Capítulo 6 – O Sussurro Sob a Montanha

804 Palavras
Algumas verdades só podem ser ouvidas no silêncio total. O céu amanhecia vermelho. Não o vermelho do sol, mas um rubro escuro, pesado, como se o firmamento sangrasse em silêncio. As nuvens estavam imóveis, presas em um torpor antinatural, enquanto Kael, Liora e o pequeno Irian subiam em direção às encostas da Montanha Raíz-Morta — um pico há muito esquecido pelos lobos vivos, onde as lendas diziam que os Primeiros Guardiões haviam enterrado os nomes proibidos. Irian caminhava entre eles, mais forte agora. Ainda havia sombra em seus olhos, mas também luz — a mesma luz que havia em Kael. Liora os observava em silêncio, como uma sentinela. Sabia que a força que os unia agora poderia se tornar uma fraqueza — ou a chave para salvar tudo. — Por que aqui? — perguntou Kael. — O que há nesta montanha? Liora não respondeu de imediato. Seus olhos estavam fixos nas rochas negras à frente. — Há um lugar dentro dela. Uma câmara onde o som não entra, nem sai.
— Os antigos chamavam de Garganta da Terra. Lá, os ecos não vivem. Só... as memórias puras.
— Ysra disse que lá você encontraria o próximo fragmento. Kael sentiu a pedra que carregava — a pedra de runas que havia brilhado na noite do encontro com Fenraar — aquecer em seu pelo. O fragmento que carregava não era apenas um símbolo… era uma chave. Eles entraram na caverna. O mundo mudou no instante em que cruzaram o limiar. O som desapareceu. Não havia o som de passos, nem da respiração, nem do vento. Nada. Só o pulsar surdo do próprio coração. A escuridão era total, mas as paredes estavam cobertas por musgo-luz, que brilhava suavemente com um tom azulado. O musgo desenhava símbolos antigos: lobos em círculos, luas partidas, olhos abertos. Kael sentiu algo vibrar dentro dele. Seguiram por túneis estreitos, sempre em silêncio. Irian caminhava ao lado dele com passos hesitantes. Em certo ponto, o pequeno parou, apontando com a pata para uma parede onde um símbolo antigo pulsava: dois lobos entrelaçados por um fio de sangue, cercados por garras negras. Kael se aproximou. Assim que tocou a runa, uma visão explodiu diante dele. Estava em uma planície de ossos, sob uma lua dupla. Um exército de lobos caminhava em silêncio, liderados por uma criatura gigantesca — o Espírito Sombrio, feito de fumaça, dentes e olhos que jamais piscavam. Atrás dele, um lobo de olhos dourados chorava — preso por correntes feitas de memórias quebradas. “Kael...”
“O Coração está se partindo...”
“Se a Trindade não se unir... tudo cairá.” A visão sumiu.
Kael cambaleou para trás. Liora o segurou.
— O que viu? — O Espírito... e um prisioneiro. Um lobo com olhos dourados... — Ele hesitou. — Acho que era Fenraar. Mas enfraquecido. Preso pelas próprias lembranças. De repente, a pedra em seu peito brilhou.
A parede da caverna se partiu em silêncio, revelando uma câmara circular, com um altar de pedra no centro. Sobre ele, descansava um fragmento de cristal branco, pulsando lentamente. Kael se aproximou. Quando tocou o cristal, sentiu um calor percorrer seu corpo. Imagens o invadiram — o nascimento do mundo, os primeiros uivos, a criação do Coração de Tharn, dividido em três partes: * A Pedra da Verdade, * O Cristal da Essência, * O Uivo Eterno. Kael agora carregava duas delas. Mas no momento em que pegou o cristal, o chão tremeu.
O silêncio foi rasgado por um uivo terrível — vindo de dentro da montanha. As paredes tremeram. Irian se encolheu. Liora rosnou, os olhos atentos. E então, a câmara escureceu.
Uma figura surgiu da sombra da rocha viva. Alta, esguia, feita de pele esticada e olhos famintos. Uma voz falou — mas não com som. Com presença. — Já não basta me rejeitar, Kael. Agora me rouba os ossos do mundo? Era ele. O Espírito Sombrio. Kael sentiu suas patas travarem. A presença o pressionava como um oceano invisível. O lobo das sombras não avançava — apenas observava, como um predador testando a presa. — Entregue-me o filhote.
O fragmento.
E eu deixarei tua alma em paz. Kael sentiu o cristal pulsar com mais força. Atrás dele, Irian tremia. Liora estava pronta para atacar — mas até ela hesitava. Kael deu um passo à frente. — Você pode assombrar minhas memórias. Pode me seguir nos sonhos.
— Mas nunca terá minha alma. Nem a dele. O Espírito ficou em silêncio por um instante. E então, sorriu. — Ainda não. E desapareceu — como se nunca tivesse estado ali. A câmara tremeu uma última vez. E então... silêncio absoluto novamente. Kael segurava o cristal com firmeza. Agora tinha duas das três partes do Coração de Tharn.
Mas também sabia que o Espírito não estava apenas observando. Ele estava esperando.
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