Capítulo 2 – A Floresta do Silêncio

667 Palavras
A floresta respira. E nem todo silêncio é paz. A madrugada caiu sobre Eldharyn como um manto espesso de vidro congelado. A Lua Escarlate já havia recuado no céu, mas seu brilho ainda vibrava entre os galhos, como uma memória que se recusava a desaparecer. O mundo parecia conter a respiração. Kael corria. A floresta se desenrolava ao seu redor como um sonho distorcido — ou um pesadelo antigo. Galhos retorcidos pareciam mãos esqueléticas tentando agarrá-lo. Árvores cobertas de musgo sussurravam segredos que ele não queria entender. E, atrás dele, o som persistente dos Sussurrantes: seus passos leves, quase sem som, suas vozes abafadas em línguas esquecidas. Kael atravessou uma clareira e desceu uma encosta, até que tudo ficou… quieto. Silêncio absoluto. Sem corvos. Sem vento. Sem passos atrás dele.
Era como se o mundo tivesse parado. Ele diminuiu o ritmo. Os pelos em sua nuca se arrepiaram.
Estava na Floresta do Silêncio. As histórias falavam desse lugar. Um pedaço de Eldharyn onde os ecos não voltavam. Onde o som morria. Diziam que ali o tempo às vezes se perdia — e que lobos que entravam podiam sair dias depois… ou nunca. Mas ali estava ele. E pela primeira vez, Kael se sentia mais seguro entre os fantasmas do que entre os vivos. Ele caminhou devagar, farejando o ar. Tudo parecia... adormecido. As folhas não caíam. A neve não derretia. Nenhum inseto zumbia. O silêncio pesava sobre seu corpo como uma manta molhada. Até que ele viu. Uma pedra alta, no centro de uma pequena clareira, coberta de runas antigas que pulsavam fracamente com luz azulada. Uma das runas brilhou mais forte quando Kael se aproximou. Ele encostou o focinho. E então, ouviu. Não com os ouvidos — mas no fundo da mente. Uma voz, rouca e antiga: "Sangue de Fenraar…
Despertaste antes do tempo.
As raízes foram corrompidas.
Os Sussurrantes buscam o Coração de Tharn." Kael arregalou os olhos. Essas palavras vinham das histórias mais velhas, contadas nas noites frias ao redor das pedras de sabedoria. O Coração de Tharn era uma lenda — uma joia pulsante enterrada sob as montanhas que sustentava o equilíbrio da floresta. Diziam que era a última lágrima de Fenraar. A runa brilhou mais uma vez, e imagens encheram sua mente:
Um lobo branco com olhos prateados, em pé sobre uma pedra.
Um lago congelado rachando sob patas humanas.
Um céu n***o, sem estrelas.
E fogo. Muito fogo. Kael cambaleou para trás. A runa se apagou. O silêncio voltou. Mas não estava sozinho. Uma sombra deslizou entre as árvores. Pequena, rápida. Um brilho dourado passou diante de seus olhos. Ele rosnou, baixo. Do mato, saiu uma loba. Jovem, de pelos dourado-acinzentados, com marcas tribais na face e olhos brilhantes como topázios. Ela não demonstrava medo. — Você também ouviu a pedra, — disse ela, com voz clara. Mesmo sem mover os lábios, Kael entendeu. Era a linguagem da alma, um dom raro entre os nascidos sob a Lua Escarlate. — Quem é você? — perguntou ele, ainda tenso. — Liora. Nascida do Vento Frio. Filha da Última Caçadora. — Ela olhou para o céu acima, onde a névoa começava a se dissipar. — Os Sussurrantes estão à solta. E você os atrai como fogo atrai mariposas. Kael abaixou a guarda, só um pouco. — Eu vi Fenraar. Ele falou comigo. Liora arregalou os olhos por um instante. Depois, assentiu lentamente. — Então está começando. O Coração será buscado. E muitos morrerão antes que ele escolha um novo Guardião. Kael franziu o cenho. — E você? Está comigo? Liora se virou. Ao longe, o som abafado de um uivo distorcido ecoou por entre as árvores.
— Não sou sua aliada. Mas também não sou sua inimiga. — Ela começou a caminhar pela trilha nevada. — Ainda. Kael a seguiu, sentindo que o destino havia posto mais uma peça no tabuleiro invisível do qual agora fazia parte. Acima deles, o céu começava a clarear.
Mas a luz trazia mais perguntas do que respostas.
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