Capítulo 8 – O Lobo Sem Nome

602 Palavras
Algumas histórias não foram esquecidas. Apenas enterradas. Kael sentia o Uivo Eterno vibrando em sua garganta mesmo sem emitir som. Era como se sua alma estivesse em constante movimento, buscando algo que ainda não havia sido revelado. Ao lado dele, Liora andava em silêncio, com os sentidos alerta. Irian dormia sobre o dorso de Kael, exausto, mas sereno — como se os fragmentos de luz que carregavam o protegessem dos ecos escuros. “Três vozes fazem o Coração… Mas quatro o destroem.” As palavras de Naelen ecoavam em sua mente.
Havia algo errado.
Desde o início. Ao fim daquela noite, chegaram ao Limiar Esquecido, uma clareira onde antigas trilhas de lobos desapareciam no solo seco. Ali, os uivos não retornavam. Era um ponto fora dos mapas tribais, mencionado apenas em uma única lenda contada pela Velha Ysra: “Antes dos três Guardiões, houve um lobo que recusou o dom da memória.
Ele não quis lembrar.
Nem ser lembrado.
E ao recusar seu nome, tornou-se invisível aos vivos — mas eterno aos ecos.” Kael sabia o que precisava fazer. Eles cavaram.
Durante horas.
Até encontrarem… uma pedra n***a, lisa, marcada com um único símbolo: o r***o de um uivo interrompido. Não uma runa, não uma palavra. Um corte. Um lamento visual. Quando Kael tocou a pedra, foi lançado para dentro de uma visão — a mais antiga que já tivera. A Visão Um campo de neve branca, sem fim. O céu era de pedra.
Diante dele, quatro lobos uivavam em círculo.
Três eram conhecidos: * Fenraar, com olhos dourados e presas de luz. * Naelen, ainda jovem, com uma cicatriz nas costas. * Ysra, antes de se tornar velha, com olhos como relâmpagos. Mas havia um quarto. Um lobo maior, escuro, mas não feito de sombra — feito de silêncio.
Seus olhos não tinham cor. Sua voz não tinha eco.
E quando tentou uivar… a Terra o calou. “Ele não quis escolher um lado,” disse Fenraar.
“Nem luz, nem sombra. Só liberdade.” “Isso é perigoso,” murmurou Ysra.
“Sem nome, não há memória. E sem memória… ele será esquecido até por si mesmo.” O quarto lobo apenas os observava.
E então, caminhou para longe.
E conforme desaparecia, as sombras em seu rastro ganhavam olhos. Kael voltou da visão arfando. — Ele existiu. Antes de todos. Um lobo que recusou o dom de pertencer.
— O Lobo Sem Nome. Liora sussurrou:
— E se… o Espírito Sombrio não for um espírito?
— E se for ele, corrompido por séculos de esquecimento? Irian estremeceu. — Ele… falou comigo nos sonhos. Disse que não queria ser lembrado. Mas agora… ele grita. Kael fechou os olhos.
Tudo fazia sentido. O Coração de Tharn foi dividido em três para proteger o mundo espiritual. Mas o quarto lobo não quis parte dele. Quando foi esquecido, algo o preencheu: as memórias rejeitadas, os medos dos vivos, os fragmentos que ninguém queria guardar. Ele tornou-se o abismo onde o mundo jogava suas dores.
E o abismo, um dia, respondeu. Liora se aproximou da pedra.
— Essa é a origem.
— Mas se ele for derrotado, as memórias esquecidas voltarão… e o mundo pode não aguentar. Kael sentiu o peso da escolha diante dele. Não estavam apenas lutando contra uma criatura sombria.
Estavam lutando contra o direito de esquecer. E o Lobo Sem Nome, agora renascido como o Espírito Sombrio, estava reunindo todos os ecos rejeitados, preparando um uivo capaz de quebrar o próprio Véu. Kael olhou para os céus. — Então é isso.
— Não podemos só destruí-lo.
— Temos que lembrá-lo.
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