CAPÍTULO 22

620 Palavras
O banheiro estava mergulhado numa luz fria, quase clínica. Ana apoiou as mãos na pia de mármore, encarando o próprio reflexo como se ele pudesse lhe dar respostas. O rosto pálido, os olhos cansados, a respiração curta demais para alguém que tentava fingir normalidade. Ela sabia. O corpo sempre sabe antes da mente aceitar. O atraso, o enjoo discreto, o cansaço que não passava. Os sentidos mais sensíveis, as emoções à flor da pele. Pequenos sinais que ela havia ignorado porque admitir significava admitir demais. O teste estava sobre a bancada. Branco. Simples. c***l. Ana respirou fundo antes de pegá-lo. As mãos tremiam levemente. Não de medo, apenas mas de consciência. De tudo o que aquele pequeno objeto poderia destruir ou selar para sempre. Ela fez o teste em silêncio, cada segundo se arrastando como uma sentença. Quando o colocou sobre a bancada e virou-se, sentiu o coração quase sair do peito. Esperou. O tempo pareceu zombar dela. Então, devagar, ela se virou. Duas linhas. Claras, e Definitivas. Positivo. Ana sentiu o mundo inclinar. — Não — sussurrou, levando a mão à boca. As pernas cederam e ela se sentou no chão frio, as costas apoiadas no armário. O teste caiu ao lado dela, esquecido, como se aquilo fosse um detalhe insignificante diante do que realmente importava. Um filho. De Victor. A ideia ecoou em sua mente como um trovão distante. Não era apenas uma vida crescendo dentro dela. Era um vínculo eterno, um laço impossível de romper. Ela fechou os olhos, tentando organizar os pensamentos. Não podia fugir. Não podia expor. Não podia fingir que aquilo não existia. E, acima de tudo, não podia mais fingir que Victor era apenas um risco passageiro. O som de passos do lado de fora do banheiro fez seu corpo enrijecer. Victor. Ela levantou-se rapidamente, limpando o rosto, escondendo o teste no bolso do robe. Não estava pronta. Ainda não. Ele entrou, observando-a com atenção imediata, como se já sentisse a mudança no ar. — Você está pálida — disse, aproximando-se. — Está passando m*l? Ana balançou a cabeça, incapaz de encará-lo por muito tempo. — Só cansada. Victor não pareceu convencido. Ele tocou o rosto dela com cuidado, os olhos escuros fixos nos dela, atentos demais. Sempre atentos demais. — Algo mudou — murmurou. — Eu sinto. Ela se afastou um passo. — Você sempre se sente demais. Ele sorriu de leve, mas havia algo predatório por trás. — Porque tudo o que diz respeito a você me pertence. A frase atravessou Ana como uma lâmina. E agora pertence ainda mais. Ela caminhou até a janela, o coração disparado, tentando ganhar tempo. A cidade lá embaixo parecia distante, inalcançável, como uma vida que já não era mais dela. Victor aproximou-se por trás, sem tocá-la. — O que quer que esteja passando pela sua cabeça — disse ele —, não existe sem mim. Ana fechou os olhos. Ele estava certo. O teste positivo pesava no bolso como um segredo vivo. Um segredo que mudaria tudo quando viesse à tona. Um segredo que transformaria Victor não em um homem mais gentil mas em algo ainda mais perigoso. Porque Victor Moretti não perderia um filho. Não perderia uma herdeira ou um herdeiro. Não perderia aquilo que consideraria seu. Ana finalmente compreendeu a dimensão daquilo que havia acontecido. Ela não estava apenas presa a Victor pelo desejo, pelo pacto ou pelo medo. Ela estava ligada a ele para sempre. E, enquanto sentia a mão dele tocar sua cintura, possessiva, protetora, ela soube. Aquele não era apenas o resultado de um teste de gravidez. Era o resultado de todas as escolhas que a levaram até ali. O jogo tinha acabado. Agora começava algo muito mais irreversível.
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