Capítulo 1

1463 Palavras
Fanny — Senhorita, seu pai a chama na sala de reuniões. – A empregada Anna vem trazer a notícia. Assinto e dispenso a mulher de idade avançada, que se fosse por mim já estaria aposentada. Troco meu bordado com Alessa e me levanto. — Termina para mim que eu preciso ir ver o que o chato do meu pai quer comigo. — Sabe que não vai enganar a todos por muito tempo desse jeito. — Enquanto forem enganados está bom. – Dou um beijo na cabeça de minha prima que segue com meu bordado e caminho para a porta. — Hei, você nem começou o bodado, Fanny! — Nem vou terminar. Por favor, Alessa, sabe que não nasci para isso: bordados e receitinhas caseiras do jeito que o noivinho gosta... – falei de modo jocoso e minha prima riu. — Mas não vai enganar a todos por muito tempo, vão descobrir que quem faz seus bordados sou eu, e as receitinhas caseiras de seu noivo também, e eu nem tenho um noivo. — Um dia terá, e ele irá amá-la, pois você sim nasceu para isso, eu não. Aliás, você é minha prima e poderia se casar com Lorenzo no meu lugar. – Alessa ficou vermelha e eu soube na hora que ela gostava do homem, mas não disse nada. – Se quiser, é claro, passo o posto de noiva com todo prazer. Ela sorriu tímida e balançou a cabeça em negação, seus cabelos castanhos, curtos balançaram com o movimento. — Bem, eu preciso ir. Deixei minha prima tecendo meus bordados enquanto o dela ocupava meu lugar afim de parecer que eu havia parado bem no meio do trabalho. Empurrei a porta de madeira pesada do escritório de meu pai e encontrei lá, meu irmão, dois soldados, o consigliere de meu pai e um rapaz que eu havia visto algumas vezes, somente em festas e eventos importantes que envolviam todas as famílias que compõem o império mafioso da família Bernardi, Lorenzo Rossi. — Sente-se. – Meu pai disse apontando os lugares disponíveis para que nos sentássemos. – Hoje preciso fazer algumas declarações, viajarei em breve para Las Vegas resolver algumas pendências e preciso que tudo fique acertado caso eu não volte. — Do que está falando, pai? – Me preocupei imediatamente com suas palavras, mas eu sabia bem que a vida criminosa de meu pai e todos que nos envolviam em algum momento podia dar muito errado. — De negócios, Fanny, sabe dos riscos. — Conhecemos os riscos, pai. Por isso me pergunto por que nos chamou aqui, creio que não é para dizer que tem medo de morrer em meio a uma missão. Olhei feio para Leonel, meu irmão tinha se tornado um completo babaca, não sei se ele via a necessidade de mostrar que era frio e calculista, mas ele só demonstrava essas coisas nos momentos que menos importavam. — Não seja um babaca, Leonel... — Não comecem, vocês dois! – Meu pai nos repreendeu e eu olhei de soslaio para nosso visitante e ele estava sorrindo levemente, apenas um levantar dos lábios do lado esquerdo. — Me desculpe... – falei. — Tudo bem. Fanny, eu disse que se casaria aos dezoito anos, mas com o falecimento de sua mãe há dois anos, achei melhor que ficasse mais tempo perto de mim. Sabia onde meu pai queria chegar, na verdade, eu estava esperando que fosse em breve, já que eu estava com vinte anos, idade em que esses homens machistas consideram que já está passando da idade de se casar. Apenas respirei fundo e esperei a facada. — Lorenzo não está aqui à toa, ele veio para honrar seu compromisso. Quero que marquem a data do casamento, vou deixar que encontrem uma data que os dois desejam. Já é muito o que estou fazendo, Fanny, antes que diga qualquer coisa. Apenas dei de ombros, o que eu faria? Ou diria? Infelizmente já havia aceitado aquele fardo. — Quero uma data antes da minha viagem. – Concluiu meu pai. Olhei para o rapaz e ele fez um sinal positivo com a cabeça. — Mais uma coisa, quero deixar claro quem será meu sucessor. Caso eu não volte, a posição de chefe da máfia fica com Leonel Bernardi. — O quê disse? – Me coloquei de pé. – Como pode, pai? Ele é só um adolescente i****a. — Você também é, agora sente-se. – Ordenou e eu cumpri. Ao olhar para meu irmão, vi o mesmo sorrisinho vitorioso que vi tantas vezes. — Mas, pai, Leonel é... — Cale-se! – Berrou de um modo que não fazia há anos. — Mas eu treinei a vida toda – Sussurrei – Me dediquei, aprendi tudo que estavam dispostos a me ensinar, sou a filha mais velha... eu deveria ser a sucessora. — Está questionando seu pai? – Sandro Bernardi falou em tom ameaçador. — Não, senhor. Abaixei a cabeça e tudo o que falavam eram só murmúrios em meu ouvido, não conseguia entender nada e eu acho que não fazia diferença para ninguém se eu entendia ou não o que era dito naquela sala, afinal, eu era apenas uma mulher e estava participando da reunião apenas por ser filha do Chefe e porque meu casamento fora finalmente exigido pelo meu pai. Todos sabem que este é um comportamento normal na máfia: mulheres servem para se casar, dar herdeiros e fornecer contratos baratos. Mas eu estava cansada daquilo, do machismo, a falta de voz, da falta de valor. Minha mãe até havia dado sorte se casando com um homem que nunca a maltratou, nunca bateu ou humilhou, ele sempre a honrou por ser a mãe de seus filhos. Há muitos casos de homens que acham que são donos ou pais das mulheres, querem mandar, bater e humilhar. Essa vida de omissão tinha que acabar. A revolta crescia dentro de mim. Me levantei. Senti os olhares em minhas costas, mas não olhei para trás nem disse uma única palavra. — Fanny! – Ouvi a voz de meu pai me chamar, mas não olhei para trás e nem respondi. Deixei a sala de reuniões, escritório, sala de jantar... seja lá o que porcaria é aquele lugar. Fui atrás da única pessoa que poderia me compreender. Atravessei o pátio, sabia que aquela hora da noite, ele ficava nos portões de vigia, reforçando a vigilância. — Vicenzo! – Chamei-o e ele apareceu por cima do muro, deu a volta e desceu pela escada de pedra. — Pestinha! Aconteceu alguma coisa? Seu olhar preocupado me percorreu, provavelmente procurando ferimentos ou algo do tipo. Vicenzo já apesentava alguns fios de cabelo branco, mas ele continuava forte e bonito. E ainda era bastante alto. — Estou bem, só preciso de você. Pode me ouvir por alguns minutos? — Claro, pestinha! Ele fez um gesto com a mão enluvada para os homens que permaneceram e me seguiu. Andamos até um banco no jardim e nos sentamos. Me abri para meu velho amigo. Contei sobre o casamento que eu até já estava conformada, mas o golpe de misericórdia veio quando ele me tirou o direito da herança. Só por ser mulher não posso ocupar meu lugar de direito. Vicenzo me ouviu, me abraçou, deixou que desabafasse e chorasse. Beijou meus cabelos loiros e me aconchegou em seus braços fortes, mas quando abriu a boca para falar, não saiu aquilo que eu esperava ouvir de meu amigo. — Fanny, esse é o costume. Sei que está chateada, mas Lorenzo parede ser um bom rapaz, vai ser um bom marido, e se não for, mesmo que seu pai não esteja mais aqui, eu arranco o seu couro tira por tira. — Não é disso que estou falando, Vicenzo. Eu mesma posso arrancar as tiras de seu couro se ele vacilar comigo. Ele riu e questionou. — O que é, então? — Ainda não entendeu? Leonel roubou a minha posição, deve ter convencido meu pai de que o lugar era dele e não meu, por causa do bendito p***o entre as pernas. — Leonel não roubou nada nem convenceu ninguém, ele é o primeiro filho homem do Chefe, portanto, o direito é dele. — Não, o direito é meu! Eu sou a mais velha, treinei, me dediquei, por que meu pai mudou de ideia só agora? — Ele não mudou de ideia agora, ele sempre pensou assim. Te deixava treinar porque ele é um pai do tipo babão, mesmo que não pareça. Ele sempre fez tudo por você, te deu tudo o que quis. — Nem tudo. — Isso ele não pode te dar. — E você não pode me ajudar? — Do jeito que quer, não. Desolada, balancei a cabeça em concordância e deixei o jardim. Ouvi alguém me chamar, mas andei sem rumo pela imensa mansão.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR