CAPÍTULO 15

1129 Palavras
Quem pode casar com uma mulher assim? Nem quero imaginar como será com o teu parceiro. Mas não é da minha conta. Quando entro na cozinha, vejo Michele assando outro lote de croissant. Ela é uma mulher reservada, fala justo e é útil, o que me deixa curiosa. Ela não parece mais velha, mas também não parece jovem. — Ontem fiz em casa, a minha família adorou o bolo de chocolate que fiz. Meu irmão mais novo implorou por uma porção extra. E assim, a vida me traz de volta à realidade, minha realidade. É como se eu tivesse sido atingido no peito, a dor é tão intensa que quase me afogo. — O teu irmão mais novo? — Eu pergunto, a minha voz dificilmente é um sussurro. — Sim, gostou tanto que me incentivou a continuar a cozinhar porque faço muito bem. Ele diz que as minhas sobremesas fazem a minha alma feliz, embora eu não pense que é verdade porque estou apenas a começar. No entanto, ele continuou me aplaudindo, me dizendo o quão bem eu fiz e que ele espera que eu faça mais para ele. — I... — Eu não digo nada, eu apenas tropeço em direção ao banheiro. Neste momento, estamos sozinhas, então eu abro um dos cubículos e me tranco. Eu cubro minha boca para que os soluços não sejam ouvidos, enquanto lágrimas grossas descem pelas minhas bochechas. As memórias de Kevin me invadem: risos, elogios, bons desejos. Vai parar de doer algum dia? Tenho que parar de chorar, de me sentir entorpecida, porque não gosto. Mas como faço isso quando não faço uma pausa? Primeiro o meu irmão, depois a minha mãe, o Leonardo e o meu erro. Toda interação em minha vida parece destinada a me machucar, exceto aquelas relacionadas a Bruno. Eu saio do banheiro antes de ficar mais animada com um homem que nem me dá atenção. Com tudo o que passei e ainda não aprendi. Eu lavo meu rosto e ensaio um sorriso na frente do espelho. Sabendo que não há nada que eu possa fazer com meus olhos lacrimejantes, deixo-me pronto para continuar meu dia. Michele me observa em detalhes; eu percebo em seus olhos que ela quer perguntar, mas ela permanece em silêncio. Às quatro horas, eu saio e, em vez de ir para casa, eu ando para um lugar que eu não visito há muito tempo: o cemitério. A cada passo que dou, o peso no meu peito aumenta tanto que sinto que vou ficar sem fôlego. Ao chegar ao túmulo do meu irmão mais novo, eu me ajoelho no chão, enquanto vejo seu nome e mensagem inscritos na lápide. Kevin Veiga. Amado filho e irmão. O corpo, a alma e o coração de uma família que nunca o esquecerá. Quão certa era a mãe quando ela tinha essa frase gravada. Nossa vida não tem sido a mesma desde que perdemos, e isso me quebra saber que foi minha culpa. Acho que mereço tudo o que me aconteceu: mereço a rejeição da minha família, sendo o brinquedo de um homem que me vendeu fantasias, tendo perdido a virgindade em circunstâncias estranhas, não tendo ninguém que me ame. Estou pagando em vida por causar a morte do meu irmão. — Desculpe, sinto muito — peço desculpa entre soluços — Sinto a tua falta, K. Não posso continuar sem você. Devia ter deixado o carro atropelar-me, não devia ter-me salvo. O silêncio é a única coisa que recebo em resposta. — Leve consigo, k. Estou cansado, por favor, leve-me, eu preciso. Eu imploro, mas os meus apelos não são ouvidos — Mamãe não me perdoa, Carlos me odeia por sair de casa, papai é indiferente —Eu digo a ele o que está acontecendo — Conheci um homem que pensei ser bom, mas agora não sei. Estava com ele, K, e não me lembro. Tudo está fora de controle e eu não sei mais o que fazer. Por favor, leve-me com você. No meio do meu desespero, deito no túmulo como se quisesse abraçá-lo. Eu fecho meus olhos na esperança de que minhas palavras o alcancem e cumpram meu desejo. O tempo passa e nada acontece; só abro os olhos quando ouço alguns passos pesados se aproximando. — Está frio —diz — Está pronto para ir para casa? — Eu não quero — respondo — O que está fazendo aqui, Bruno? Você está me seguindo? — Não! Estão todos aqui. Sento para ouvir a tua resposta. O que quer dizer com isso? — Todos? — Mãe, pai e a minha irmã mais nova. Todos. — Como continua de pé? — Eu pergunto. Ele é tão forte, e eu estou aqui, chorando desesperadamente porque eu não quero mais continuar. — Um dia de cada vez, Helena. Eu disse naquele dia no hospital, tem que te perdoar. O teu irmão não gostaria de te ver assim. — Quero ir para casa, Bruno. — Soluçar. — Vamos para casa. Isso me ajuda a levantar do chão, tira minha jaqueta e coloca em mim, mesmo que eu já tenha uma. Ele me guia até o carro dele e, após ter certeza de que estou confortável, corre até chegar ao volante e dirigir até o nosso prédio. Não é a primeira vez que ele me salva. Kevin pode ter me enviado para Bruno para que eu não me sinta sozinha; pode não ser minha hora de ir ainda e este é o meu sinal. Há tantas possibilidades, e não tenho certeza sobre nenhuma delas. "A tensão cresceu dentro de mim, como se tentasse reduzir um risco iminente, mas o perigo permaneceu latente, não importa o quanto eu o evitasse." Helena Veigas.  4 Meses depois Não parou de doer, não importa o que eu faça, continua me machucando tanto que queima. Eu me inclino mais sobre o banheiro para vomitar. Já perdi a conta de quantas vezes fiz nos últimos meses. Sinto-me doente, cansada e, portanto, sem encorajamento. m*l consigo me levantar para ir trabalhar e voltar assim que o dia acabar. Tudo aconteceu em um borrão. Bruno foi embora após me trazer para casa, e não tenho notícias dele durante este tempo. Leonardo não olha para mim, nem se preocupa em ir ao café sozinho. Carlos não responde às minhas mensagens e também não abre a porta quando bato. É um desastre, minha vida não tem sentido. Eu me levanto do chão do banheiro e vou para o chuveiro, deixando a água arrastar todo o desconforto. Quando eu saio, eu me sinto mais acordada, embora tão exausta. Eu saio de casa quando estou pronto e olho para a porta da frente, desejando que ela se abra. No entanto, não. Eu solto um suspiro de resignação, endireito e continuo no meu caminho.
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