Capítulo 4 – O Filhote Solitário

704 Palavras
A verdade dorme nos olhos da infância perdida. A noite caiu sobre Eldharyn com uma rapidez incomum, como se o céu tivesse medo de permanecer acordado. O vento rugia entre os troncos altos e antigos, trazendo consigo o cheiro de lenha queimada, musgo molhado… e algo mais. Kael caminhava em silêncio, ao lado de Liora, seguindo uma trilha pouco visível entre as árvores cobertas de líquen. Cada passo afundava levemente na neve recente, que agora cobria os sinais da batalha anterior. Nenhum dos dois falava desde o confronto com os Sussurrantes. O ar entre eles estava carregado — não de desconfiança, mas de presságio. Kael ainda sentia o eco da voz que o invadira na f***a. Aquilo não fora um simples sussurro, mas um marco, uma marca deixada em seu espírito. Eles chegaram a uma clareira cercada por pedras antigas. No centro, havia uma pequena cabana feita de raízes entrelaçadas e peles secas. Da chaminé rústica, saía uma espiral de fumaça azulada — diferente de qualquer fumaça que Kael já vira. Liora parou à margem da clareira.
— Aqui é onde ela vive. — Ela? — Kael franziu o cenho. — A Velha Ysra. Guardiã das memórias do norte. Ela vê o que está escondido. Até dentro de você. Antes que Kael pudesse perguntar mais, a porta da cabana se abriu sozinha. Um som baixo, semelhante a um estalo de galho, se seguiu. Uma voz saiu de dentro: — Entra, filhote do silêncio. A noite quer falar contigo. Kael olhou para Liora, que apenas assentiu com a cabeça.
Ele respirou fundo e entrou. O interior da cabana era maior do que parecia por fora. Um fogo crepitava no centro, emitindo luz azulada. Ossos pendiam do teto como sinos. Runas brilhavam nas peles esticadas nas paredes. E atrás do fogo, uma loba anciã de pelagem branca, com um olho cego e outro dourado como o sol, observava-o. Ela era Ysra, a última das Memóriantes. — Você carrega duas vozes dentro de si, Kael. E nenhuma delas é sua ainda. Ele engoliu em seco.
— O que quer dizer com isso? — Você foi gerado no Equinócio de Sangue, na noite em que as estrelas caíram no norte. — Ysra ergueu um osso que usava como cajado. — Sua mãe era loba. Mas seu pai... era metade espírito. Metade outra coisa. Kael sentiu o mundo girar. — Isso é impossível. — É necessário, — corrigiu ela, calmamente. — A linhagem de Fenraar não acabou. Ela apenas se escondeu dentro de ti. Ele deu um passo para trás. — Quer dizer que... sou um Guardião? Ysra sorriu — um sorriso triste, como quem vê uma vela acender num vendaval. — Não ainda. Mas o Coração de Tharn reconhece tua presença. E os que servem ao Espírito Sombrio... sentem o mesmo. Ela estendeu uma pata.
— Fecha os olhos. Kael hesitou, mas obedeceu. No instante seguinte, o fogo pareceu envolver todo o espaço. Ele sentiu-se cair… e então estava em outro lugar. Um campo vasto, coberto por relva prateada. O céu era púrpura, e lobos feitos de estrelas caminhavam ao redor dele, sem som. Um deles parou à sua frente. Tinha olhos iguais aos seus. — Você me deixou para morrer, — disse o lobo. — Mas eu ainda te amo. Kael deu um passo à frente.
— Quem é você? — Meu irmão. Você me esqueceu. Mas eu ainda estou aqui.
Escondido no sul. Onde os ecos não chegam. A visão se desfez. Kael caiu de joelhos dentro da cabana de Ysra, ofegante. — Eu... eu tenho um irmão? — Teve. Ainda tem. — Ysra jogou um punhado de folhas no fogo, que explodiu em chamas verdes. — Ele sobreviveu. Mas algo nele mudou. E agora... ele também te procura. Kael se levantou, trêmulo. — Eu preciso encontrá-lo. — E irá, — disse Ysra, com voz firme. — Mas cuidado. O Espírito Sombrio sabe disso também. E pode tentar chegar até ele... antes de você. Do lado de fora, Liora ergueu as orelhas. Um som distante chegou até ela — um uivo solitário, vindo do sul, onde nem os corvos se atreviam a voar. E mesmo sem entender por que, Kael soube:
A caçada já havia começado.
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