Chegou a ''substituta''

1623 Palavras
É manhã de segunda. Marco já havia marcado o encontro entre Dante e Giulia — por enquanto, um segredo. Ninguém sabia. Dante acorda revigorado, focado em seu objetivo. Parecia não se incomodar com a escolha que fizera, tampouco com o amor que deixara para trás. Sua única preocupação era garantir que a empresa fosse dele. Egoísta? Talvez. Mas, nesse mundo dos negócios, ninguém sobrevive se não for um pouco. Depois de se arrumar, desce para o café da manhã. Ao descer as escadas, encontra Vicente, o mordomo, que o lembra do encontro marcado para o meio-dia. Dante confirma com um aceno e segue para a cozinha. Caterina o espera à mesa, com um sorriso de orelha a orelha. — Bom dia, meu filho! Sente-se, fiz questão de te servir um pão de queijo — veio direto do Brasil, da minha amiga Carolina, uma chef famosíssima! Dante estranha o entusiasmo da mãe, mas ignora. Ele ainda não havia percebido que Caterina torcia pela sua queda. Inteligente como era, faltava-lhe enxergar certas verdades da própria vida — especialmente as que envolviam sua mãe. Enquanto tomam café, Marco surge pronto para sair. Assim que o vê, Caterina muda de expressão — como se tivesse visto um fantasma. — Aonde você vai? — pergunta, forçando um tom leve. — Trabalhar — responde Marco, firme, sentando-se e pegando um pão de queijo. — Pensei que tivesse desistido disso... ainda não se decidiu? — Não conversamos sobre trabalho à mesa, Caterina — corta ele, direto. Ela solta uma risada debochada. — Você é inacreditável! — Não entendo seu interesse nesse assunto. Isso é uma decisão minha. — Marco a encara, deixando-a sem resposta. Caterina levanta-se e sai da cozinha. Dante e Marco trocam um olhar silencioso enquanto o vapor da xícara de café sobe. — Tudo certo pra hoje? — pergunta Marco. — Tudo certo. — Ótimo. — Marco se levanta, pega a maleta e vai embora. Dante termina o café e segue para o jardim lateral da mansão. Fica observando o sol, refletindo sobre suas escolhas. Pega o celular e disca o número de Selena. Antes que complete a chamada, desliga. Guarda o telefone e entra em seu carro de luxo. Enquanto isso, Selena desperta em meio a uma bagunça de confetes e papéis coloridos espalhados pela cama — parecia que tinha voltado do carnaval. Espreguiça-se e olha para o lado: Vittoria está jogada no tapete da sala. — Ah, droga! — murmura, vendo as horas. Corre pro banho. Quando sai, Vittoria aparece na porta, com os cabelos bagunçados e expressão confusa. — O que aconteceu ontem? Eu morri? Fui atropelada por um trator? — Relaxa — ri Selena — foram as vodkas com aquele gringo. — Nossa, tô destruída. Mas... e o cara que você estava dançando? — Nem disso você lembra? — Não! — Ele levou a gente pra casa. Ele estava indo para casa e viu eu arrastando você e ofereceu carona. Só isso. — Você não ficou com ele? Amiga, ele era um gato! — Não, só conversamos. Ontem eu só queria dançar. — Mas pegou o número dele, né? Diz que pegou... — Claro! — Disse selena com um sorriso de canto As duas riem, sem imaginar que o amor da vida de Selena estava, naquele momento, se preparando para outro encontro. Selena tenta se distrair com outros homens para esquecer Dante. Como sempre fez, além do medo de se machucar tem o relacionamento de fachada que hora ou outra alguém irá descobrir, fora que não acredita que Dante poderá se apaixonar por ela, no fundo imagina que está só sendo usada, mas cedo ou mais tarde será descartada como uma roupa velha que não serve mais. Enquanto Dante e Marco estão na empresa, Caterina liga para Salvatore. Irritada com o rumo dos acontecimentos, propõe um novo plano. Salvatore, indignado, diz que precisam se encontrar o quanto antes. Ela sugere um jantar no fim de semana. Ele n**a, lembrando que o último jantar foi um desastre. Mas Caterina insiste — afirma que Salvatore precisa se aproximar mais do pai, pois isso o favorece, ele continuar distante dificulta o controle da situação. Por fim, combinam o jantar, acreditando estar perto de retomar o poder. Em San Vito Lo Capo, Giulia Borghese desfruta sua manhã sem preocupações. De maiô branco, óculos Gucci e taça de vinho na mão, observa o mar, sentindo a brisa bater em seus cabelos negros . Seu pai, Arthuro — prefeito da comuna Italiana e velho amigo de Marco — se aproxima de roupa social branca, charuto nos lábios e chapéu de palha. — Ti stai godendo la giornata, tesoro? — pergunta, sorrindo. — Sì, papà — responde Giulia, rindo. — Estou aproveitando minhas férias. — E o almoço com Dante? Continua de pé? — Sim, marcado pra daqui a duas horas. — Ótimo. — Ele beija a testa da filha e se afasta, soltando uma nuvem de fumaça. — Deveria parar de fumar, papà! Seu pulmão deve estar só o pó! — grita Giulia, divertida. Dante sai de uma reunião importante segurando sua maleta executiva clássica. Olha o relógio e segue em direção à porta, mas é interrompido pelo pai. — Indo para o encontro, filho? — Sim, já está na hora — responde Dante, com uma das mãos no bolso esquerdo. Marco toca o ombro do filho e o encara. — Lembre-se, filho. Na vida, às vezes é preciso fazer sacrifícios. Nem sempre, mas em algum momento... temos que fazer. Marco se afasta, caminhando com um grupo de executivos em direção à própria sala. Dante observa o pai de longe. Os passos dele eram lentos e cansados. Marco trabalhou tanto a vida inteira que esqueceu de cuidar da própria saúde. Resultado? Envelheceu antes do tempo. Aos cinquenta anos, aparentava ter setenta. A caminho do restaurante La Famiglia, onde encontraria Giulia, Dante aproveita a vista enquanto ouve sua música preferida — Somebody That I Used to Know — batendo o ritmo na perna. Ao se aproximar do restaurante, pronto para estacionar, ele avista Selena. Imediatamente tira o cinto e sai apressado. — Selena? — chama, empurrando a porta. Selena está de costas. Ouve tudo, mas finge não ouvir. Murmura para Vittoria: — Finge que não ouviu, finge que não ouviu... — e sai andando apressada. Dante corre atrás e a alcança. — Selena! Sem ter como disfarçar, ela se vira. — Ah... olá, Dante. Não ouvi você chamando, desculpa. Estávamos conversando. — Ri de leve. — Tudo bem... eu, hm... preciso falar com você. É coisa rápida. – Diz Dante desconfortável Vittoria, sem saber se está atrapalhando, segura a bolsa no ombro. — Posso ir andando? Depois a gente se encontra. Selena arregala os olhos e faz um gesto negativo. — Não! Quer dizer... estamos com pressa, Dante. Podemos conversar outra hora? Antes que ele respondesse, uma voz feminina ecoa de longe: — Dante? Oh, mio Dio! Finalmente te encontrei! Todos se viram. Uma jovem se aproxima com passos firmes — óculos escuros de grife, pele branca como a neve, cabelos negros curtos. Veste um vestido bege com leve decote e botas de couro finas. — Giulia? — diz Dante, surpreso. Ela sorri e o cumprimenta com um beijo bem próximo da boca, deixando o ar pesado. Selena e Vittoria ficam paralisadas. Giulia, segurando o braço de Dante, olha para as duas: — Não vai nos apresentar? — Claro... Selena e Vittoria, essa é a Giulia, minha... — ele hesita, tentando achar uma palavra. Giulia completa: — Namorada. Sou a namorada do Dante. — Aaah, uau! Vocês combinam muito. Parabéns — diz Selena, tentando fugir da situação, mesmo em choque. — É, parabéns — repete Vittoria, desconfortável. — Então, foi um prazer te conhecer, Giulia, mas eu preciso ir. Adeus, Dante — diz Selena em tom firme. Dante tenta responder, mas as palavras não saem. Selena e Vittoria caminham rápido até o carro. — O que foi isso?! — pergunta Vittoria, chocada. — Não sei... que safado! É só isso que eu tenho pra dizer! Como ele pode estar comigo e, do nada, aparecer com uma namorada?! Eu sabia que ia dar nisso, eu sabia! — diz Selena, indignada, olhando os dois conversando pelo vidro do carro. — Amiga, ele já estava com ela... ou te substituiu em uma noite? — Não sei, Vittoria. E quer saber? Nem importa. Não estávamos namorando de verdade, lembra? — responde Selena, tentando manter a compostura, mas tremendo de raiva. — Tem certeza que isso não te afetou? — Não. Tô bem. Tá tudo bem. Vamos! — encerra, seca. Giulia esperava há anos por esse momento. Estar com Dante era o sonho da adolescência. Sempre que tentava se aproximar, ele aparecia com outra. Nunca tivera chance. Agora, não pretendia perder. Seus planos iam muito além de um namoro: queria casar, ter filhos, viver uma vida como a dos pais. Giulia não fazia ideia do relacionamento entre Dante e Selena — mas algo na energia entre os dois a incomodou. — Quem é aquela mulher? Selena, não é? — pergunta, com o olhar afiado. — É... uma amiga — responde Dante, folheando o cardápio. — Não precisa ficar sem graça. Ela é sua ex? — questiona, como se já soubesse a resposta. — Sim, é minha ex. Mas olha, não gosto de falar sobre o passado. Principalmente no primeiro encontro — diz Dante, educado. — Tudo bem, eu entendo. Mas, se vamos começar um relacionamento, preciso saber da sua vida... e você da minha, não acha? — Sim, claro. Mas não é melhor começarmos falando sobre nós? Sobre o que queremos, antes de falar do passado? — responde ele. Giulia sorri e dá um gole em sua água, sem desviar o olhar de Dante.
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