2 - Não sou uma sanguessuga

1047 Palavras
VITÓRIA O sorriso em seu rosto desapareceu assim que eu a mandei calar a boca. Eu queria rir de como ela era fofa, mas contive o riso. É melhor eu repreendê-la e lembrá-la de seu valor. Ela parece ter a minha idade ou talvez mais, mas isso não significa que ela não levaria bronca. – Então de repente você consegue falar? – Perguntei a ela. – Isso foi incrível... – Eu disse, tentando imitar a voz dela. Sério, eu odeio quando garotas deixam outras garotas intimidá-las. Veja, eu a calei com apenas algumas palavras, você poderia ter feito o mesmo. Às vezes, o silêncio não é a melhor resposta quando alguém está sendo rude com você... mostre a eles o que você tem, garota – Terminei, olhando diretamente nos olhos dela para ter certeza de que ela havia entendido minha mensagem. Ela surpreendentemente caiu na gargalhada e eu fiquei olhando para ela confusa. Será que eu disse algo engraçado? – Você devia ter visto sua cara. Você me lembrou tanto da minha mãe e do meu irmão quando eles me repreendem. Você estava tão legal que eu não consegui conter o riso. Quantos anos você tem? – ela perguntou, olhando para mim com expectativa. – Vinte e três – murmurei baixinho, mas tinha certeza de que ela me ouviu. De repente, fiquei tímida por ter falado demais. E se ela fosse mais velha? – Desculpe – eu disse rapidamente para evitar qualquer problema. – Não... não... não... – ela disse enquanto pegava minhas mãos. – Acredite, minha querida, não estou ofendida. Sério, às vezes eu simplesmente fico quieta e deixo as pessoas desperdiçarem energia. Não tenho tempo para isso, discutir com as pessoas, não é minha praia. – Então estamos bem? – Claro! Por que não estaríamos? – ela disse enquanto tentava me abraçar, mas eu desviei. – Hum, te vejo por aí – Falei a ela enquanto fazia menção de ir embora, mas ela me bloqueou. – Vamos jantar juntas, quero agradecer por me salvar. – Não, obrigada, tenho outras coisas para fazer e você não parece tão pobre e inocente como pensei. – Olhei para ela com atenção. Ela parecia simples, mas não humilde. — Ah, vamos. Sério, eu não tinha nada para fazer e estava com fome, mas isso não significa que vou agarrar a primeira oportunidade que aparecer, não sou uma sanguessuga. – Sinto muito, mas terei que recusar essa oferta – disse a ela enquanto finalmente saía andando, deixando-a perguntando meu nome, que não me dei ao trabalho de dizer. Ter novos amigos significava sair juntos e dividir as contas, bem, naquela fase da minha vida, eu não estava pronta para isso. Cheguei em casa e fui recebida pelo silêncio do meu pequeno apartamento e pela lembrança de que estava desempregada. Parecia que voltar para casa sempre me trazia de volta aquele fato, aquele fato de que as coisas não estavam indo bem, eu não tinha emprego e nenhum plano para pagar minhas mensalidades da faculdade. Suspirando, peguei meu telefone do criado-mudo para verificar se havia alguma mensagem que pudesse melhorar meu humor, mas não havia nada, absolutamente nada, apenas algumas mensagens e uma chamada perdida da minha amiga. Miriam pode não saber tudo o que eu passo, mas ela sabe que passo por algumas coisas na minha vida e age como minha mãe, sempre ligando para saber como estou. Agradeço seu cuidado e preocupação, mas às vezes fica insuportável e não quero descontar minha raiva e frustração nela um dia. Espero que esse dia nunca chegue... Minha vida era chata, nem sempre foi assim, mas ultimamente tem sido. Sinto que o dinheiro é a causa da minha tristeza, passei por um inferno por causa dele. Mas não posso culpá-lo, tenho que me esforçar para ganhar a confiança dele, então ele se tornará meu melhor amigo. Sim, ainda estou falando de dinheiro. É engraçado como a vida pode ser. Eu tinha tudo, mas num piscar de olhos, tudo desapareceu como poeira no ar. Eu não gostava de revirar memórias do meu passado, elas me machucavam muito. Eu estava apenas sobrevivendo e minha mente estava uma bagunça. Fiz o de sempre: acordei, procurei emprego, andei pela cidade e voltei para casa para dormir. Não vai demorar muito para eu enlouquecer. Nem me dei ao trabalho de cozinhar nada. Uma pequena parte de mim se arrependeu de não ter aceitado o convite daquela garota estranha para jantar, mas a maior parte me disse que era a coisa certa a fazer. Não sei o que havia de errado comigo, mas no meio da noite acordei em prantos, soluçando sem parar, era como se eu estivesse no último suspiro e não conseguisse mais continuar, mas eu ainda acreditava que havia luz no fim do túnel. Eu ainda não a via, mas a sentia. Esperança. Depois do meu terrível episódio de choro, não consegui dormir, então simplesmente me levantei da cama e fui até a pequena cozinha procurar algo para comer. Eu estava infeliz, mas não acrescentaria fome à lista. Tenho sorte pela estrutura corporal que tenho, caso contrário, seria mais osso do que carne. Peguei os biscoitos que sobraram das minhas últimas compras de supermercado e um pote de sorvete. É, pense o que quiser, mas não importa o quanto eu esteja sem dinheiro, sempre compro sorvete. Ele já salvou minha vida inúmeras vezes, então não brinco com meus doces. Levei-os de volta para a cama, relaxei e aproveitei bastante. Mergulhei o biscoito no sorvete e deixei derreter na boca, foi o paraíso. Quando terminei, me senti melhor e voltei a dormir. Na manhã seguinte, fui acordada por uma batida na porta. Eu ia arrancar a cabeça de quem quer que fosse aquela pessoa, tinha certeza de que não estava esperando ninguém e também tinha certeza de que tinha pago o aluguel, então quem quer que estivesse me acordando estava em apuros. Eu queria ignorar a batida, mas a pessoa que estava ali não aceitou e continuou insistentemente. Finalmente me cansei, levantei-me relutantemente da cama com a intenção de matar estampada no meu rosto. Eu ia matar alguém. Marchei até a porta e a abri, mas assim que dei de cara com a pessoa que estava ali, fiquei em choque. – O que você faz aqui?
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