A substituta e a Sequestrada

2929 Palavras
Selena chega em casa acompanhada de sua amiga Vittoria. Coloca as compras sobre a mesa, enquanto ela a observa com atenção — o olhar distante, a expressão abatida. Parecia até ter emagrecido. Vittoria nunca tinha visto Selena sofrer por um homem… era a primeira vez. — Então, amiga, já teve ideias pra nova coleção? — perguntou Vittoria, quebrando o silêncio. — Precisamos abrir a loja com novidades. Não dá pra continuar na mesma. E, nesses últimos dias, ela m*l abriu. Vamos perder clientes. Selena continua quieta, tirando as frutas da sacola, fingindo foco total, mas ouvindo tudo. — Não sei, Vi. Ainda estou pensando. — responde sem muita energia. — Olha, não é querendo te apressar, nem te deixar m*l… mas ultimamente você tem deixado de fazer a coisa que mais ama: trabalhar com moda. Essa não é a Selena que eu conheço. Selena suspira fundo, encara a amiga com um olhar estranho, meio cansado: — Você tem razão, Vi. Você tem toda razão. Eu tô apagada… parece que esqueci do meu propósito. — É isso aí! — Vittoria sorri. — Tá na hora de renascer, como uma fênix. E pra isso, chega de homens por enquanto! Foca na nova coleção. — É isso, Vi! Hoje a gente vai focar só na coleção. Cem por cento! Dessa vez, Selena parecia diferente — mais firme, mais ela. Estava reencontrando o que tinha perdido em meio a um relacionamento de fachada e toda a confusão com Lorenzo. Em poucos dias, sua vida virou de cabeça pra baixo sem que percebesse. Naquele dia, mergulhou de vez no trabalho. Ela e Vittoria passaram horas estudando, desenhando croquis, buscando referências. Selena queria criar algo que trouxesse nostalgia e luxo, mas com um toque moderno. Seu público ia de senhoras elegantes de 70 anos a jovens de 25 — precisava encontrar o ponto perfeito entre o clássico e o atual. Depois de muito pensar, ela encontrou o conceito ideal. “Monaco 60s”, a coleção seria inspirada no glamour dos anos 60 — uma homenagem a Grace Kelly, Audrey Hepburn e outras figuras icônicas da época. Cercada por tecidos e papéis, Selena coloca Lana Del Rey pra tocar. Era seu ritual criativo — sempre que buscava inspiração, deixava a voz melancólica de Lana guiar suas ideias. Enquanto isso, do outro lado, Dante e Giulia almoçam juntos, conversando sobre a vida. Giulia conta como foram seus últimos anos — diz que, desde a última vez que viu Dante, só teve um namorado e que nenhum homem a valorizou. Confessa, sem rodeios, que sempre foi apaixonada por ele, e que estranhou o pai dele marcar aquele encontro depois de tantos anos. Dante escuta, meio surpreso, meio confuso. (“Então ela ainda não entendeu que esse relacionamento é de fachada?”), pensa. Giulia continua falando, agora sobre o trabalho. Longe dos negócios da família, seguiu carreira como advogada. — Meu pai só vai me querer na empresa quando morrer — diz ela, com um meio sorriso. — Ele sempre fala: “aproveite enquanto pode, essa vida de negócios rouba o tempo precioso que a gente tem”. Ela ri, brinca, e então solta: — Gosto de ser advogada, gosto de viajar… mas agora quero agilizar as coisas. Casar, ter filhos. Esse é o meu objetivo. Dante quase engasga. Ainda não se via tendo filhos, muito menos preso em um casamento. Bebe um gole d’água e olha pro relógio. — Giulia, eu adoraria ficar mais tempo, mas tenho uma reunião online com o grupo dos Estados Unidos. A gente pode marcar outro dia, tudo bem? Giulia sorri com charme, leva a ponta dos óculos à boca e diz num tom provocante: — Vida de CEO, tô acostumada, Dante. Mas a gente vai se ver em breve… Eles se levantam. Dante vai beijar sua bochecha, mas ela o surpreende com um beijo rápido nos lábios. Depois, sai do restaurante desfilando como uma modelo — deixando um rastro de perfume e confusão na cabeça dele. Dante corre em direção ao carro com algo em mente: ir até a casa de Selena para conversar sobre tudo o que aconteceu. Não podia passar mais um dia pensando naquilo. Precisava ter certeza do que ela realmente queria, pois sua vida estava tomando um rumo que ele não desejava. Casar e ter filhos deveria ser com alguém que se ama, não por necessidade. Ele entra no carro e dirige até o prédio de Selena. Ao chegar, estaciona e observa o movimento da rua, tentando organizar o que vai dizer. Como explicar que agora está namorando uma amiga de infância apenas dois dias depois de terem “terminado”? Vendo que não há mais para onde fugir, Dante decide subir. O prédio é antigo e não tem elevador, então ele sobe as escadas até o quarto andar. Para em frente ao apartamento 06, toca a campainha e espera ansioso, com as mãos nos bolsos da calça. Logo ouve passos se aproximando. A porta se abre. Selena o encara como se tivesse visto um urso gigante, com expressão confusa. — O que faz aqui? — Precisamos conversar. — Não temos mais o que conversar, Dante! — diz ela, sem entender sua presença. — Posso entrar? — Tudo bem Entra. Dante entra no apartamento e a segue até a cozinha. — Sobre a Giulia, nós estamos… — Namorando, eu sei. Ela me falou, lembra? — responde Selena, sarcástica. — Sim, estamos, mas… — Ainda tem ‘’mas’’? Não me diga que a engravidou. Parabéns. — Não! Começamos a namorar agora. Por que você está tão chateada, se foi você quem quis desistir de tudo? — Você nem tentou, só desistiu! A única coisa que quer é alguém pra te fazer alcançar a cadeira da empresa. Isso é doentio. — Tínhamos um acordo. Você desistiu. O que eu deveria fazer? Te forçar? Eu não forço ninguém a ficar, Selena. — Então volta pra sua namorada, Dante! O que está fazendo aqui? — rebate ela, furiosa. — Só quero entender. Está chateada comigo por eu fazer o que é melhor pra mim. Nosso relacionamento era de fachada. Parece que você acabou confundindo as coisas — diz Dante, tentando arrancar alguma reação dela. — O quê?! Eu confundindo as coisas? — ri com deboche. — Dante, quero que seja muito feliz. Pode ir embora. — diz Selena, indo em direção à sala repleta de papéis e tecidos. Dante a observa de longe, sem saber o que fazer. Afinal, ele é um cavaleiro — não quer tomar nenhuma atitude que piore ainda mais a situação. Mesmo sentindo paixão por Selena, não pode admitir. Primeiro, porque não tem certeza se ela sente o mesmo. Segundo, porque agora está com Giulia. A responsabilidade com a empresa da família já está lhe tirando coisas antes mesmo de começar. — Não podemos ser amigos? — Pergunta pra sua namorada o que ela acha de você ser amigo da sua “ex”. — diz Selena, cruzando os braços e erguendo a sobrancelha. — Tudo bem. É uma pena. — responde Dante, indo em direção à porta, desistindo. Selena o observa saindo e, de repente, dispara: — Você não se incomoda de estar com alguém só por causa da empresa? — Me incomoda, mas eu não tenho escolha. — Claro que tem! — Não tenho. Meu pai precisa de mim. Farei o que for preciso. Sinto muito por ter te machucado. — diz Dante, levando a mão à maçaneta. — O que aconteceu naquela noite… fez parte do acordo? Ou você só não consegue ver uma mulher de toalha mesmo? Dante volta e encara Selena profundamente. Sua respiração acelera. — Eu quis. E gostei. Não tinha nada a ver com o acordo. Você sabe disso. — Tá, era só isso que eu queria saber. — diz Selena, abaixando a cabeça e cruzando os braços, encerrando o assunto. — Adeus, Selena. — diz Dante, saindo cabisbaixo. O clima fica pesado. Selena de um lado, Dante do outro — dois corações apaixonados e quebrados. Ela não podia continuar em um relacionamento de fachada se estava sentindo algo real por ele. No fundo, o que mais queria era ouvir da boca de Dante que aquilo não era só uma farsa. Sem saber que ele também esperava o mesmo: que ela dissesse que queria ficar, que estava apaixonada e não aguentava mais viver sem ele. Mas o orgulho e o ego não deixavam. O conflito interno entre escolher a empresa e o amor o consumia por inteiro, impedindo-o de raciocinar com clareza. A pergunta que fica é: até onde Dante conseguirá ir pela empresa do pai? Dante chega em casa. Sua mãe está lá, como sempre, sem se preocupar com o dia de ir embora. Com o plano mirabolante com Salvatore já esquematizado, ela se prepara para dar a notícia do jantar de fim de semana a Dante. Mas, ao se aproximar com o sorriso largo e aquela falsa simpatia, Dante a ignora. — Não tô afim de conversar agora, Mamma. — diz ele, subindo as escadas e deixando a mãe perplexa. Chateada, Caterina vai até o escritório de Marco, mas ele ainda não chegou. Sem ter o que fazer, decide esperar. Vai até a cozinha e pede que Vicente providencie um jantar com pratos diferentes — queria comida mexicana. Vicente fica surpreso com a audácia da mãe de Dante em lhe dar ordens. Sem saber mais quem realmente é o chefe da casa, responde com delicadeza: — Sra. Caterina, irei verificar com o Sr. Dante. — Como assim “verificar com o Dante”? Eu estou pedindo! — Compreendo que queira algo diferente, senhora, e podemos fazer isso. Mas, antes de preparar um jantar apenas com comida mexicana, preciso da autorização do chefe da casa, o Sr. Dante. Com licença. — diz Vicente, em tom firme e elegante, saindo. Caterina não se dá por satisfeita. Tinha que fazer alguma coisa para impor respeito. Afinal, é uma mulher de 45 anos, rica e mimada, acostumada a ter tudo do seu jeito — não importava o quê, onde ou como, ela apenas queria que fosse feito. Cansada de se sentir contrariada, vai até o quarto de Dante, pronta para reclamar do mordomo. Dante está no banho, relaxando o corpo cansado e implorando por um dia de descanso, quando ouve batidas na porta. Bufando, sai enrolado na toalha e abre. — Mamma? O que houve? — Meu filho, me diga uma coisa: por acaso eu não sou bem-vinda na sua casa? — Como assim, Mamma? O que houve? — pergunta Dante, exausto. — Seu mordomo não me respeita! Pedi pra ele preparar um jantar mexicano e ele se recusou! — Deve ter sido um m*l-entendido, Mamma. Eu converso com ele. — Não! Eu sou sua mãe. Como ele pode me negar isso? — Mamma, o Vicente é um mordomo experiente e segue regras bem rígidas. Ele só obedece às minhas ordens, de mais ninguém. Mas pode deixar, eu falo com ele. — diz Dante, querendo encerrar o drama. — Tudo bem, se é assim... — diz Caterina, saindo murcha, frustrada por não ter suas vontades atendidas. Dante é um bom filho, trata os pais com carinho, sem nem imaginar o que Caterina esconde dele e de Marco. Ele volta para o quarto e começa a se vestir. Enquanto coloca o calção, o telefone toca — é Giulia. Ele atende com sua voz doce e sedutora de costume. Giulia pergunta como foi o dia e se ele gostou do encontro. Ele diz que sim. Durante a ligação, ela pergunta quando irão se ver novamente, ansiosa para conhecê-lo melhor. Giulia não é uma jovem impulsiva; é centrada e decidida. Quando quer algo, vai até o fim. Mesmo sabendo do relacionamento de fachada, está disposta a ir além. Dante demonstra cansaço. Giulia percebe e pergunta se está tudo bem. Ele responde que só precisa descansar. Ela se despede, prometendo ligar outra hora. Os dois desligam, e Dante se deita pronto para cochilar. Do outro lado da cidade, em San Vito Lo Capo, Giulia está pensativa em sua sala luxuosa. — Então quer dizer que ele está correndo atrás daquela sirigaita? — murmura sozinha. Giulia havia seguido Dante após o almoço. Saiu primeiro, mas ficou escondida com o carro por perto e o seguiu até a casa de Selena. Agora ela sabe que Selena está no meio de seus planos — e não vai deixar ninguém tomar Dante novamente. Horas depois A noite cai e Marco chega em casa. São 18h. Ele abre a porta da sala segurando a maleta e, com a outra mão, tenta afrouxar a gravata. Caterina o vê de longe e vai em sua direção, pronta pra tirar o pouco de juízo que ainda resta nele. — Querido, que bom que chegou — diz ela, levando as mãos até a gravata para ajudá-lo a tirar. Marco revira os olhos, mas deixa. — Então, como foi o dia hoje? — continua ela. — Normal, cansativo. Nada de novo. — Entendo… é o corpo pedindo pra parar. — Caterina, não vamos começar com isso de novo. — O quê? Não estou dizendo nada demais, apenas a verdade. Você não está mais em condições de trabalhar. Marco a afasta e sai andando pela casa, mas Caterina o segue. — Precisamos conversar. Você anda estranho ultimamente. Nós andamos estranhos ultimamente. — E você sabe por quê. Não se faça de desentendida, Caterina, isso é irritante — diz Marco, virando-se para o quarto, decidido a tomar um banho e encerrar o assunto. Caterina fica parada na sala, refletindo sobre o que pode ter irritado o marido. Sem compreender que o problema são suas próprias atitudes, imagina que tenha sido apenas a última discussão — e, como sempre, ignora. Enquanto isso, Dante acorda de um sono profundo da tarde e desce para jantar. Sua mãe está pronta pra reclamar: avisara que não há janta, já que ele esqueceu de avisar Vicente sobre a comida mexicana. Mas, prevenido, Vicente pediu ao chefe que preparasse o prato preferido de Dante — afinal, ele nunca foi muito fã de comida mexicana. Na mesa, está a sopa de abóbora com cogumelos e legumes — uma delícia. Dante saboreia tranquilo, enquanto Caterina lança olhares fulminantes para Vicente, obrigada a comer a sopa que odeia, acompanhada de uma banda de pão integral. Vicente, por sua vez, parece ter feito tudo de propósito pra colocar Caterina no devido lugar — percebeu há tempos que suas intenções não são puras com o filho. Vicente é um homem experiente, atento, uma verdadeira águia. Não foi à toa que Dante o contratou. Enquanto Dante se delicia com seu prato preferido, do outro lado da cidade, Selena está em casa, cercada por tecidos e papéis. Vendo que não há espaço nem pra jantar em meio àquela bagunça, decide sair e encontrar a amiga Vittoria num restaurante próximo. Agora as duas estão mais próximas do que nunca. Selena desce do apartamento segurando o celular, prestes a ligar para Vittoria enquanto caminha pela calçada. De repente, um carro preto para ao seu lado. Dentro dele, vários homens engravatados. Um deles sai e a agarra pelo braço. Selena tenta se soltar, mas ele é muito mais forte. O celular cai no chão e, em seguida, ela é empurrada pra dentro do carro. Um dos capangas coloca um pano em seu rosto — e ela desmaia. Passam-se dez minutos. Vittoria a espera no restaurante, ansiosa, sem entender o motivo da demora — afinal, a casa dela fica a apenas duas ruas dali. Impaciente, decide ligar para Selena. O telefone demora a atender, até que finalmente uma voz feminina responde: — Alô, Selena? Onde você está? — Oi… não é a Selena. Acabei de achar esse telefone aqui no chão, na rua do banco — diz uma mulher desconhecida. — O quê?! Esse telefone é da minha amiga! Você pode esperar um minuto? Eu vou aí buscar! — responde Vittoria, desesperada. A mulher aguarda. Quando Vittoria chega, faz um monte de perguntas, mas a desconhecida não sabe de nada. — Eu só estava passeando com meu cachorro quando ouvi o celular tocar na calçada — explica. Vittoria sente o desespero crescer. Corre até o apartamento de Selena, bate várias vezes — ninguém atende. Pega a chave reserva e entra. O lugar está vazio. Sem saber o que fazer, pega o celular de Selena e decide ligar para Dante — a única pessoa que andava com ela ultimamente. Dante vê o nome de Selena na tela e fica ansioso. Estranha ela ligar depois da conversa tensa que tiveram, mas atende rápido. — Olá, Selena! — Não é a Selena, é a Vittoria. Ela não está com você? — Não… só a vi à tarde — diz Dante, já levantando e indo em direção ao jardim, muito preocupado. — p***a! — grita Vittoria, nervosa e tremendo. — Alô, Vittoria? O que aconteceu? — Eu não sei! A gente marcou um jantar no restaurante perto da casa dela e ela não apareceu. O celular dela foi encontrado na calçada! Uma mulher achou e me devolveu. Ai, Dante, eu tô muito preocupada! — Calma, Vittoria. Vamos esperar mais um pouco pra ver se ela aparece. Se demorar, vamos à delegacia, tudo bem? — diz Dante, tentando mantê-la calma, mas a voz denuncia o nervosismo. — Eu tô indo pra aí. Me espera! Dante desliga e corre para pegar o carro, completamente nervoso e ansioso. Sua mãe observa de longe, curiosa, sem ter ideia do motivo daquele alvoroço.
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