Capítulo 4: O Labirinto da Mente

525 Palavras
POV: Yasmin O mundo lá fora parece girar em uma velocidade que eu não consigo acompanhar. A depressão é como estar submersa em água gelada: você vê as pessoas na superfície, ouve os gritos, mas tudo chega distorcido. No dia 1º de janeiro, a água ficou turva de sangue. O Guel se foi. O meu primo, o meu porto seguro, foi enterrado enquanto o resto do mundo estourava champanhe. Eu estava sentada no canto do sofá, as mãos tremendo, mas meus olhos não descansavam. Enquanto minha mãe e Lorena gritavam ou choravam, eu analisava. Eu lembrava de cada rosto que sentou à mesa com o Guel nas últimas semanas. Eu repassava cada risada forçada daqueles "amigos", cada olhar ganancioso que eles lançavam para os pontos dele. A traição tem um cheiro específico, e ele estava impregnado naquelas pessoas. Minha ansiedade gritava, o ar faltava, mas eu não podia desmoronar. Não ainda. Eu tinha uma tarefa que parecia mais pesada que o próprio caixão do Guel: visitar o Benjamin e contar que ele agora era o único homem que nos restava. Vinte dias depois da morte, eu estava diante do acrílico frio daquela sala de visitas. O cheiro de desinfetante e medo me dava náuseas. — Cadê o Guel, Yas? — o Benjamin perguntou, assim que sentou. Os olhos dele, fundos pelo uso de drogas que começou quando ele ainda era uma criança, brilhavam de uma esperança que eu estava prestes a matar. — Ele disse que vinha me ver hoje. Ele disse que o ano ia começar diferente. Minha garganta fechou. O aperto no peito, aquela mão invisível da ansiedade, me esmagou. — O ano começou, Ben... — minha voz saiu como um sussurro quebrado. — Mas o Guel não veio com ele. O silêncio que se seguiu foi o pior da minha vida. Vi o rosto do meu irmão se transformar. A dor, a incredulidade e, por fim, o terror puro. — Trairagem, Yas? Foi trairagem? — ele encostou a testa no vidro, as mãos algemadas tremendo. — Eu tô aqui dentro, irmã! Se pegaram ele lá fora, eu sou um alvo fácil aqui dentro! Eles querem tudo o que era dele! — Eu sei, Ben. Eu sei — eu disse, e senti a primeira engrenagem daquela bomba dentro de mim girar. Eu olhei para os lados, para os guardas, para os outros detentos. Ali, naquele lugar frio, eu percebi que a minha depressão não podia mais me manter na cama. Eu precisava de um plano. O Benjamin não teve mãe, não teve infância, foi humilhado e judiado nas ruas desde os dez anos... eu não ia deixar que ele tivesse um fim num pátio de presídio. Saí dali sentindo o peso do mundo, mas com uma certeza: a justiça não viria de Deus, nem da polícia. Ela viria de mim. Eu ia descobrir cada nome. Cada rato que apertou o gatilho contra o Guel e cada verme que estava planejando o fim do Benjamin. A Lorena podia ter a força física, mas eu... eu tinha o tempo e o silêncio. E o silêncio é a melhor arma para quem quer explodir um império.
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