Poção da Verdade

4583 Palavras
Vincent deu um passo para fora da janela e Eleanore deu um gritinho, achando que ele fosse despencar dois andares e ir direto para o chão. Mas não, ao invés disso, seus pés se firmaram em uma espécie de chão invisível, que o manteve suspenso no ar. – Vamos, Ellie – Vincent alcançou a outra mão de Eleanore e a incentivou a acompanha-lo. Ela estava sobre o parapeito da janela e olhou para baixo, vendo o chão a metros e metros de distância. Eleanore apertou as mãos dele com mais força, já que era seu único apoio. Ela sequer havia registrado que Vincent havia chamado ela por um apelido. – Não pode estar sugerindo que eu... a-ande... no nada! – Estou. Dê o primeiro passo. Eleanore engoliu em seco e deu um passo à frente, rezando internamente. Mas não caiu, seu pé encontrou apoio em algo sólido, mesmo que fosse invisível. Ela tirou o outro pé do parapeito e logo estava planando no ar, como se fosse feita de nuvem. Um gritinho animado escapou da boca de Eleanore, sem que ela conseguisse se conter. – Eu estou voando! – Relativamente – Vincent soltou uma das mãos dela e começou a andar normalmente. As pernas de Eleanore bambeavam e mesmo que a altura fosse assustadora, ela não conseguia parar de olhar para baixo. A brisa agitava seus cachos ruivos, o frio gentilmente acariciando seu rosto. – Você é um feiticeiro? – Eleanore perguntou, enquanto olhava maravilhada a beleza da paisagem ao redor. As folhas amarelas e alaranjadas das árvores no outono, as montanhas se estendendo no horizonte cobertas por vegetação verde pálida. Podia até ver o vilarejo ao longe, repleto de casas e cortadas por ruelas. E, claro, a propriedade de seu pai à frente. – Sim, eu sou um feiticeiro. – Como? – Eleanore olhou para o rosto dele. Ele a fitou pelo canto de seu olho. – Muitos anos de estudo e ensinamentos, além de prática, Ellie. – Ellie? – Eleanore franziu o cenho, indignada com a petulância de Vincent, reparando apenas naquele segundo o apelido. – Eleanore é um nome muito grande, eu quis encurtar. – Ele nem a olhou, ignorando o quão inapropriado era chama-la por um apelido, quando se conheciam há apenas algumas horas. – Isso é inapropriado – pontuou Eleanore gentilmente. – Quem disse? – A sociedade – ela respondeu prontamente. – E o que a sociedade já fez por você, Ellie? Por que segue as normas dela? Para ser aceita, ela estava prestes a dizer. Mas por que buscar a aceitação de pessoas que nem a conheciam, que nunca fizeram nada por ela? Além do mais, provavelmente todos já sabiam sobre seu sumiço, sabe se lá o que seu pai havia dito para justificar isso, provavelmente dissera coisas horríveis para desqualifica-la. Já deveriam estar fazendo fofoca e especulações. Por que seguia as normas da sociedade? Porque foi isso que ensinaram à ela, obedecer sem questionar, apenas fazer o que lhe eram mandado. Mas não precisava mais fazer isso O que já tinham feito por ela? Nada. Eleanore deixou o assunto de lado, aceitando silenciosamente seu novo apelido. Ellie soava bem e ela nunca teve um apelido antes. Logo, Eleanore estava andando sobre a propriedade de seu pai, o que quase matou Otto, o cavalariço, de susto. Eles desceram como se houvesse uma escada invisível, que os deixou bem em frente a porta de entrada da casa. Foi apenas então que Vincent soltou a mão de Eleanore e ela pôde sentir um ar gelado atingir sua palma. Ele deu duas batidas firmes com os nós dos dedos na porta e esperou. Eleanore sentiu o coração batendo fortemente em seu peito, soando em seus ouvidos feito o tique-taque de um relógio, em um ritmo acelerado alarmante. Ela sentia as mãos se umedecerem de suor e só de pensar em ouvir seu pai gritando, encolheu os ombros como uma reação instintiva de submissão. Sentia-se gelada, como se não usasse roupa alguma e sua pele estivesse completamente exposta ao ar gelado outonal. Eleanore tremeu. – Ellie – a voz de Vincent chegou à ela, o que a fez focar sua atenção nele – Não tenha medo, não mostre que seu pai ainda tem poder sobre você. Eu não vou permitir que ele faça m*l algum para você. Não precisa se preocupar com nada. Ela assentiu com a cabeça. Não queria que seu pai a visse tão amedrontada por sua causa, mas era difícil controlar suas próprias emoções. Acreditava que Vincent poderia mesmo protegê-la, considerando que enfeitiçara uma casa inteira. A porta se abriu e Edelina, uma das empregadas do casarão, surgiu. Ela se espantou ao ver Vincent, possivelmente por causa de sua aparência incomum, mas, apesar de Eleanore não saber como isso era possível, os olhos dela se arregalaram mais ao olhar para a menina. – Senhorita Eleanore! Graças a Deus! – Edelina juntou ambas as mãos sobre o coração e suspirou aliviada. – Estávamos tão preocupados com a senhorita. Fico tão feliz que você tenha voltado. – Pois não fique – Vincent a cortou, varrendo o sorriso do rosto de Edelina – Porque ela não vai ficar. Podemos entrar? – Quem é? – uma voz grave soou de um cômodo próximo e todos os músculos de Eleanore se contraíram em puro pânico. Albert surgiu da cozinha atrás de Edelina. Era um homem bastante alto, com cabelos e barba castanhos, feições rígidas e endurecidas como pedra. Tinha os mesmos olhos azuis cristalinos de Eleanore, a única característica que ela herdou dele. Como sempre, ele usava um terno, sempre para exibir ser um dono de terras. Quando viu a filha parada na porta, a cor sumiu de seu rosto e algo obscureceu seus olhos. – Eleanore! – o grito dele reverberou por toda a casa, chacoalhando os ossos da garota. Ele avançou na direção dela e Eleanore se encolheu inteira, como se pudesse sumir dentro de si mesma. Mas, antes que ele pudesse alcança-la, Vincent se pôs à sua frente, como uma espécie de muralha protetora. Albert estagnou no lugar, quando percebeu a presença do feiticeiro ali. – Vincent Maddox – Albert cuspiu as palavras como se o nome dele fosse amargo em sua boca. – Que bom que já me conhece, assim as apresentações são dispensáveis. Não vai me convidar para entrar, Albert, onde estão seus modos? – Veio devolver minha filha? – Albert questionou, sério, olhando para Eleanore atrás de Vincent. Ela desviou o olhar, incapaz de encarar seu próprio pai. – Ela não é uma coisa para que eu devolva, mas é óbvio que você só a vê assim. – Vincent deu um largo passo à frente, fazendo Edelina ser obrigada a recuar, dando-lhe espaço. Ficou cara a cara com Albert, mesmo que fosse mais baixo, Vincent era infinitamente mais ameaçador. – Eis o que vai acontecer agora, Albert, Eleanore vai buscar suas coisas e nós dois vamos conversar. Um vinco profundo se formou na testa de Albert quando ele franziu o cenho. – Buscar as coisas dela? Mas que história é essa? – Ela vai embora comigo – anunciou Vincent em alto e bom tom. – Eleanore – Albert trincou os dentes de raiva e projetou sua mão em direção à ela, feito uma cobra dando o bote, mas antes que pudesse sequer toca-la, Vincent segurou o pulso dele, com reflexos impressionantemente rápidos. Albert lançou um olhar irado para o feiticeiro, arrancando o pulso da mão dele. – Não pode levar minha filha daqui! Não tem esse direito. Vincent fez um gesto com a mão e, de repente, Albert foi lançado contra a parede, o corpo dele ficou colado à ela, como se uma força invisível o pressionasse. Ele tentou se debater, mas foi inútil, não conseguiu mover um músculo. Edelina tapou a boca com as mãos, contendo um grito. Ela olhou espantada para Vincent, antes de correr para longe. – Eleanore! – Naquele segundo, tia Eveline desceu as escadas, segurando firmemente as saias do vestido roxo escuro. Ela era uma mulher fina, de nariz pontudo e olhos castanhos antipáticos. – Você voltou, sua ratinha de esgoto. Eu sabia! Eu disse para o... Albert! Ela parou bruscamente quando viu o irmão grudado à parede, os pés sem tocar o chão. Os olhos dela estavam tão esbugalhados, que ameaçavam sair das órbitas. – Mas o que aconteceu?! Eleanore, sua bruxa... – a voz dela morreu, quando percebeu a presença de Vincent parado ali na entrada da casa – Um vampiro! – É senhor vampiro para a senhora. – Vincent ergueu a mão e torceu os dedos como se fossem garras, o que fez Eveline recuar. Eleanore comprimiu os lábios para não rir. – Mamãe! O que está... – Belle praticamente voou pelas escadas, mas estagnou ao pé dela, olhando para sua mãe, pálida de susto e para seu tio, ainda pregado a parede pela magia de Vincent. Belle era uma garota miúda, com longos e volumosos cabelos castanhos e os mesmos olhos detestáveis de sua mãe. – Eleanore! Q-quem... O que é você?! – Um vampiro, aparentemente. – Vincent respondeu calmamente. – Eleanore, trouxe um vampiro para c****r nosso sangue? – Belle colocou as duas mãos no pescoço, como se aquilo pudesse protege-la. Ela bambeava no lugar, como se não soubesse se iria fugir, ou se iria até sua mãe. – Credo. – O feiticeiro torceu o nariz de desgosto. – Não vou c****r o sangue de ninguém, podem parar com a histeria. Belle correu até sua mãe, que prontamente a abraçou de forma protetora. – Você tem noção do que quase fez com a gente, Eleanore? – Eveline franziu o cenho, lançando um olhar ácido para a garota. Todo o medo dela de segundos antes, havia se transformado em ódio por Eleanore. – Você sempre foi uma menininha egoísta, que só pensa em si mesma. Só precisava se casar e depois ir embora! E ainda por cima foi atrás de outro homem, um homem estranho, sua v********a suja. Vincent respirou fundo e balbuciou algo ininteligível, tanto porque foi falado em voz baixa, quanto porque estava em uma língua desconhecida. De repente, Eveline se desprendeu de sua filha e deu vários passos para trás, colocando a mão no coração. Ela abriu a boca, parecendo que ia falar algo, mas o que saiu foi um cacarejar. Penas brancas começaram a crescer por todo corpo de Eveline e ela começou a encolher, os membros se deformando, contorcendo-se, até ela cair dentro das próprias roupas, os tecidos se amontoando no chão. – Mãe! – Belle gritou, colocando as mãos na boca. Subitamente, as roupas começaram a se mexer e uma galinha surgiu de debaixo dela. Uma ave esguia de penas brancas, que começou a cacarejar sem parar, como se estivesse em pânico. A galinha focou seus olhos castanhos em Vincent e, repentinamente, partiu em disparada na direção da cozinha. Belle foi logo atrás, gritando “mamãe, mamãe, mamãe”, enquanto corria. Eleanore observou tudo aquilo boquiaberta. Ver sua tia se transformando em galinha foi espantoso, mas, ao mesmo tempo, havia um certo divertimento naquela situação toda. – Vá buscar suas coisas, Ellie – Vincent se virou para ela, olhando-a de uma forma mais gentil. Eleanore se aproximou mais dele para que seu pai não ouvisse suas próximas palavras. – Não precisava tê-la transformado em galinha. – Estranho. Você está sorrindo. E, de fato, estava. Sua tia Eveline já havia dito coisa muito pior ao seu respeito, mas Eleanore sentiu raiva por ter que ouvir desaforos de novo. Foi com um prazer amargo que ela viu Eveline se transformar naquela ave e o desespero de Belle ao correr atrás dela. – Obrigada – ela agradeceu. Vincent apenas maneou a cabeça e ofereceu um mínimo sorriso. Eleanore entrou na casa, indo em direção ao seu quarto. Mas antes olhou para seu pai, que tentou abrir a boca para falar com ela, mas foi incapaz por causa da magia de Vincent. Eleanore respirou fundo, ergueu a cabeça e passou reto por Albert, indo em direção a familiar escada de madeira, que a levaria aquele que havia sido seu quarto um dia. Vincent se voltou calmamente para Abert, libertando-o do feitiço de aprisionamento. – Vamos conversar de maneira mais civilizada, Albert, eu sei que é difícil para você. – o feiticeiro indicou o cômodo à esquerda, que levava à uma grande sala – E se tentar ir atrás de Eleanore, ou sequer pensar em encostar um dedo nela, vai se arrepender. Isso é uma promessa. Albert trincou os dentes, impotente, e arrastou os pés em direção a sala. O local possuía três sofás e duas poltronas dispostas de uma forma a ficarem de frente umas para as outras. Havia estantes com livros, intercaladas entre janelas verticais e uma mesinha de centro, onde ficava um delicado vasinho de crisântemo vermelhos. Um enorme quadro na parede de moldura dourada chamou a atenção do feiticeiro. Era uma pintura de uma mulher usando um elegante vestido azul marinho, o longo cabelo ruivo caia sobre um dos ombros em cachos espessos. Vincent só percebeu que não era Eleanore, porque aquela mulher tinha apenas sardas discretas no nariz e os olhos eram castanhos, ao invés de azuis. Não precisava nem perguntar para saber que era a mãe dela. Ele cruzou a sala e se sentou em uma das poltronas, cruzando as pernas, como se estivesse em um trono. Aquilo pareceu irritar Albert, o que divertia Vincent. – Sente-se, Albert, não quero ter que ficar olhando pra cima. – Quando o homem ameaçou manter a teimosia, Vincent acrescentou: – Não é um pedido. Contrariado e furioso, Albert se sentou na poltrona restante, a mais distante possível de Vincent. – Por que se importa com Eleanore? A v***a ofereceu o corpo à você em troca de um teto? – Albert destilou seu veneno de uma forma natural. Certamente estava muito acostumado a dizer aquele tipo de absurdo. – Vai se cansar facilmente dela. Vincent optou por ignorar a pergunta e a insinuação, caso contrário, acabaria agindo impulsivamente e possivelmente derramaria o sangue de Albert no tapete de pele que cobria o chão, que parecia bem caro. – Quero que beba isso. – Vincent ergueu a mão e virou a palma para cima, conjurando um pequeno frasco cilíndrico contendo um líquido cor de mel dentro sobre sua mão. Com uma magia telecinetica simples, ele fez a poção flutuar até Albert, envolvida pelo brilho esverdeado da magia de Vincent, pairando no ar em frente ao rosto dele. – O que é? – Albert pegou o fraco, desconfiado. – Veneno? Eu não vou beber. – Poção da verdade. Não confio em você e você me parece um bom mentiroso. Eu posso fazer você beber a força, mas preferiria não ter que apelar para violência tão cedo. Albert retirou a rolha do frasco com um puxão. Ele hesitou e olhou para Vincent, que ergueu uma das sobrancelhas, impaciente. Rapidamente Albert tomou toda a poção. Seu rosto estava contorcido em uma raiva fria, o tipo de quem sabe que está completamente impotente. Vincent sabia que ele conhecia as habilidade de um feiticeiro e não seria burro ao ponto de enfrenta-lo. Considerando o pânico que Albert provocava em Eleanore, Vincent sentia um certo prazer amargo em subjugá-lo as suas vontades. Aquele parecia o tipo de homem que gostava de estar no controle absoluto da situação, mesmo que isso significasse manter todos ao seu redor submissos e amedrontados. Isso tirava Vincent do sério. – Vendeu sua filha a Maximus Lennox? – Vincent perguntou diretamente. Era possível notar pelo seu rosto contorcido, que Albert estava tentando resistir a poção, mas era inútil. A verdade seria arrancada dele, nem que fosse de forma dolorosa. – Eu precisei. – as palavras saíram da boca dele como um fôlego que foi solto – Eu devo muito dinheiro à ele. Lennox disse que perdoaria minhas dívidas se eu lhe entregasse Eleanore. E ainda me daria uma generosa quantia para que não dissesse à ninguém sobre ela. Vincent tentou ao máximo esconder o choque em sua expressão, não queria que Albert percebesse o quanto aquilo era espantoso pra ele. – Ele pediu especificamente por Eleanore? Ele já a conhecia antes? – Sim, disse que queria se casar com ela. Que eu saiba ele nunca a tinha visto. – Abert fez uma careta de desgosto – Não entendi porque ele a quis. Eleanore não tem nada de especial. O feiticeiro havia entendido porque Eleanore fugiu daquela casa e porque tinha tanta aversão ao seu pai. Não podia culpa-la por procurar abrigo até mesmo em um castelo assombrado, já que qualquer lugar deveria ser melhor do que lidar com Albert mais um segundo sequer. No fim das contas, estava certo. Maximus era o tal noivo de Eleanore. Vincent só não conseguia entender porque ele iria querer se casar com aquela garota. Lennox não costumava fazer coisas sem sentido e, pelo que sabia sobre ele, não poderia simplesmente querer repentinamente uma esposa para ter filhos, ou relações sexuais. – Então, você não sabe o que Lennox poderia querer com Eleanore? – Não. – Albert respondeu imediatamente – Ele não explicou o motivo. Vincent esfregou a mão em sua testa, incapaz de acreditar que aquele homem era um pai. Como poderia sequer se importar com o que Maximus poderia querer com sua filha? – Ele deveria ter vindo busca-la há dois dias, mas não veio. – os lábios de Albert tremiam, como se ele quisesse manter a boca fechada, mas não conseguisse por causa da forte magia atuando em seu organismo. – Mandou uma carta dizendo que viria só no fim do mês. Disse que iria vir um dia antes do aniversário de dezoito anos de Eleanore. O feiticeiro semicerrou os olhos, achando tudo aquilo bastante suspeito e estranho. – Conhece Lennox há muito tempo? Que tipo de negócios tem com ele? – ele perguntou. – Já fazem anos. Eu... Lennox me ajuda com as plantações e o comércio. – Albert ficou vermelho, lutando contra as palavras que queriam sair de sua boca. – Ele é dono da casa de jogos que eu frequento, a qual devo uma certa quantia em dinheiro. – Estou pronta. – Eleanore surgiu na entrada da sala, carregava uma mala em uma das mãos e trazia algumas roupas em seu braço livre. – Só isso? – Vincent questionou. Eleanore deu de ombros. – Não tenho muita coisa. – Certo. Eu já acabei aqui. – Vincent se levantou e foi em direção a menina, pegando a mala da mão dela. – E minha irmã? – Albert perguntou, sério – Você a transformou em galinha. – O efeito do feitiço passa em algumas horas. – Vincent explicou – Embora eu ache, sinceramente, que ela pode ser muito mais útil como galinha. – Eleanore – a voz de Albert soou grave e reverberou por todo o cômodo – Vai mesmo ir embora com esse homem? – Sim. – ela falou, firme. – Você sabe o que vai acontecer? – Albert gritou e Eleanore se encolheu instintivamente – Se você for embora, eu vou morrer, Eleanore! Seu noivo não vai me perdoar e vai me m***r. Era muito desplante da parte de Albert colocar a culpa em Eleanore por escolhas que ele fez, por erros que ele cometeu. Aquilo fez o sangue de Vincent ferver. – Você sempre me machucou, nunca se importou comigo, me vendeu para um homem por dinheiro. – Eleanore estava tremendo, isso era visível, mas mesmo assim sua voz saiu forte, em um tom feroz, que Vincent sequer achava que pudesse sair dela. – Você nunca me amou e está me pedindo para ficar por você? Como você ousa? Albert avançou em direção a Eleanore e agarrou seu braço com força, puxando-a em sua direção. Prontamente, Vincent ergueu a mão, preparando um feitiço, sentindo as familiares fagulhas de energia mágica formigando seus dedos. Mas Eleanore segurou seu pulso, impedindo-o. – Você é minha filha! – ele vociferou, o rosto dominado pela cor vermelha, os olhos brilhando de ira – Tem que fazer o que eu mando! – Não! – Eleanore se desprendeu das garras de seu pai, afastando-se – Eu não quero mais ter essa vida. Não quero mais ser espancada, não quero mais ser tratada feito lixo, não quero mais todo esse desprezo. Eu mereço mais do que isso, eu quero mais do que isso. Albert tentou segura-la de novo, mas Eleanore deu um t**a em sua mão. – Não toca em mim. Você nunca mais vai tocar em mim! – ela gritou. Eleanore deu as costas para ele, segurando suas roupas com mais força contra seu corpo. Ela olhou para seu pai por cima do ombro, o rosto corado por fúria, os olhos azuis brilhando feito chamas. Estava destemida, como se fosse uma força da natureza e Albert também notou isso, porque recuou. Logo em seguida, ela saiu. Vincent encarou Albert, que parecia espantado com a atitude de sua filha e com o último olhar que Eleanore o lançou. – É melhor não procurar por Eleanore e, se for uma pessoa esperta, vai fugir daqui para não ter que enfrentar a fúria de Lennox. – O feiticeiro andou em direção a saída, mas parou na entrada da sala, olhando novamente para aquele homem deprimente, mas não sentiu pena alguma. Vincent se virou para sair daquele lugar, mas Albert falou: – Eu jamais poderia ama-la! Eu só amei uma pessoa na minha vida, Verena – O homem olhou para o quadro pregado à parede e Vincent seguiu seu olhar, olhando para o rosto sereno daquela mulher. Percebeu que Albert só falava por ainda estar sobre o efeito da poção, que inspirava sinceridade espontânea dele. – E ela morreu e Eleanore é só um lembrete constante disso. Eu não consigo sequer olhar direito para a cara dela. O feiticeiro fechou suas mãos em punhos, tremendo de leve. Já fazia muito tempo que não sentia tanta raiva assim de uma pessoa, quase ao ponto de consumir seu corpo feito um veneno. Ouvir aquilo lhe dava uma repugnância bastante pessoal, quase como se a dor fosse dele. Vincent se voltou novamente para Albert, avançando na direção dele, agarrando seu paletó com ambas as mãos, com força brusca, fazendo com que o homem arregalasse seus olhos de medo. – É exatamente por Eleanore se parecer com ela que você deveria amá-la mais! – Vincent o empurrou, soltando-o. Em um ato impulsivo, ele acertou um soco no rosto de Albert, que cambaleou cegamente para trás tropeçando na mesinha de centro, caindo no chão. – Se não fosse pelo trauma emocional que isso poderia causar em Eleanore, eu o mataria para poupar o trabalho de Lennox, mas vou deixar para ele, não quero sujar minhas mãos com o seu sangue podre. Eleanore correu pelo mesmo caminho que fizera três dias antes, só que montada em Dilon. Não conseguia enxergar direito pelas lágrimas que se acumulavam em seus olhos. Não olhou para trás, não queria nunca mais ter que olhar para trás. Sentiu algo tocar seu braço, quando já estava rodeada pelas árvores da floresta, soltou um grito e acabou derrubando as roupas que segurava no chão. Ela deu um giro e atingiu o braço contra algo duro, que ela logo reconheceu como sendo o tronco de Vincent. – Me desculpa, eu... – Eleanore colocou as mãos no próprio rosto, sentindo os lábios trêmulos, assim como o restante de seu corpo. – Você está bem, Ellie? – As mãos dele pairaram ao redor dela, como se fosse toca-la, mas ele não o fez, como se temesse pela reação dela. Então, Eleanore desabou. Deixou que seu corpo tombasse, caindo sobre seus joelhos na terra, abraçando o próprio corpo, como se fosse desmoronar parte por parte se não o fizesse. As lágrimas rolaram abundantemente por seu rosto e ela emitia ruídos que sequer sabia ser possível. Ela soluçava audivelmente, incapaz de conter todas aquelas emoções que ameaçavam destruí-la, consumindo-a até não restar mais nada, feito um monstro faminto. Vincent se ajoelhou à frente dela e segurou o rosto de Eleanore com as mãos. Ele a puxou contra si, envolvendo-a em um forte abraço. Vincent a apoiou com um dos braços e deixou a mão livre na cabeça dela, afagado carinhosamente seu cabelo. O calor dele a envolveu de uma forma aconchegante, transmitindo conforto e segurança à Eleanore, algo que ela não estava acostumada. O choro de Eleanore cessou repentinamente, pelo choque. Ninguém nunca havia abraçado ela daquela forma, muito menos feito carinho para consola-la. Eleanore sabia que provavelmente não deveria permitir que um homem a tocasse tão intimamente, mas estava tão bom. Ela retribuiu o abraço, envolvendo o corpo dele com seus braços, apoiando a cabeça em seu ombro. Foi a primeira vez que se sentiu tão bem com o contato de outra pessoa. Repentinamente, ela se sentiu muito cansada, sentia as pálpebras pesarem e seus olhos se fechando. Eleanore apoiou o peso de seu corpo contra Vincent, enquanto adormecia. Vincent puxou as cobertas sobre o corpo dormente de Ellie. O rosto dela ainda estava corado pelo choro e seus olhos inchados. Ellie estava tão abalada, que Vincent achou melhor coloca-la para dormir. Provavelmente não era correto induzir uma pessoa ao sono através de um feitiço, mas sua mãe sempre lhe disse que um chá quente e uma boa noite de sono podiam curar quase tudo. Claro que isso não era verdade, mas ele pensou que fosse ajudar no caso de Ellie. – Descobriu alguma coisa, Mestre? – Amber perguntou, pousada na mesinha de cabeceira, em sua forma de pássaro. – Maximus está mesmo envolvido. Ele quer Eleanore, mas não sei o porquê ainda. Ele tocou sutilmente os cabelos ruivos volumosos da menina, colocando uma mecha entre seus dedos, sentindo as ondulações do cacho. Vincent sabia que estava fazendo aquilo de novo. Estava acolhendo uma pessoa perdida, sem perspectiva, e por quê? Não por sua bondade genuína ou por um altruísmo verdadeiro, mas por culpa. Culpa de todo sangue que já derramou e que sujavam suas mãos. – Acho que Maximus tinha razão, Amber, estou mesmo tentando me redimir, lavar minha alma resgatando passarinhos feridos. – Vincent suspirou pesarosamente, soltando o cacho de Ellie – Eu jurei à mim mesmo que June seria a última. – Dessa vez é diferente, Mestre. Você não resgatou Eleanore, ela veio por conta própria. Eu não acho que a vinda dela tenha sido coincidência, sobretudo porque ela de fato tem uma ligação com Lennox. Eleanore é uma garota especial. Vincent olhou para o rosto adormecido de Ellie. Sua pele rosada era pontilhada por uma centena de sardas de variados tons de marrons, espalhando-se por suas bochechas e nariz, os cílios dourados beijavam suas maçãs do rosto, as pálpebras se mexiam de leve, pelos sonhos ou pesadelos que estava tendo. O feiticeiro passou delicadamente os dedos sobre a testa dela, apagando magicamente os pensamentos turbulentos de sua mente, ao menos por enquanto. Não tinha dúvidas de que Eleanore era uma garota especial, só ainda não sabia o quanto. – O que vai fazer agora que sabe que Lennox está envolvido? – Amber moveu a cabeça, enfatizando o fato de que o encarava. – Eu vou proteger Eleanore e de jeito nenhum deixarei que ele a encontre. Maximus sempre foi uma pessoa de moral duvidosa e caráter questionável. Vincent sabia que, o que quer que Maximus pudesse querer com aquela garota, não era nada bom. Afinal, Vince o conhecia muito bem, já que um dia os dois foram irmãos.
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