📓 NARRADO POR LOBO Fiquei um tempo olhando pra ela, aquele olhar limpo demais pra quem já tinha visto o que eu vi. Lara achava que mudar o morro era questão de vontade. Mas vontade sozinha não compra paz, não segura fome e nem enterra corpo sem chorar. Suspirei fundo, apoiando o cotovelo na mesa e soltando o cigarro no cinzeiro. — Deixa eu te contar uma coisa, princesa… Ela me encarou, quieta, esperando. E eu comecei, sem disfarce, sem poesia. — Aqui, o morro só existe porque o Estado esqueceu dele. Quando o governo lembra, é pra subir com caveirão, atirar em barraco e chamar de “operação”. Pra eles, o povo daqui não é gente. É estatística. É dano colateral. Ela piscou, devagar. — E você acha que isso justifica o tráfico? Dei uma risada seca, sem humor. — Não, mas explica. P

