Rotina

1416 Palavras
O alarme das sete da manhã tocou. Abri meus olhos lentamente, tentando me acostumar com a claridade que entrava pelas cortinas. Tateei pelo criado-mudo e desliguei o aparelho. Virei-me de barriga para cima e olhei para o céu lá fora, refletido pelo vidro da janela. Mais um dia tinha que ser vivido, mas mais um dia sem minha esposa. Apesar de já se terem passado cinco anos, as lembranças eram tão frescas que eu as sentia exatamente como naquele dia. Claro, não chorava mais como antes; talvez fosse o costume de não a ter presente. Porém, o aperto familiar no peito era constante, como um lembrete macabro do que eu estava vivendo. O celular tocou. Estiquei-me e o peguei em cima do criado-mudo. — Alô? — Atendi, sem me dar ao trabalho de olhar quem era. — Bom dia. Desculpe incomodá-lo, senhor, mas a reunião que estava marcada para às dez foi remarcada para amanhã às quatro.— Disse a secretária da minha empresa. — E por quê? — O senhor Chonjang não poderá comparecer pois teve que ir a um velório. Velório… Aquela palavra secou minha garganta. — Claro… Tudo bem. Tenho mais algum compromisso hoje? — Não, senhor. A não ser pelas demandas dos processos, não há nada marcado. — Ok, então. Feche minha agenda. Irei trabalhar de casa hoje. — Sim, senhor. — Obrigado. — À disposição, senhor. Tenha um bom dia. Finalizei a ligação e coloquei o celular de volta no criado-mudo. Irei trabalhar de casa e aproveitar para passar um tempo com minhas filhas. Levantei e fui para o banheiro; talvez um banho melhorasse minha disposição. … Desci para a cozinha e o cheiro de café, juntamente com biscoitos amanteigados, estava excepcionalmente bom. — Que cheiro agradável! Bom dia! — Entrei na cozinha e fui até um armário. — Nossa! Assim o senhor me mata. — Falou Yang-mi, rindo e colocando uma mão no peito. — Que exagero. — Peguei uma xícara e fui até a máquina de café, colocando um pouco na xícara. — Quer que eu passe alguma camisa para usar hoje? — Yang-mi perguntou, enquanto colocava temperos em uma carne na panela. — Não, por quê? — Tomei um gole do café e fui até o balcão pegar alguns biscoitos que estavam em uma bandeja. — Vai mais tarde para o trabalho? — Yang-mi me olhou. — Ah, sim, não vou hoje. Desculpe, estou meio aéreo hoje. — Falei, mastigando alguns biscoitos que peguei da assadeira em cima do balcão. — Cadê as meninas? — Olhei para o relógio, que marcava oito e meia da manhã. — Nari foi para a escola e Choon-Hee está no quarto. — Ela não levantou ainda? — Sim, já tomou café. Ela foi se preparar para as aulas daqui a pouco. A tutora virá hoje novamente! — Hummm… E que horas a senhorita Oliveira chega? — Já chegou, senhor. Está na biblioteca. — Certo. — Tomei o restante do café e me levantei. — Yang-mi, eu vou estar no meu escritório trabalhando. — Tudo bem. --- Saí em direção ao meu escritório, que fica no corredor depois da escada. Passei em frente à biblioteca, que estava com a porta entreaberta, e parei ali, observando a garota mexer em alguns livros na seção de romances. Ela pegou um livro na terceira prateleira de cima e o abriu após analisar a capa. Passava as páginas lentamente, observando minuciosamente cada uma, enquanto mordia o lábio inferior. Havia algo intrigante em sua maneira de agir. A forma como examinava o livro com tanta atenção e delicadeza parecia revelar um lado sensível e introspectivo dela. Não sabia exatamente por que estava ali, observando-a, mas havia algo curioso nela que não conseguia identificar. O cabelo dela... onde eu já vi aquele cabelo? Era um detalhe familiar, mas não conseguia lembrar de onde. Talvez fosse uma coincidência, mas a sensação de déjà vu persistia. Essa sensação de familiaridade e mistério me deixou desconcertado, e continuei a observá-la. Na verdade, eu estava me sentindo estranho com tanta curiosidade; há anos não me sentia assim. Abri a porta devagar e ela nem se mexeu. Então pigarrei para chamar sua atenção. — Oh, meu Deus! — Ela soltou o livro no chão. — Me desculpe… eu… eu não queria mexer, era só eu… Ela pegou o livro do chão, falando sem parar e evitando me olhar. Me aproximei. — Posso? — Estendi a mão. — Como? — Ela me olhou confusa. — O livro, posso? — Olhei para o objeto e depois para ela. — Ah, sim, claro. — Ela me entregou o livro. Peguei e analisei a capa, dedilhando o relevo que possuía. "Quando a primavera se apaixona" li o título em voz alta , sorrindo sem graça em seguida. — É… é uma história muito bonita. — Ela falou, e eu voltei a olhar para ela . — Sim, uma bela história. — Coloquei o livro no lugar e coloquei as mãos no bolso da calça. — Desculpe, senhor, não queria ser intrometida e mexer em nada que não é meu. É só que é difícil estar em uma biblioteca tão bonita e não querer ler cada livro aqui. A observei falando enquanto olhava para a prateleira. Mesmo sob os óculos, seus olhos brilhavam. Ela me olhou e voltou sua atenção para o chão, parecendo envergonhada. Colocou uma mecha que estava fora do r**o de cavalo atrás da orelha. — Não tem problema. Aprecio seu bom gosto em literatura. — Sorri. — E… e a senhorita Choon-Hee? — Indagou, saindo de perto de mim, indo até a mesa, abrindo sua bolsa e tirando um caderno. — Vou pedir para Yang chamá-la. Vou para o meu escritório então. Se precisar de algo, pode chamar. — Falei, olhando para o meu relógio de pulso. — Tenha uma ótima aula, senhorita Oliveira. — Obrigada, senhor. — Ela disse antes que eu saísse. Fechei a porta e fui para o meu escritório. Peguei o telefone e liguei para a cozinha. — Yang, por favor, peça para Son-He chamar Choon-Hee para a aula na biblioteca. Obrigado. Desliguei e me virei para a janela atrás de mim, observando o jardim. Apesar de ser um dia frio, o sol iluminava tudo, como um manto quente, deixando o orvalho brilhante como pequenas gotas de cristal. Aquele livro… justamente aquele livro que eu não pegava há anos. Quando a vi folheá-lo, uma onda de sentimentos e nostalgia invadiu meu peito. Mas, ao invés de sentir a tristeza dilacerante de outras vezes, senti um reconfortante e suave sentimento bom. Meus pensamentos foram interrompidos quando uma notificação de mensagem chegou no meu celular. O som do alerta me fez voltar à realidade, e, por um momento, a visão da garota e do livro se misturou com o ruído das notificações. Me virei, pegando o celular no bolso e conferindo a mensagem com um revirar de olhos. "Não sabia que o chefe tirava folga" Li a mensagem de Si-Woo. Me sentei na poltrona, coloquei o celular de lado, pus os óculos e liguei o computador. E novamente meu celular vibrou, e outra mensagem apareceu na tela. "Vai me ignorar?" Li e ignorei, digitando a senha e abrindo meus arquivos da empresa. E novamente meu celular vibrou uma, duas, três vezes, o que me fez revirar os olhos com a quantidade de "Eu sei que está lendo." Apertei o botão e fechei a tela, me concentrando em ler o documento. Alguns minutos de silêncio se passaram até que meu celular tocou e recusei a chamada. Então, meu telefone fixo tocou. — Fala! — Disse, com raiva, tirando os óculos. — Ora, ora, ele resolveu atender. — Si-Woo, você está parecendo uma criança. O que você quer? — Quero saber por que o chefe da empresa não está aqui agindo como chefe. — Essa é a vantagem de ser o chefe. — Me encostei na cadeira. — E estou agindo como tal neste momento e sugiro que volte a trabalhar também. A risada de Si-Woo me fez rir também. — Só queria saber como você está. Fiquei preocupado porque não veio trabalhar. Suspirei. — Estou bem. Apenas não tinha compromissos aí hoje e resolvi trabalhar de casa, almoçar com minhas filhas. — Fico feliz que esteja bem. — Obrigado. Ah, e eu realmente falei sério quando disse para você voltar ao trabalho. — Sério? — Até mais. — Espera aí, Ju… — Antes que ele terminasse de falar, desliguei o telefone.
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