Quando a neve é marcada, os espíritos observam.
O dia amanheceu pálido, como se a luz do sol hesitasse em tocar o chão de Eldharyn. Os galhos das árvores ainda estavam cobertos pela geada da noite anterior, mas o frio não vinha só do clima — vinha do ar, carregado de algo invisível, inquietante.
Kael e Liora seguiam por uma trilha antiga, onde as árvores cresciam em ângulos impossíveis e o musgo cobria até mesmo os troncos vivos. Não trocavam muitas palavras. Liora caminhava à frente, como se conhecesse o caminho, embora os olhos dela estivessem sempre atentos ao redor — cada ruído fazia suas orelhas se erguerem.
Kael ainda sentia a pulsação das runas da pedra da noite anterior. A presença de Fenraar parecia ter deixado uma centelha em seu peito — algo que ardia, chamando-o para um propósito que ele ainda não compreendia totalmente.
— Estamos sendo seguidos, — murmurou Liora, parando subitamente. — Dois... talvez três deles.
Kael farejou o vento. Havia algo ali, sim — um cheiro doce demais, artificial, como flores mortas. Ele rosnou.
— Sussurrantes?
Liora assentiu, sem se virar.
— Eles se movem pelas sombras. Servem um espírito morto. Não os enfrente sozinho. — Ela virou-se para ele. — O que você viu na visão? Exatamente?
Kael hesitou. As imagens ainda estavam confusas em sua mente: fogo, gelo, um lobo branco, uma joia palpitante.
— Vi o Coração. E algo... despertando sob a terra.
— Então não temos tempo. — A loba ergueu os olhos para as copas das árvores. — Precisamos chegar ao Espelho Congelado antes do próximo entardecer. Se os Sussurrantes encontrarem a entrada primeiro…
Ela não terminou a frase.
Um estalo.
Depois, o som sutil de patas se movendo sobre folhas secas.
E então — vozes sussurradas em uma língua antiga, cheia de assobios e quebras guturais.
“Kael... filho do Uivo Perdido...”
“Venha conosco... o mundo que conheces está morto...”
“Nós somos a floresta agora...”
Kael virou-se e viu três figuras emergindo da névoa. Eram lobos, mas deformados. Suas pelagens estavam enegrecidas por veios de sombra que pulsavam como raízes vivas. Suas bocas não se moviam — as palavras vinham do ar ao redor, como se o próprio vento falasse por eles.
— Atrás de mim, — disse Liora, os pelos do dorso eriçados. — Eles querem te levar vivo.
Kael rosnou. Sentia algo crescendo dentro dele — uma raiva ancestral, mas misturada com outra coisa. Algo místico.
Os Sussurrantes avançaram. Rápidos. Silenciosos.
Liora lançou-se contra o primeiro, mordendo sua garganta com precisão letal. O sangue que jorrou era n***o e espesso, manchando a neve com um brilho oleoso. Kael girou sobre as patas e se jogou contra o segundo, que recuou, mas não fugiu. Eles não sentiam medo.
O terceiro uivou — mas não um uivo normal. Era um som grave, que fez as árvores estremecerem e o solo vibrar. A neve sob Kael tremeu... e então rachou.
Kael caiu em uma f***a. Rolou por alguns metros, até que seu corpo parou entre pedras geladas. Quando abriu os olhos, viu símbolos nas paredes da f***a. Símbolos iguais aos da pedra na Floresta do Silêncio.
E então, ele ouviu uma nova voz.
Não Fenraar.
Algo mais antigo. Mais sombrio.
“Kael... descendente da linha proibida...
Acorde o que dorme.
Traga-me o Coração... e o mundo será teu.”
Kael gritou, mas a voz estava dentro dele. Como se uma segunda presença surgisse em sua mente, tentando enroscar-se em sua alma.
De repente, uma luz azul explodiu diante dele.
Era Liora, no topo da f***a, com os olhos brilhando intensamente. Um colar feito de penas e dentes antigos brilhava em seu peito. Ela sussurrou palavras em uma língua que Kael não compreendia — e a sombra dentro dele recuou, com um grito de fúria que fez as pedras vibrarem.
Ela pulou, puxando Kael para fora com força surpreendente.
— Está tudo bem. A voz se foi, — disse ela, ofegante.
Kael tremia.
— O que era aquilo? Não era um Sussurrante...
Liora olhou para o céu, onde nuvens pesadas se acumulavam.
— Era o que está por trás deles. O que os comanda.
— Um espírito antigo. Um que até Fenraar temia.
— E ele sabe quem você é.
Kael olhou para a neve manchada de preto ao redor. Seu sangue misturado ao dos inimigos.
A guerra havia começado — e ele já era parte dela.
Acima deles, o vento sussurrou algo que Kael não conseguiu entender.
Mas os corvos, empoleirados nas árvores, ouviram.
E voaram para o norte.