Rebeca chega em casa, largando as chaves do carro por qualquer lugar, ela vai até a cozinha, encara a mesa, posta, mesa que ela demorou uma tarde inteira para arrumar, olhando agora, parece tão brega...ela puxa a toalha com uma mão só, fazendo com que toda a louça caia no chão.
Levando as mãos em seu rosto, ela tenta limpar as lágrimas, que insistem em sair, e decide tomar um banho, ela sabe que precisa se acalmar.
Depois de preparar a banheira, ela entra, e tenta relaxar o máximo que pode, seu corpo entra em estado de transe, e logo, ela é levada de volta ao seu passado.
“Flashback”
Hoje é dia 26 de agosto, a Miller confecções está completando 29 anos, e todo ano, papai dá uma festa de arromba aqui em casa, todos estão aqui, representantes das marcas mais conhecidas da América, jornalistas, todos querem cobrir o desfile anual da Miller, sempre, no aniversário da empresa, papai lança uma coleção nova, e, esse ano, estou muito animada, porque, é a primeira vez que ele me deixou participar da criação.
Termino de me arrumar, estou usando um terninho preto, e pouca maquiagem, detesto parecer uma palhaça, me olho no espelho e gosto, me sinto bem, elegante e confortável.
Ao sair do quarto, encontro mamãe no corredor, e pra variar, ela tem sua própria opinião sobre a minha roupa.
-Rebeca, aonde pensa que vai vestida assim? Quer envergonhar o seu pai?
-Como assim mãe? Esse terno é da nossa marca, é uma das peças favoritas do papai.
-Para uma reunião de negócios, Rebeca, não para uma festa! Porque não usa um dos milhares de vestidos que tem no seu armário?
-Porque não me sinto bem e muito menos a vontade usando vestidos, mãe, são desconfortáveis demais.
-Meu Deus, porque com você tem que ser tão difícil? Você já viu como sua irmã fica encantadora nos vestidos que seu pai desenha? Ela nem precisa se esforçar pra passar uma boa imagem da nossa marca e sabe porque? Porque ela não quer envergonhar seu pai...agora, você, vestida desse jeito, não vai passar de um motivo de piada.
Ela se afasta, e uma pequena lágrima escorrer no canto do meu olho, mas, não deixo isso me abalar, estou gostando do que estou vestindo e não vou me trocar.
Desço as escadas em direção a festa, e logo avisto Jack, em meio a seu seleto grupo de amigos, segurando uma taça de champagne, tão belo...como eu desejo aquele homem, eu o desejo com todas as minhas forças.
Me aproximo devagar dele, mas, antes que eu possa chegar, Lara chega, o abraçando, ele a toca com tanta liberdade, e ela parece gostar muito...eu não estou apaixonada pelo namorado da minha irmã, não é isso, eu conheci Jack primeiro, éramos amigos, até que, ele conheceu Lara, e se apaixonou perdidamente por ela, eu não pude fazer nada, apenas, fiquei de mãos atadas, mesmo sendo apaixonada por Jack desde o instante em que o vi.
Redireciono meu caminho para o bar, não tenho muito o costume de beber, mas, hoje a noite está pedindo.
-Um Martini, por favor! -Eu peço ao garçom.
-Um whisky, sem gelo. -Ouço uma voz conhecida pedir atrás de mim.
Me viro e dou de cara com Jack e seu corpo escultural, me escaldando, quase como uma parede.
-Rebeca, eu não sabia que era você quem estava aí. -Ele diz.
-Jack, bom te ver por aqui. -Eu digo, sorrindo.
-Você está...parecida com uma mulher importante.
-Obrigada. -Respondi radiante de felicidade...que droga! Não consigo esconder esses dentes.
-Bom, preciso ir, sabe como sua irmã é impaciente. -Ele diz, estendendo um copo.
-Claro, vai lá, saúde! -Eu digo, estendendo minha taça também.
Ele se afasta, e a minha vontade, era de enfiar a cabeça nessa taça e não levantar nunca mais.
Continuo virando uma taça atrás da outra, e antes que possa perceber, o álcool já subiu a minha mente...estou sentada no banco do bar, de frente para Jack, em meio a sua roda de amigos, sem Lara o cercando, penso que essa é a oportunidade perfeita, o álcool vai me dar a coragem que eu preciso pra finalmente dizer o que sinto, não posso mais agir como se esses sentimentos não existissem.
Eu caminho até Jack, um pouco mais torta do que o normal, e toco seu ombro.
Jack se vira, parecendo assustado em me ver.
-Jack, eu...posso falar com você um instante?-Pergunto, torcendo para que ele quisesse se afastar dali, mas, ao invés disso, ele prefere se manter exatamente aonde está.
-Estou ouvindo. -Ele responde.
-Tem algo que eu preciso te dizer...algo que eu sinto a muito tempo, antes mesmo da Lara, e, eu não posso mais viver com isso dentro de mim, a verdade Jack é que, eu...sou completamente apaixonada por você, desde o momento em que nos conhecemos, naquela festa da faculdade, eu sabia que te amava, Jack e eu torço, torço muito para que você possa me amar também.
Jack me encara, e eu espero que ele diga algo, mas, ao invés disso, ele ri, descontroladamente.
-Você acha, que alguém como eu ficaria com alguém como você, Rebeca? Olha, eu te acho legal, como, uma amiga distante, sabe? Daquelas que a gente só visita de vez em quando? Mas, apaixonada? Aí você pegou pesado! Sinto muito Rebeca, mas, eu jamais me apaixonaria por você, nem se você fosse a última mulher do mundo, agora, se me dá licença. -Ele diz, se voltando novamente para seus amigos, que me encaram e cochicham entre si.
Fim do flashback...
Relembrar o passado fez Rebeca perceber que, Jack nunca foi legal com ela, ele sempre a humilhou, a diminuiu, ela estava tão cega, que chegou a pensar mesmo que essa era a sua forma de demonstrar carinho, seu corpo se inundava de raiva, sua mente a condenava, mas, isso acabou, ela não seria humilhada, não mais.
Rebeca ouve o barulho da porta se abrir, e imagina que seja Jack, ela sai do banho, vestindo uma roupa qualquer, sabia que se perdesse tempo demais se arrumando, também perderia a coragem, ela desce as escadas, e anda em sua direção, antes que o perca de vista, e ele se tranque no quarto.
-Jack, eu preciso falar com você. -Ela diz.
-Rebeca, se você quer falar sobre hoje, já vou logo avisando que não estou afim...
-Eu quero o divórcio, Jack, e isso não é um até logo, isso é um adeus.
Rebeca pega sua mala, já pronta, e sai pela porta, sem dizer mais nada, deixando Jack boquiaberto.
Ela entra no táxi e segue em direção ao aeroporto, sem pensar muito, Rebeca está determinada, ela acredita que essa realmente é a sua chance de recomeçar, não aqui, não nessa cidade.
Algum tempo depois, ela desce do táxi e entra no aeroporto, ela faz o check-in de sua passagem, e caminha até a sala de embarque, uma última olhada para trás antes de ir, um adeus a cidade onde nasceu, onde pensou ser feliz durante tantos anos, e um olá a busca pela verdadeira felicidade.