Cerca de vinte minutos depois, o Uber estava parado na porta de casa. Desci tão desesperada, com Cecília nos meus braços, que só percebi quando já estava dentro do carro que estava com um pé usando sandália diferente da outra.
— Se você estivesse bem, estaria rindo de como sua mãe é desastrada, não é? Espero que melhore logo, para a gente poder rir disso depois. — Brinquei, acariciando sua testa quente. Rindo sozinha de como a minha pequena iria se divertir com aquela situação.
Era por volta das duas da manhã quando chegamos ao hospital. O trajeto, que não deve ter levado mais de cinco minutos, me pareceu uma eternidade indescritível. Assim que coloquei os pés na entrada, uma enfermeira apareceu com uma cadeira de rodas, nos levando rapidamente para o consultório médico.
Quando entramos na sala, Cecília começou a convulsionar, como se estivesse esperando pelo momento mais seguro para isso. A médica deu instruções imediatas para que ela fosse levada à área de medicação. A convulsão parou assim que a medicação foi aplicada. Alguns minutos depois, começaram a bateria de exames.Que levariam muito mais tempo do que eu esperava.
Era cerca de quatro horas da manhã e o quarto do hospital estava mais silencioso do que eu gostaria. Estava sentada na mesma cadeira há quase duas horas, esperando o médico trazer os resultados dos exames. Cecília, aliviada por ter adormecido após a medicação, me dava algum descanso. Nunca imaginei que minha filha passaria por tanto sofrimento.
— Senhora Ariela Barbosa? A senhora é a responsável por Cecília, não é? Sou Anderson, o médico que está cuidando dela. Imagino que tenha muitas dúvidas. Vim aqui para explicar tudo. — Nem percebi quando o médico entrou. Estava tão absorta nos meus pensamentos que só notei sua presença quando ele falou, me fazendo levantar da cadeira imediatamente.
— Estou muito preocupada, doutor. Como está minha filha? O que aconteceu? Tenho seguido o tratamento dela como fui orientada, esperando a autorização para a cirurgia. — Cecília, com cerca de seis anos, foi diagnosticada com um câncer renal. A cirurgia é essencial, mas estamos esperando a autorização há quase dois anos, através do sistema de saúde público.
— Entendo sua preocupação. Recebemos os resultados dos exames e, infelizmente, o tumor renal da sua filha já causou uma obstrução no sistema urinário. Foi isso que causou a dor intensa e a febre alta. — Anderson explicou, mostrando uma imagem no tablet. Não entendi nada do que ele estava dizendo. Nesses momentos, me arrependo de não ter terminado o ensino médio.
— O que isso significa? Não entendo o que está tentando me mostrar. — Admiti, nervosa, tentando entender.
— O tumor cresceu a ponto de bloquear o fluxo normal de urina, o que pode gerar complicações graves, como dor intensa, infecções e danos aos rins. A infecção já começou, mas pode ser contida. Os rins estão sobrecarregados, e as dores de Cecília estão tão intensas que tivemos que sedá-la. — Anderson falava com paciência, me fazendo perceber a gravidade da situação.
— E o que podemos fazer agora? — Perguntei, com o coração apertado. Algo precisava ser feito, e rapidamente.
— Precisamos realizar uma cirurgia de emergência para remover o tumor e desobstruir o sistema urinário. Este procedimento é vital e não pode ser adiado por mais de 24 horas, pois há risco de danos permanentes e infecções graves. Caso não seja feito aqui, precisaremos transferi-la para outro hospital. Sei que você deve ter seus motivos para ainda não ter feito isso, mas agora é uma emergência, e não podemos esperar mais. Cecília não resistirá por mais de 24 horas. — O médico foi direto, e senti meu corpo se gelar. A ideia de transferir Cecília para outro hospital me deixava ainda mais apreensiva.
— E quais são os riscos dessa cirurgia? — Perguntei, tentando manter a calma, mas sentindo um peso enorme no peito. Cecília estava tão debilitada que parecia tudo muito arriscado.
— Como qualquer cirurgia, há riscos, como infecção, sangramento e complicações com a anestesia. Porém, nossa equipe é altamente qualificada, e faremos tudo o que for possível para minimizar esses riscos. A cirurgia é necessária para salvar a saúde da sua filha. Não fazê-la é um risco ainda maior. — Ele me olhou com seriedade, e embora eu soubesse que a cirurgia era essencial, uma parte de mim ainda resistia à ideia.
— Quanto tempo levará a recuperação dela? — Perguntei, tentando focar em algo mais tangível. Pensaria no dinheiro depois. Cecília me perguntaria tudo, e eu precisava estar pronta.
— A recuperação varia, mas ela precisará ficar alguns dias no hospital para observação e cuidados pós-operatórios. Em média, de três a sete dias. Depois disso, o período de recuperação em casa com acompanhamento médico regular. Não será diferente de qualquer outra cirurgia. — Anderson parecia tentar me acalmar, mas eu nunca passei por uma cirurgia. Como eu saberia o que esperar?
— Está bem, doutor. Eu entendo. Pode me dizer quanto, em média, custaria o procedimento particular? — Perguntei, sentindo o peso da pergunta. Eu tinha trinta reais na conta, só o suficiente para o Uber de volta para casa.
— Depende do hospital. Aqui não fazemos esse procedimento, seja pago ou gratuito, mas posso te indicar um excelente médico em um bom hospital. Lá, ela será bem atendida e posso tentar conseguir um desconto. Sei que o atendimento não será barato. — Anderson percebeu o meu nervosismo e tentou amenizar.
— Entendi. Gostaria de saber os valores médios. Pode me mandar por mensagem ou e-mail? Vou tentar encontrar uma forma de conseguir o valor. — Eu não podia mais esperar pelo sistema público, mas como conseguiria o dinheiro?
— Farei algumas ligações e, como tenho seu número, passarei as informações para o hospital. Eles devem retornar em breve. Enquanto isso, vamos continuar medicando a pequena. Mesmo que ela acorde, ela estará levemente sedada, para evitar que sofra com as dores. Se precisar de mais alguma coisa, pode me procurar na minha sala. Com licença. — Anderson saiu rapidamente, falando no celular, pelo tom da conversa, era em relação a cirurgia de Cecília.
Sentei-me, desorientada, e segurei a mãozinha de Cecília. Lembrei de como tive medo de ser mãe quando descobri a gravidez, aos dezesseis anos. Estava no segundo ano do ensino médio, e meu pai me abandonou no hospital depois de um acidente. Felizmente, minha avó me criou. Quem imaginaria que eu estaria grávida no momento mais caótico da minha vida?
Não era a primeira vez que passávamos por isso. Também não deveria ser a última. Cecília já nasceu doente. Desde que veio ao mundo, minha pequena guerreira teve que lutar para de manter viva, mas mesmo em meio as batalhas, minha pequena sempre de mantinha sorrindo.
— Tenho até medo de olhar. — O som da mensagem chegando no meu celular me assustou. Abri, receosa, tentando não pensar no valor. Mas, quando vi o orçamento na tela, não consegui conter uma crise de riso nervoso. — Esse número só pode estar errado. De onde diabos eu vou tirar 50 mil reais em menos de 24 horas?
Se encontrar 30 mil havia sido difícil no último meses, mesmo assim, não consegui. Como seria possível conseguir 50 mil em 24 horas? A vida da minha pequena estava em jogo. E quanto mais eu pensava nisso, a resposta ficava cada vez mais clara. Eu continuava tendo apenas uma opção.
— Eu esqueci de perguntar... De quem eu deveria ser a noiva de aluguel? Quem pagaria tão caro apenas para fazer a mãe odiar alguém? — Pensei alto olhando o valor do orçamento na tela do meu telefone — De toda forma, acho que isso não importa. Seja quem for... Não tenho outra opção. Se eu quiser salvar minha pequena. Eu terei que aceitar essa proposta absurda, mas será que ele aceitará aumenta o valor?