SOPHIE
Depois de sair da casa do senhor Min e pedir mil desculpas por ter sido tão invasiva com Yang-mi, cheguei em casa um tanto quanto exausta. Tinha atravessado Seul do outro lado.
Joguei-me na cama e pensei nas palavras de Choon-Hee. Aquela garota de semblante meigo e carinhoso havia se mostrado fria e hostil.
Precisava conversar com Ha-nui, e como se adivinhasse meus pensamentos, meu telefone tocou. Levantei-me, relutante, peguei minha bolsa e procurei meu celular. Quando o peguei, vi a foto de Ha-nui sorrindo no visor.
— Alô. — atendi sorridente.
— Olá, minha flor do dia. — Ela respondeu eufórica. — Sei que anda muito ocupada, mas deixar sua melhor amiga de lado é maldade.
— Nossa, quanta carência. — Sentei-me no sofá. — Só estamos há pouco mais de dois dias sem nos falar. E eu não deixei você de lado. Mas, sabe, foi bom você ter ligado. Hoje fui ao meu primeiro dia de trabalho.
— Sério?! E como foi? São legais?
— É... Sim, são.
— Não sinto empolgação. Fala a verdade.
— Bem, eu estou falando a verdade. Mas, olha, não acho que as coisas foram assim... — suspirei. — O tal Min me apresentou à filha dele, a garota a quem vou tutorar em inglês. Então ele saiu e eu fiquei esperando na biblioteca para começarmos. Quando ela veio até mim, não era mais aquela garota gentil. Falou que não queria que eu a ensinasse e me deixou lá sozinha. É isso.
— Nossa! Então você tem um demônio para educar.
— Não fale assim. — Eu ri. — Ela é apenas uma criança e é normal que se sinta assustada e talvez até reclusa com novas pessoas. E você sabe, né? Aqui, nesse país, sou uma estranha... — Disse, olhando para a foto de meus pais na prateleira sobre a TV na pequena sala.
— Olha, já falamos sobre isso. Você não é uma estranha. As pessoas daqui são encapsuladas em uma sociedade burguesa e egoísta, fundada em um padrão doente. Eu acho você mais normal do que muitos aqui. Essas tradições, às vezes, cansam a minha beleza. — Ela suspirou do outro lado da linha.
— Obrigada. Eu sempre me sinto melhor com você para me animar.
— Não desista. Você não veio parar do outro lado do mundo à toa, meu bem. Você caiu aqui de paraquedas para ser feliz.
Sorri ouvindo minha amiga. Ela era maravilhosa e sempre me alegrava.
— Olha, flor, eu tenho aula de violino agora. Até mais, te amo. E me deve uma noite das garotas.
— Com certeza. Vá lá e se torne uma ótima violonista, a melhor.
Ela desligou, e eu me senti bem novamente, apesar de ter que tentar uma nova abordagem amanhã. Joguei a cabeça no encosto do sofá, olhando para o teto, e pensei que talvez um bom banho me relaxasse.
---
JUN-HO
20:30
Subi para meu quarto, precisava de um banho. Entrei e fui direto para o banheiro, já tirando a gravata. Me despi em frente ao espelho, e a imagem da tutora veio à minha mente. Desde cedo, quando estávamos no escritório, algo nela era muito familiar.
Talvez a tenha visto na rua, não me recordava. Porém, aqueles olhos estavam na minha mente.
— Ah... — Resmunguei, pegando uma toalha limpa na gaveta da bancada e indo para o box.
---
Após o banho relaxante e vestir uma roupa confortável, resolvi passar um tempo com minhas filhas. Tinha passado pouco tempo com elas ultimamente.
Fui até a brinquedoteca, e lá estava minha pequena Nari brincando com alguns blocos, sentada no tapete colorido que ela tanto amava.
— Oi, meu bem. — Aproximei-me, sentando ao seu lado.
— Olá, papai. — Ela disse, concentrada em empilhar os blocos.
— Uau! O que você está fazendo?
— Construindo um castelo. — Ela colocou um bloquinho e a pequena torre caiu novamente.
— Sério? Posso ajudar?
Nari assentiu.
— Então vamos lá. — Peguei alguns blocos e comecei a montar, enquanto Nari observava com olhinhos brilhantes.
Aos poucos, o formato do castelo foi ganhando forma.
— Nossa, papai! É um castelo de verdade! — Ela exclamou eufórica.
— Está vendo? Um castelo para uma princesa. — Sorri, vendo o rosto feliz da minha garotinha com aquilo. — Vamos jantar? — Perguntei após terminar o design do castelo de blocos azuis e brancos.
— Claro, papai, estou com fome.
— Também estou. Aqui está seu castelo.
— Ficou lindo, papai. Vou brincar com as princesas assim que terminar de comer.
— Acho uma excelente ideia. Que tal ir lavar as mãos, hum?
— Está bem. — Nari levantou-se e saiu correndo.
— Ai, ai... Estou ficando velho para isso. — Resmunguei ao levantar, sentindo uma fisgada nas costas.
Fui até o quarto de Choon-Hee, bati na porta.
— Sou eu, o papai, querida. Posso entrar? — Esperei alguns segundos.
— Só um minuto, papai! — Ouvi sua voz abafada.
Esperei mais alguns segundos até a porta ser aberta.
— O que houve? — Indaguei, entrando no quarto.
— Nada, papai... Só estava ensaiando violino.
— Sério? Não ouvi o som. — Falei, observando o quarto e vendo o violino na poltrona.
— É que eu estava lendo as pautas.
— E como vão as aulas? — Perguntei, pegando o caderno sobre a cama.
— Estão indo bem, papai.
— Humm... E as aulas com a senhorita Oliveira? Como foi o primeiro dia? — Coloquei o caderno novamente na cama, encarando-a.
— A tutora? — Confirmou com a cabeça. — Ah, a gente sentou e fez uma planilha com o que vamos estudar primeiro e dividimos as matérias em prioridades.
— Ah, sim, claro. Parece bem pensado. Lave as mãos e desça para jantarmos, sim?
— Claro, papai.
Saí do quarto, desci as escadas e fui para a sala de jantar, onde vi Nari já sentada e Yang-mi servindo.
— Nossa, que cheiro bom. — Falei, aproximando-me e sentando na cadeira de cabeceira. — O que é?
— Sua comida preferida.
— Então vamos começar a comer.
Eu devia mais que um jantar em família para minhas filhas. Hoje era o dia de aniversário de morte da mãe delas, e em nenhuma dessas vezes eu as levei. Choon-Hee era grande o suficiente para entender o significado daquele dia, mas eu me sentia egoísta por não deixá-la participar daquele momento.
Mas eu só não queria que elas passassem ou sentissem o que eu sentia. Aquele vazio vinha à tona como uma ferida aberta que não cicatriza nunca.
— Iam começar sem mim? — Choon-Hee apareceu.
— Claro que não, querida. — Disse sorridente. — Até Yang hoje vai jantar conosco.
— Não, senhor, eu tenho muito o que fazer.
— Como assim? Yang, você trabalha aqui há quanto tempo? 10 dias? São 10 anos. Você é parte da família. — Eu disse.
— É, Yangnie. Vamos comer! — Nari disse alto, e todos rimos.
— Vamos lá, Yang, você é parte dessa família. — Choon-Hee disse, fazendo Yang-mi sorrir.
— Ah, tá bom. Vou pegar mais um prato.
— Não, senhora, deixa que eu pego. — Choon-Hee disse, levantando-se e fazendo Yang sentar na cadeira ao lado dela, indo pegar o prato.
Assim que Choon-Hee voltou, agradecemos pela refeição, e com certeza aquele foi um momento muito agradável. Ver minhas filhas sorrindo era algo maravilhoso. Éramos uma família, e eu jamais poderia deixar nada me fazer esquecer disso.