Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – Recomeços
O sol se punha devagar sobre o oceano, tingindo de dourado os telhados tortos e as vielas estreitas do Morro do Vidigal.
Do alto, a mansão n***a reluzia como uma fortaleza isolada, impenetrável, vigiando tudo com olhos de concreto e vidro.
Lá dentro, Vitor Hugo — conhecido por todos apenas como Lord — observava o mundo com seus olhos cinzentos e vazios.
Não havia calor neles, apenas cálculo e silêncio. Seu corpo tatuado repousava no encosto de couro da cadeira, os dedos batucando ritmadamente o braço, enquanto a fumaça do charuto se perdia no ar.
Na base do morro, um mundo completamente diferente se desenrolava.
Anne segurava firme a alça da mochila, o coração acelerado no peito. Nunca tinha visto o mar tão de perto, nem morado tão perto do perigo. Sua pele alva e cabelos ruivos destoavam do cenário ao redor — era como uma pintura antiga trazida para um mundo que não lhe pertencia.
Eva, sua mãe, mantinha o olhar atento, tentando esconder o medo. Recomeçar ali era sua última chance.
No alto, Lord soube da chegada delas antes mesmo que pisassem na calçada do restaurante de Vera.
Ele sabia de tudo. Cada passo, cada rosto novo.
E Anne… chamou sua atenção de forma que ele não entendia. Uma flor frágil em um jardim de espinhos.
E ele odiava perigo disfarçado de pureza. –
— Dk — chamou, sem olhar para o irmão que estava ao fundo do salão. — Descobre tudo sobre a novata. Agora.
— A ruivinha? — Dk riu, descontraído. — Tá
apaixonado, Lord?
O olhar que recebeu como resposta foi suficiente para calá-lo. Frio. Cruel.Lord se levantou, as tatuagens nas costas se esticando com o movimento.— Ela tem algo que eu quero. Só não sei o quê... ainda.
O vento que vinha do mar carregava um cheiro salgado e forte, misturado ao aroma de fritura e algo que Anne não soube identificar de imediato. Talvez fosse medo. Ou liberdade.
Ela apertou a alça da mochila, o coração batendo rápido. Ao lado, sua mãe suspirava pela décima vez, os olhos cansados vasculhando o cenário à frente.
— É aqui — disse Eva, como se precisasse se convencer disso também.
O restaurante simples, com a fachada pintada de azul desbotado, exibia uma placa meio torta com o nome “Sabor da Vera”. No andar de cima, cortinas brancas esvoaçavam nas janelas abertas. Era ali que morariam agora.
Antes que Anne pudesse reagir, a porta se escancarou e uma mulher de sorriso largo e braços abertos surgiu:
— Eva! Minha irmã! — gritou Vera, abraçando-a com força. — Finalmente!
Anne sorriu sem jeito. Sentia os olhos dos vizinhos queimando sua pele branca demais, os cabelos ruivos chamando atenção como se fossem um sinal de alerta. Era como se gritassem “estranha” em letras vermelhas.
— E você deve ser a Anne! Menina, como você cresceu... — Vera lhe deu um beijo estalado no rosto. — Vem, vem conhecer sua prima!
Antes que pudesse responder, uma voz animada cortou o ar:
— Ela já chegou? — Uma garota de cabelos cacheados surgiu no topo da escada. Era linda, morena, com um brilho nos olhos que contrastava com o ambiente duro. — Eu sou a Gabz, prima! E a partir de agora, sua guia oficial pelo morro.
Anne tentou sorrir, mas o frio na barriga não deixava.
— Oi... — disse apenas.
— Não precisa ficar com medo — Gabz piscou. — Aqui é outra vibe. Vai por mim.
Enquanto subiam as escadas, Anne lançou um último olhar para o alto do morro. Uma casa preta, enorme e silenciosa, dominava o topo como se fosse um castelo sombrio.
Ela não sabia o porquê, mas algo ali a arrepiou.
A casa acima do restaurante era simples, mas acolhedora. As paredes tinham fotos antigas de família, e o cheiro de tempero parecia ter se impregnado em tudo.
Anne dividia um quarto com Gabz, que falava pelos cotovelos enquanto mostrava as roupas, os pôsteres e até o mural de fotos com Maju.
— Amanhã eu te levo na praia.
Tem um lugarzinho que a gente adora. Você vai amar, sério. Ah, e se prepare, porque o morro tem regras... e histórias. — Gabz parou de repente, os olhos sérios. — Inclusive sobre quem mora lá em cima em uma mansão.
Anne franziu a testa.— Mansão ?
Gabz assentiu devagar.— Aquela é a casa do Lord.O nome causou um arrepio na espinha de Anne.
— Lord?— É... o dono do morro. Ninguém chama ele pelo nome de verdade. Ele não gosta. — Gabz mordeu o lábio.
— Ele é... diferente. Muita gente tem medo. E com razão.
Anne não respondeu. Por alguma razão, seu coração começou a bater mais rápido.
---Na manhã seguinte, Anne saiu cedo com Gabz para comprar pão. O céu estava limpo, e o sol refletia nas paredes descascadas como se o morro brilhasse em mil cores.
Conforme desciam a ladeira, ela tentou absorver tudo — o cheiro, as vozes, as crianças correndo descalças.Mas ao virar uma das vielas, o mundo pareceu parar.
Do outro lado da rua, encostado numa moto preta, um homem observava tudo com uma expressão impassível.
Pele bronzeada pelo sol, tatuagens que saíam da camisa até o pescoço, olhos cinzentos de predador. Ele usava um boné virado para trás e uma corrente grossa no pescoço.
Anne sentiu as pernas fraquejarem. Não era só pela aparência. Era a energia. Ele parecia não pertencer a esse mundo — ou pior, comandá-lo.
— Não olha direto — Gabz murmurou ao lado, apertando o braço dela. — É o Lord.
Mas era tarde.
Os olhos dele encontraram os dela.
Anne congelou. Não sabia explicar o que sentiu, mas foi como se ele a atravessasse com o olhar. Como se soubesse tudo sobre ela sem precisar de uma palavra. E o pior: como se gostasse do que via.
Lord arqueou levemente uma sobrancelha, um sorriso quase imperceptível surgindo no canto da boca.
Depois, virou o rosto como se nada tivesse acontecido.
Anne voltou a respirar.
— Vamos — disse Gabz, puxando-a. — Você nunca vai entender esse lugar se não aprender uma coisa: aqui, o perigo sorri. E às vezes, o sorriso dele te engole.
O olhar dele a perseguiu o resto do dia. Anne tentou ignorar, fingir que não sentiu nada além de um desconforto passageiro, mas seria mentira.
Havia algo naquela presença que a silenciava por dentro, como se tocasse em um lugar escondido, onde nem ela mesma ousava ir.
Na cozinha, durante o café da tarde, Vera falava alto sobre o movimento no restaurante, Gabz ria de um vídeo no celular, e Eva estava estranhamente quieta. Anne apenas mexia o chá, olhando a colher girar no líquido como se aquilo pudesse responder às perguntas que rodavam em sua cabeça.
— Ele olhou pra você, né? — Gabz perguntou de repente, sem desviar os olhos da tela.
Anne arregalou os olhos.
— Quem?
— O Lord. — Gabz ergueu a sobrancelha. — Eu vi. Ele não costuma olhar assim pra ninguém.
— Não foi nada — Anne respondeu rápido demais. — Ele só... estava ali.
— Aham — Gabz riu, irônica. — E eu sou a Madonna.
Eva largou a xícara na pia com mais força do que o necessário.
— Eu não gosto dessas conversas. — O tom dela foi seco. — Esse tipo de homem não tem nada a oferecer a ninguém. Só destruição.
Gabz deu de ombros, mas Anne sentiu o peso daquelas palavras.
Ela sabia — instintivamente — que sua mãe não estava errada.
Mas então... por que o coração batia tão rápido quando pensava nele?
Naquela noite, o vento trouxe o cheiro do mar até a janela do quarto. Anne não conseguia dormir. Gabz respirava fundo na cama ao lado, já entregue ao sono, mas Anne se revirava, os pensamentos presos naquele olhar cinzento.
Ela se levantou devagar, descalça, e foi até a janela. O morro parecia outro à noite. Luzes dispersas, vozes ao longe, uma moto que rugia como fera solta na madrugada.
E então ela viu.
Lá em baixo em um barzinho na esquina, uma silhueta parada. Firme. Observando.
Era ele.
De novo.
Anne ficou ali, parada, hipnotizada. Um vulto tão distante, e ainda assim, tão presente.
Ele não se mexia. Só olhava. Como se vigiasse tudo. Como se... vigiasse ela.
Ela sentiu a pele arrepiar e se obrigou a recuar.
Mas antes de fechar a cortina, ele deu um passo à frente. Como se soubesse que ela estava prestes a fugir do contato.
E então, fez algo inesperado.
Ele ergueu o olhar. Um gesto mínimo. Quase um aceno.
Anne não respondeu.
Mas também não conseguiu desviar o olhar.
Mal dormiu aquela noite , pensando no olhar Sombrio com algo ali, que não conseguia decifrar.