CAPÍTULO 23

747 Palavras
O teste estava escondido no fundo da bolsa, mas Ana sentia o peso dele como se estivesse gravado em sua pele. Cada passo dentro da cobertura parecia ecoar demais. Cada porta, cada reflexo nos espelhos, cada sombra nos cantos lembrava-lhe de uma verdade que já não podia ser ignorada, havia algo crescendo dentro dela. Algo que mudaria tudo. Algo que tinha o nome de Victor Moretti marcado desde o início. Ela encostou-se à janela, observando a cidade lá embaixo. As luzes noturnas piscavam como vidas livres pessoas que iam e vinham sem precisar medir palavras, esconder segredos, calcular reações. Ela não era mais uma delas. Ana levou a mão ao ventre, quase sem perceber. O gesto foi instintivo e Protetor. E imediatamente veio o pânico. Como contar a ele? E se ele não aceitar? E se aceitar do jeito errado? Porque Victor não reagia como homens comuns. Ele não se surpreendia ele reivindicava. A porta atrás dela se abriu. Ana enrijeceu. — Você está quieta demais hoje — a voz de Victor veio calma, baixa, perigosamente atenta. Ela não se virou de imediato. Precisava de mais alguns segundos para respirar. Para fingir que ainda tinha controle. — Só estou pensando — respondeu, por fim. Victor aproximou-se devagar, como sempre fazia quando sentia que algo estava fora do lugar. Parou atrás dela, próximo demais para ser coincidência, distante demais para ser toque. — Pensamentos costumam deixar rastros — murmurou. — E os seus estão barulhentos. Ana sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. — Você me observa demais — disse, tentando soar firme. — Eu te conheço — corrigiu ele. — E você está com medo. Ela se virou, finalmente. Os olhos dele a prenderam no mesmo instante. Escuros. Profundos. Investigadores. — Medo de quê? — Victor perguntou. Ana abriu a boca e fechou. A verdade queimava na garganta, mas não saía. Porque uma vez dita, não haveria como recolhê-la. Não haveria espaço para arrependimento. Victor percebeu. Ele deu mais um passo, diminuindo a distância entre eles até que o ar se tornasse insuficiente. — Você está escondendo algo de mim — afirmou, sem elevar a voz. O coração de Ana disparou. — Nem tudo é seu — ela respondeu, num fio de voz. O silêncio que se seguiu foi denso. Perigoso. Victor inclinou levemente a cabeça, observando-a como quem avalia um risco recém-descoberto. — Cuidado com o que diz — falou, por fim. — Existem coisas que deixam de ser apenas suas quando me envolvem. Ana sentiu o pânico crescer. Ele estava perto demais da verdade. Sempre esteve. Ela se afastou, andando até a mesa, fingindo interesse em qualquer coisa que não fosse ele. — Você não pode querer controlar até meus pensamentos. Victor seguiu-a com o olhar, sem pressa. — Não quero controlar. — Uma pausa calculada. — Quero saber. Ele se aproximou outra vez e segurou o pulso dela. Não com força, mas com firmeza suficiente para fazê-la parar. — O que está acontecendo com você, Ana? Ela olhou para a mão dele em seu pulso. Depois, para o rosto dele. Se contasse agora, perderia o pouco chão que ainda sentia sob os pés. Se não contasse estaria mentindo para o homem mais perigoso que já conheceu. — Nada — mentiu. Victor apertou um pouco mais os dedos. Não o suficiente para doer. O suficiente para marcar. — Você nunca mente bem — disse, aproximando o rosto do dela. — E quando tenta algo sempre entrega você. O olhar dele desceu lentamente, seguindo uma intuição silenciosa, parando por um segundo a mais sobre o ventre dela. Ana prendeu a respiração. Victor não disse nada. Apenas sorriu de lado, um sorriso lento, pensativo. — Seja o que for — murmurou —, você vai me contar. — A voz baixou. — Porque não existe verdade que sobreviva escondida entre nós. Ele soltou o pulso dela e se afastou, como se já tivesse plantado o suficiente de tensão. Sozinha novamente, Ana sentiu as pernas fraquejarem. Apoiada na mesa, respirou fundo, as mãos tremendo. Ela tirou o teste da bolsa e o encarou outra vez. Duas linhas. Duas sentenças. O medo não era apenas de contar. Era de como Victor reagiria quando entendesse que aquela verdade o ligava a ela de forma definitiva. Porque se havia algo que Ana sabia com absoluta certeza era isto. Victor Moretti não rejeitaria um filho. Ele reivindicaria. E, quando isso acontecesse, as correntes invisíveis que já a prendiam, se tornariam impossíveis de romper.
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