Capítulo 6: Atrás das Grades e do Ódio

422 Palavras
POV: Benjamin O som da grade batendo ecoa na minha cabeça como um tiro. Mas o tiro de verdade veio lá de fora, e acertou em cheio o meu peito quando a Yasmin me deu a notícia. O Guel morreu. Voltei para a cela com as pernas pesando uma tonelada. Me sentei no beliche, as mãos trêmulas tateando debaixo do colchão até encontrar o maço de cartas presas com um elástico velho. Puxei a última. A letra do Guel era garrancho, mas para mim era o mapa da mina. "A gente vai conquistar o mundo junto, Ben. Quando você botar o pé no mundão, os pontos já vão estar rendendo. Ninguém vai mais te humilhar, irmão. A gente é sangue." Apertei o papel contra o peito. Senti um nó na garganta que não me deixava respirar. A gente fez planos. Mil coisas passaram pela minha cabeça: as fugas da rua quando éramos moleques, as humilhações que passamos por não ter ninguém por nós... e como o Guel jurou que o topo era o nosso lugar. Agora, o topo dele é uma lápide. E o meu? O meu pode ser o pátio desse presídio no próximo banho de sol. Eu sei como as coisas funcionam aqui dentro. Se mataram o cara que era o braço direito, o braço esquerdo — que sou eu — já está com o prazo de validade vencido. Os ratos que traíram ele lá fora têm braços aqui dentro. Eu sinto os olhares. Sinto o cheiro da morte vindo de cada corredor. A vingança arde em mim, mas é uma vingança que dói. Porque se eu não matar, eu vou morrer. E como eu vou cobrar esse sangue se estou trancado? Como vou honrar o Guel se meu único contato com o mundo é uma irmã que chora e outra que foi expulsa de casa grávida? — Eu vou cobrar, Guel... — sussurrei para o teto mofado, sentindo o gosto amargo do ódio. — Se eu sair daqui vivo, eu vou querer cada cabeça em uma bandeja. Eu não sou mais aquele moleque de dez anos que usava droga para esquecer que o mundo o judiava. Agora, a droga é outra. A minha droga é a vontade de ver o sangue de quem te traiu correndo no asfalto. Eles pensam que eu sou só um viciado trancado. Mas um homem que não tem nada a perder e uma família marcada para morrer é a arma mais letal que existe. Quando eu sair... o acerto de contas vai ser lento.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR