pouco feliz em me ver.
—Eu... —Não sabia o que falar —A Rosa me deixou entrar e...
—O que está fazendo no meu quarto? —ele insistiu. Sua voz estava tão brava, me fazia sentir tão inadequada e errada. Insegura.
—Precisamos conversar.
—Já conversamos o suficiente.
—Cristiano... —ele parecia tão distante de mim, inalcançável —Você é quem eu amo e quem quero estar junto. Só me dar uma chance de te mostrar isso.
—Não foi o que me pareceu —acusou ele, irredutível.
—Foi inesperado. Eu não esperava que ele fosse me beijar. Não sabia como reagir, por isso não me afastei rápido o suficiente, mas eu estou com você, Cristiano. Não iria te trair.
—Quer dizer que você não é apaixonada por ele? —Debochou ele, sua cara cética.
—Eu fui —admiti em voz baixa —Mas agora eu estou com você. Por que é tão difícil acreditar nisso?
Seu rosto ficou sério.
—Porque a imagem dele quase te beijando continua muito vivida na minha mente e você não parecia tão incomodada com a proximidade dele.
—E o que eu posso fazer para mudar isso? —perguntei nervosa.
—Pode ir embora.
Abaixei a cabeça, sentido minha garganta apertar. Se continuasse ali, o sentindo tão longe de mim, tão irritado, não conseguiria segurar o choro.
—É isso que você quer mesmo? —perguntei em voz baixa.
—Sim —ele não hesitou e isso foi como um soco no estômago. Ele realmente não me queria mais por perto?
Peguei minha bolsa no chão e levantei, indo para a porta. Se ele não me queria ali, não iria implorar para ficar. Passei por ele sem o olhar e me apressei para chegar até a saída, sentia o bolo na minha garganta aumentar a cada passo que dava.
Antes que chegasse na porta da frente, sentir meu braço ser puxado e olhei em sua direção, parecia mais irritado do que antes.
—Você vai mesmo embora?
—Você que mandou —apontei o óbvio.
—Se você sair, significa que nós terminamos —me olhou sério —É isso o que quer?
—Não, não é —mordi o lábio, nervosa —Mas parece ser o que você quer.
—Estou com raiva e bravo—admitiu em voz baixa. Passou a mão pelos cabelos —Mas você é quem eu amo. Não quero te perder.
Mordi o lábio, sentido meus olhos encherem de lágrimas. Pensei que o tinha perdido e isso não era uma sensação agradável. Em tão pouco tempo, eu tinha me apegado muito a ele e eu estava muito ferrada, mas agora não podia fazer mais nada.
Soltei a mochila em cima do sofá e o abracei, escondendo meu rosto em seu pescoço, não queria que ele visse o quanto estava aliviada com suas palavras.
—Sinto muito por tudo —sussurrei contra sua pele.
—Eu também sinto —devolveu ele retribuindo meu abraço. Deu um beijo no topo da minha cabeça —Não quero você perto daquele garoto mais.
—Tudo bem —concordei. Não era como se fôssemos voltar a conversar depois da briga de hoje. Tinha perdido o meu amigo.
—E não quero mais esconder nossa relação —novamente concordei. Não tinha o que fazer e eu também já tinha contado a Rosa e aparentemente, Edna também já sabia.
—Estamos bem agora?
—Sim —afirmou ele e podia sentir o alívio em sua voz ao falar isso —Estamos bem.