Nem todo Guardião deseja ser lembrado.
A noite caiu rápido depois que deixaram a Montanha Raíz-Morta.
Kael sentia o peso dos fragmentos em seu peito — não físico, mas espiritual. A Pedra da Verdade e o Cristal da Essência agora estavam unidos, batendo como corações gêmeos contra sua pele. Mas o terceiro fragmento, o Uivo Eterno, continuava escondido… e segundo Ysra, só poderia ser obtido de um ser que o guardava há séculos:
Naelen, o Guardião do Eco Partido.
Um dos primeiros.
Um dos esquecidos.
Eles seguiram para leste, rumo às Terras Cinzentas, onde as árvores não cresciam mais e o solo parecia envenenado por ecos antigos. Diziam que ali o tempo era mais lento, e os passos mais pesados. E que Naelen, depois de perder seu bando inteiro, se escondeu nas ruínas de um templo, falando apenas com as vozes que ele mesmo havia enterrado.
Liora andava à frente.
Irian entre eles — mais calmo, mas com os olhos sempre voltados para trás. Kael sentia que o Espírito Sombrio ainda os seguia… não com garras, mas com memórias.
Ao chegarem às Ruínas de Hal’Thur, a lua estava presa entre nuvens, como um olho envergonhado.
O templo era um círculo de pedras partidas, cobertas de símbolos e musgo seco. O silêncio ali era diferente. Não como o da montanha, mas doloroso, como se cada ausência de som fosse resultado de algo que havia gritado demais… e se calado para sempre.
— Ele está aqui, — sussurrou Liora. — Mas cuidado. O tempo foi c***l com Naelen. Nem todos os Guardiões suportam séculos de luto.
Kael se aproximou do altar central. Havia marcas ali — garras, uivos entalhados, e no centro, três dentes de lobo, fincados como relíquias.
Antes que pudesse tocar, uma voz grave e quebrada surgiu atrás deles:
— A última estrela caiu…
E agora vêm roubar o que resta?
Era Naelen.
Enorme, mesmo mais velho que qualquer outro lobo que Kael já vira. Sua pelagem antes cinzenta estava quase preta de sujeira e poeira. Os olhos eram distorcidos, como espelhos partidos — um refletia o presente, o outro… o passado.
— Não queremos roubar nada, — disse Kael. — Viemos para salvar o Coração de Tharn.
Naelen riu — um som feio, rouco.
— Salvar? Aqueles que podiam salvá-lo estão mortos.
E eu… matei metade deles.
Kael sentiu um arrepio.
Liora deu um passo à frente.
— Se ainda tens uma centelha de Guardião, Naelen, sabe que não estamos aqui por orgulho. Estamos aqui porque o Espírito Sombrio retornou. Fenraar está preso. O mundo se curva. Precisamos do Uivo.
Naelen grunhiu.
— O Uivo Eterno não é um objeto. É uma marca. Um poder que só se transmite se for sentido... ou tomado.
Kael cerrou os dentes.
— Então lute. Me prove que ainda o merece. E eu provarei que sou digno de herdá-lo.
O velho lobo encarou Kael longamente.
E então, sem aviso, avançou.
A luta foi brutal. Naelen era rápido, muito mais do que parecia. Seus ataques eram instintivos, quase selvagens — misturando garras e sombras do passado. Cada vez que Kael caía, ouvia ecos de batalhas antigas, vozes de lobos mortos, nomes que não conhecia, memórias de um tempo esquecido.
Mas ele não recuou.
Lutava não só com o corpo, mas com a alma.
E, aos poucos, o Uivo Eterno começou a vibrar dentro dele, mesmo sem tê-lo ainda. Como se o poder já reconhecesse algo… alguém.
Por fim, Kael ficou de pé sobre o corpo ferido de Naelen, ofegante, mas firme.
— Eu não vim para te matar. Vim para lembrar.
— Você não está sozinho. Nunca esteve.
— Se seu uivo foi partido, o meu pode ser o resto.
Naelen abriu os olhos — e por um momento, os ecos dentro dele silenciaram.
As sombras se afastaram.
E então ele uivou — pela primeira vez em séculos.
Um som tão puro e profundo que o ar pareceu estremecer.
A terra tremeu. O céu se abriu.
E parte do uivo passou de sua garganta para a de Kael — como uma herança viva.
O Uivo Eterno agora pulsava dentro de Kael.
Naelen tombou. Não morto, mas... liberto.
— Vai, filhote da aurora. Mas lembra… três vozes fazem o Coração. Mas quatro o destroem.
Kael franziu o cenho.
— Quatro?
Mas Naelen já dormia.
Liora se aproximou.
— Isso muda tudo.
Kael olhou para os céus.
— Alguém está mentindo sobre a origem do Espírito Sombrio...
Irian se aproximou, sussurrando.
— E se o Espírito… for um Guardião que foi esquecido?