Capítulo 5 – Ecos no Sul

844 Palavras
Algumas vozes não deveriam retornar. Três noites haviam passado desde que Kael e Liora deixaram a cabana da Velha Ysra. O céu agora estava mais escuro, como se um véu invisível tivesse coberto as estrelas. Nem mesmo a Lua ousava se mostrar. Era como se a floresta soubesse para onde eles estavam indo — e quisesse impedi-los. O Sul de Eldharyn era terra esquecida.
Lá, as árvores cresciam tortas, como se tentassem fugir da própria raiz. Os ventos eram frios, mas secos, e carregavam sussurros que nunca cessavam, mesmo quando não havia mais folhas para balançar. Diziam que os ecos do sul vinham de vozes aprisionadas — memórias de seres que não conseguiram atravessar o Véu completamente. Kael caminhava em silêncio. Desde a revelação de Ysra, seu mundo interior parecia outro. Saber que tinha um irmão perdido, talvez corrompido, o assombrava mais do que os Sussurrantes. As visões não paravam — a cada sonho, mais fragmentos de um filhote branco, com olhos iguais aos seus, mas que gritava... não por socorro, mas por vingança. Liora o observava de longe. Ela era uma caçadora, sim — mas também uma guardiã do equilíbrio. Sabia que algo estava mudando em Kael. A energia dentro dele crescia. A cada noite, ele ficava mais sensível aos sussurros do vento. Às vezes, ele os respondia sem perceber. Na manhã do quarto dia, chegaram ao Vale dos Ecos, a primeira marca das Terras Baixas do Sul. Um cânion profundo e largo, onde o vento uivava de maneira constante — e toda palavra ali dita jamais desaparecia completamente. A lenda dizia que os Primeiros Lobos haviam caído nesse vale quando tentaram desafiar o tempo. Kael parou na beira do desfiladeiro.
— Ele está aqui. — Seus olhos estavam distantes, quase vidrados. — Ou pelo menos... passou por aqui. — Cuidado com o que disser, — alertou Liora. — Se disser algo neste vale com o coração dividido, o eco pode te perseguir... até o fim da alma. Kael assentiu. Eles começaram a descer, passo a passo, pelas trilhas íngremes do vale. As paredes de pedra estavam cobertas de marcas — antigas garras, runas apagadas, e nomes... nomes riscados com sangue seco. Kael passou por uma dessas marcas e estremeceu. “Kael. Kael. Kael...” A voz surgiu nas pedras. Era sua própria voz.
Mas distorcida.
Ferida. Liora parou de andar. — Você falou aqui antes? — ela perguntou, séria. — Nunca, — respondeu ele, tremendo. — Mas... talvez ele tenha falado por mim. Subitamente, um uivo soou, alto e próximo. Mas era... familiar. Kael correu. Virou por entre as rochas e entrou numa gruta profunda, iluminada apenas por pequenas pedras fosforescentes. No centro da caverna, um filhote branco jazia sobre a pedra, de olhos fechados, respirando com dificuldade. Marcas negras subiam por suas patas — como se veios de sombra estivessem tentando tomar seu corpo. — Irian! — gritou Kael, reconhecendo o nome da visão. O filhote abriu os olhos devagar.
E Kael viu a si mesmo, como se olhasse para um espelho partido. Mas antes que pudesse se aproximar, uma forma surgiu da parede: um Sussurrante ancião, grande como um urso, com pelagem n***a e olhos ocos. Atrás dele, dois outros lobos-corrompidos rugiam baixinho. — Encontrou teu reflexo, filhote da luz... — disse o Ancião, com voz cavernosa.
— Mas ele já começou a ouvir nosso mestre. Kael rosnou, mas Liora já estava ao seu lado. — Proteja o pequeno. Eu cuido dos dois. — Ela lançou-se à frente antes que ele pudesse responder. Kael correu até o filhote.
— Irian... sou eu. Seu irmão. Você lembra? Os olhos do pequeno brilharam por um instante. “Kael... Kael... eles disseram que você me deixou... no frio...”
“Eles me alimentaram. Me deram nomes...”
“Mas... eu... lembro da mãe... e do cheiro de neve...” Kael encostou o focinho no do irmão. — Eu estou aqui agora. Eles não vão te levar. A escuridão que envolvia as patas de Irian pareceu hesitar, como se a presença de Kael a repelisse.
Atrás deles, Liora lutava contra os dois Sussurrantes, desviando com agilidade e usando a luz do colar tribal para repelir seus ataques. O Ancião avançava lentamente, como se fosse parte da pedra. Kael sentiu o poder crescendo dentro de si. Algo que ele ainda não sabia usar — mas sentia. Ele ergueu a cabeça. E uivou. Não um uivo qualquer — era um Uivo da Lembrança. Uma das três antigas vozes dos Guardiões. O vale inteiro respondeu. As pedras vibraram. Os ecos repetiram o uivo — mas agora mais limpos, mais puros. E a sombra nas patas de Irian se partiu, como vidro sob fogo. O Ancião gritou — um som de raiva e medo. Ele recuou.
Liora aproveitou o momento e lançou-se sobre ele, cravando os dentes na garganta da criatura-corrompida. Silêncio. O vale voltou à sua dormência.
E Kael, pela primeira vez, sentiu que tinha um irmão de verdade ao seu lado. Mas algo ainda o inquietava. Irian estava salvo…
Mas e se não fosse o único?
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