POV: Yasmin
O fim de semana chegou trazendo o silêncio ensurdecedor da ausência. A casa parecia um túmulo. A dor do luto, misturada com aquela ansiedade que faz o coração parecer um motor desregulado, me empurrou para fora. Eu precisava beber. Precisava de algo que queimasse mais que a memória do caixão do Guel sendo baixado.
Sentei em um bar de esquina, longe dos olhares da Abigail e das provocações do Gustavo. O copo na minha frente era o meu único confidente.
Enquanto o álcool descia, minha mente — que nunca para, nem quando eu quero — começou a conectar os pontos. O Guel tinha deixado territórios. O Benjamin, mesmo lá dentro, ainda tinha o respeito de alguns pontos que agora estavam parados, como presas fáceis para os mesmos urubus que o traíram.
Se eu ficasse parada, os traidores levariam tudo. Se eu ficasse parada, o Benjamin seria executado por não ter mais "valor" para o crime.
— Você está pensando no mesmo que eu? — a voz do Vítor me trouxe de volta.
Meu marido sentou ao meu lado. Ele conhecia cada sombra do meu rosto. Ele sabia que, por trás daquela "Yasmin depressiva", existia uma mulher que enxergava o tabuleiro inteiro.
— Os pontos estão órfãos, Vítor — eu disse, minha voz baixa, quase um sussurro no meio do barulho do bar. — O Guel se foi, o Ben está preso. Os ratos estão só esperando o momento de abocanhar o que sobrou.
— É perigoso, Yasmin. Você sabe quem está do outro lado — ele me alertou, mas não havia medo nos olhos dele, apenas cautela.
— Perigoso é esperar a notícia de que o Ben foi assassinado no pátio. Perigoso é deixar esses traidores enriquecerem com o sangue do nosso primo — olhei para ele, e a bomba dentro de mim finalmente deu o primeiro estalo. — A gente assume, Vítor.
Ele travou com o copo na mão.
— O quê?
— Na sombra. Ninguém pode saber que somos nós. Vamos usar os contatos que o Guel confiava, os que ainda têm lealdade. Vamos assumir os pontos do Ben e do Guel. Vamos fazer o dinheiro girar para manter o Ben seguro lá dentro e para armar a nossa volta por cima.
Eu não era mais a menina que chorava no canto do sofá. Eu estava começando a planejar cada passo, cada entrega, cada aliado. Se os amigos do Guel foram traíras, eu seria o fantasma que eles não veriam chegar.
— A Lorena foi embora para se proteger — continuei, sentindo um frio calculado na espinha. — Mas eu vou ficar para pavimentar o caminho. Quando ela voltar, não vai encontrar duas irmãs derrotadas. Vai encontrar um império retomado.
Vítor segurou minha mão. Ele entendeu que aquela era a minha cura. Minha depressão não ia embora com remédios; ela ia embora com justiça. Ou com vingança.
— Vamos fazer do seu jeito, Yasmin. Por onde a gente começa?
— Pelo silêncio — respondi, dando o último gole. — Ninguém desconfia de uma mulher triste. E é exatamente esse o nosso maior trunfo.