CAPÍTULO 17

1257 Palavras
Eu olho para Samuel, cujos olhos estão fixos nos meus. Eu não quero que ele vá embora; por mais que eu me arrependa de estar nessa situação, eu quero que você esteja ao meu lado, me apoiando. —Sim. O médico acena com a cabeça e prepara o equipamento. Em silêncio, Samuel se aproxima de mim e coloca a mão no meu joelho. O contato é suficiente para aliviar um pouco da tensão que invade meu corpo. Eu gostaria que as circunstâncias fossem diferentes; eu gostaria que tivesse sido ele e não Conrad. —Ok, vamos começar. Samuel se vira quando o médico insere o dispositivo na minha v****a para ver com mais detalhes. — Dói? —ele pergunta-me. —Não, apenas incomoda —Eu respondo honestamente. —Vamos ver, o feto tem doze centímetros e pesa aproximadamente cem gramas. Isso indica que você está grávida de quatro meses. Os seus órgãos estão a formar-se bem, não vejo nada fora do comum. —O médico vira-se para me olhar —. A coisa normal para este ponto é que sua barriga é maior, você tem menos náuseas e mais energia. No entanto, seu quadro de desnutrição tornou tudo diferente. Felizmente, ela não foi afetada. De tudo o que ele disse, há uma palavra que se destaca em minha mente. —Sim, está à espera de uma menina —confirmar. —Uma menina ... —Repito em voz baixa. —Ficará sob observação por mais alguns dias para se certificar de que nada nos aconteceu. Vou enviar-lhe alguns exames e vamos sair de lá com suplementos. —Obrigado. —Você é bem-vindo, Margareth —pega seu equipamento e Samuel abre a porta para seu —. Boa noite. Depois de fechar a porta, ele volta para o meu lado e se senta na cadeira. Permanecemos em silêncio, embora, de sua posição, eu perceba que ele quer perguntar. Eu viro meu rosto para a janela e me preparo para falar; eu não podia suportar ver a decepção em seu rosto. —Saí para festejar com um homem que estava a cortejar-me —Começo —. Aquele dia foi difícil para mim, minha família .... Não era bonito, e ele ofereceu-me uma fuga que eu não hesitei em aceitar. Bebi muito, ou pelo menos acho que sim; não me lembro de nada daquela noite, mas acordei em uma cama com ele. Os segundos passam, minutos, e Samuel ainda não fala, enquanto eu me forço a não olhar para ele. — Tem a certeza que bebeu álcool? Não era outra coisa? — Algo como o quê? —inquirir. —Alguma droga. Minha cabeça está girando tão rápido que eu sinto um puxão no meu pescoço. — Eu não uso drogas! —suspiro. —Não por vontade própria. Confia que ele não pôs nada na sua bebida? —Sei pouco sobre isso, mas acho que não. Quero dizer, um homem como ele não teria de fazer algo assim, pois não?—Este último parece mais uma pergunta do que uma afirmação. —Você ficaria surpreso com o que uma pessoa má é capaz de fazer —Ele se encaixa melhor na cadeira —. Pode dizer-me o nome dele? Eu olho para ele com suspeita. De que serve dizer-lhe o nome do Conrad? O dano já está feito e não há como voltar atrás. —Não, só quero esquecer-me dele e do que aconteceu. No entanto, isso não vai acontecer, e agora devo me armar com coragem para falar com ele. —Você pode esconder a verdade —sugere. —Ele é o pai, ele merece saber. Se ele não quer ter nada a ver com isso mais tarde, é problema dele e decisão dele, não minha. — Isso significa que você vai tê-lo? Minha mão treme enquanto levanto e a deixo à médica colocar o gel na minha barriga. Pode não ter sido nos meus planos, mas já está aqui, e não tenho coragem de me livrar dele. Eu já carrego o peso de uma morte em minha consciência; eu não sobreviveria a outra. Não posso cometer outro crime, essa criança não tem culpa de nada. — Sim. — Ok. Olho para a médica, esperando o resultado, que tudo está bem, ele segura em minha mão e eu sinto que não estou sozinha. — Obrigado por esta sempre comigo, me desculpas por às vezes te ignorar e que não consigo te entender. — Vou ajudar você, só não tente tirar sua vida, esse é o único pecado que Deus não perdoa. Minha boca se abre e fecha como a de um peixe fora d'água; me surpreendeu e sem saber o que dizer ou como reagir. — Vai me ajudar com a minha gravidez? — Eu questiono. — Com tudo. Não precisa dele, tem a mim. “Que merda! Por que não escolhi ele ao invés do Leonardo?” — Bruno, você entende o que está dizendo? Nós m*l nos conhecemos, você é meu vizinho. Nem sequer somos amigos. — Você é minha amiga — ele diz. — Não fale comigo! Fechas a porta da minha cara ocasionalmente é um pouco rude. — Tenho Autismo, Helena, nem sempre sei como me comportar. Para minha surpresa, ele cora. O gigante do meu vizinho está envergonhado; suas orelhas e bochechas ficam rosadas, evitando meu olhar. — Eu não sabia isso sobre você — eu digo. — Eu sei, não é que eu não queira ser legal. É só eu não sei e é assim que eu sou. — De qualquer forma, isso não explica por que quer cuidar de mim. — Não tenho explicação, está bem? Só sei que quero fazer, é um impulso que não consigo explicar ou parar. — Me desculpa, vou passar a te entender, eu prometo. — Você não pode dizer não. Mesmo que o faça, estarei lá para você. Devia ter guardado as tuas sobremesas e bondade, Helena. Estarei lá fora enquanto descansa. Vejo você. — Ele se levanta e sai da sala, deixando mais confusa do que nunca. Balanço minha cabeça como se isso esclarecesse o que acabou de acontecer, mas eu não sou bem-sucedida. Pego no meu telefone da mesa ao lado e envio uma mensagem ao Leonardo. Eu esperava que ele visse de manhã, mas os dois pontos azuis estão marcados imediatamente. — Helena, por que está me escrevendo agora? Minhas mãos começam a suar, então eu as limpo na folha antes de responder: — Há algo importante que devo dizer, podemos nos ver? — Olha, tenho muito que fazer. É melhor dizer por aqui. Bem, aqui vou eu. — Estou grávida, é seu. Não há resposta imediata. As elipses aparecem e desaparecem várias vezes antes de finalmente responder. — O quê? — Estou no hospital, o obstetra acabou de confirmar. — Olha, tenho uma reunião crucial amanhã e não posso dar ao luxo de me distrair. Enviarei um convite para a festa da empresa a ser realizada no sábado, venha e podemos conversar. — Por que sábado e não antes? Estou surpreso e não podemos nos encontrar antes. Mas o que ela poderia esperar de um homem como ele? Não sei o que vi. — Eu não posso. Até sábado, Helena. E desconecta-se sem me dar tempo para responder. Jogo o celular de volta na mesa, viro completamente em direção à janela e deixo minha mente vagar pelos eventos do dia. Tenho muito para processar, mas estou cansada e deixei o sonho invadir-me. Amanhã será outro dia, amanhã lidarei com o que tenho que enfrentar.
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