POV Aurora A casa nunca esteve tão quieta. Nem nos piores dias. O relógio da sala marcava quatro e quarenta e cinco, e cada tique era um prego batendo no meu peito. Helena descia as escadas devagar, o salto ecoando como um aviso. Vestido vermelho, decote profundo, perfume doce demais — o tipo de perfume que disfarça o desespero. Eu fiquei parada perto da parede, com a blusa de gola alta e mangas compridas, mesmo com o calor sufocante do verão. Aquela roupa me fazia sentir protegida. Ou talvez fosse só a ilusão de que ainda podia esconder alguma parte de mim. Meu pai andava em círculos pela sala, o rosto pálido e suado. Minha mãe, sentada, mordia o lábio até quase sangrar. Ninguém falava. Mas o ar já denunciava que algo terrível estava prestes a acontecer. Foi quando ouvimos o

