A tempestade

983 Palavras
O vento começou primeiro. Frio. Cortante. Fazendo a lona velha da pequena cabana improvisada bater com força contra os pedaços de madeira. Ailme levantou os olhos para o céu escuro e sentiu o coração apertar. Tempestade. E não parecia uma tempestade fraca. O pequeno Romã estava sentado no colo dela, enrolado em uma manta fina que já não aquecia quase nada. Quando o primeiro trovão ecoou no céu, o corpinho dele se encolheu imediatamente. — Mamãe… — murmurou com a voz tremendo. Outro trovão cortou o céu. Romã se agarrou ao pescoço dela com força. — Tô com medo… Ailme o puxou para mais perto, beijando os cabelos do menino. — Tá tudo bem, meu amor… a mamãe está aqui. Mas, por dentro, ela também estava com medo. Muito medo. Porque aquela cabana improvisada m*l aguentava o vento… e agora a chuva começava a cair. Primeiro fraca. Depois mais forte. Em poucos minutos, a tempestade desabou de verdade. A água começou a atravessar a lona rasgada. O chão virou lama. E a pequena bolsa que carregava tudo o que eles tinham — algumas roupas e um cobertor — acabou ficando completamente encharcada. Ailme suspirou, pegando a bolsa rapidamente. Não podia perder aquilo. Era tudo o que restava da vida deles. Ela se levantou e caminhou até uma pequena parte mais protegida perto de uma encosta de terra, onde o vento batia um pouco menos. Ali, ela colocou a bolsa entre duas pedras, pressionando bem para que a tempestade não levasse. Depois voltou correndo para a cabana. Romã tremia no colo dela. O menino escondia o rosto no pescoço da mãe. — Mamãe… muito barulho… O som da chuva era ensurdecedor. Os trovões iluminavam o céu com relâmpagos violentos. Ailme apertou o filho contra o peito. — Olha pra mamãe — disse baixinho. Romã levantou os olhinhos assustados. Ela acariciou o rosto dele com delicadeza. — Lembra do que a mamãe sempre fala? Ele fungou. — Que vai ficar tudo bem… Ela sorriu, mesmo com os olhos cheios de lágrimas. — Isso mesmo. Outro trovão estourou no céu. O menino se encolheu novamente, tremendo. Ailme o embalava devagar, tentando aquecer aquele corpinho pequeno com o próprio corpo. A chuva não dava trégua. O vento parecia querer arrancar a lona a qualquer momento. Ela sabia que aquela noite seria longa. Muito longa. O que Ailme não sabia… Era que, não muito longe dali, um carro preto luxuoso cortava a estrada sob a tempestade. Dentro dele, estava um homem que o país inteiro conhecia apenas por um nome. Brandão. O magnata temido. O homem que não parava por ninguém. Mas naquela noite… Algo estava prestes a fazer aquele carro parar. E mudar para sempre o destino de três vidas. Porque, em poucos minutos, os faróis daquele carro iluminariam a pequena cabana onde Ailme tentava proteger seu filho da tempestade. E quando Brandão visse o rosto dela… Algo dentro dele iria parar. Algo que ele acreditava ter morrido anos atrás. Porque aquela mulher… Parecia demais com alguém que ele havia perdido. E cujo rosto ele jamais conseguiu esquecer. A tempestade piorava a cada minuto. O vento uivava entre as árvores e sacudia a lona velha da cabana improvisada como se fosse arrancá-la a qualquer momento. A chuva caía pesada, atravessando as frestas da lona rasgada e encharcando tudo ao redor. Ailme estava sentada no chão de terra úmido, com o pequeno Romã apertado contra o peito. O menino tremia. Seu corpinho pequeno estava gelado. — Mamãe… — ele choramingou baixinho, a voz fraca. — tá frio… O coração de Ailme se partiu. Ela o puxou ainda mais para perto, tentando cobrir o menino com o próprio corpo. — Eu sei, meu amor… eu sei… Mas ela também estava molhada. A roupa grudava no corpo. O vento atravessava a lona e atingia os dois. Romã começou a chorar mais forte, os dentinhos batendo de frio. — Mamãe… muito frio… Ailme segurou o rosto do filho com delicadeza. — Olha pra mim, meu amor… Os olhinhos azuis do menino estavam cheios de lágrimas. Ela beijou a testa dele repetidas vezes. — A mamãe está aqui… eu não vou deixar nada acontecer com você… Romã tentou ser forte. Ele sempre tentava. Mas era só uma criança de três anos. O frio era demais. Ele se agarrou ao pescoço dela, escondendo o rosto. — Quero dormir… mamãe… Ailme sentiu o coração apertar com medo. Ela sabia que aquilo não era bom. Ele estava gelado demais. Então começou a esfregar os bracinhos dele devagar, tentando aquecê-lo. — Não dorme agora, meu amor… conversa com a mamãe… Mas Romã apenas tremia e chorava baixinho. Outro trovão estourou no céu. O menino se assustou e abraçou ela ainda mais forte. — Mamãe… medo… Ailme apertou o filho contra o peito, balançando o corpo devagar como fazia quando ele era bebê. — Shhh… tá tudo bem… tá tudo bem… Mas a voz dela tremia. Porque a verdade era que ela não sabia como proteger o filho daquela tempestade. O vento parecia cada vez mais forte. A lona batia com violência. A chuva continuava entrando. E o pequeno Romã chorava de frio nos braços dela. Foi nesse momento… Que um brilho apareceu na estrada escura. Luzes. Faróis fortes cortando a tempestade. Um carro preto e luxuoso avançava lentamente pela estrada molhada. Dentro dele estava um homem que raramente prestava atenção em qualquer coisa fora do próprio mundo. Brandão. Mas algo chamou sua atenção naquela noite. Talvez fosse a lona tremendo com o vento. Talvez fosse o movimento de alguém lá dentro. Ou talvez… Talvez fosse apenas o destino. O carro começou a diminuir a velocidade. E os faróis iluminaram diretamente a pequena cabana. Ali dentro… Uma mulher abraçava uma criança com todas as forças. Tentando protegê-la da tempestade. Sem saber que, naquele exato momento… Os olhos do homem mais poderoso do país estavam pousando sobre ela.
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