A chuva continuava caindo forte sobre a estrada escura.
Dentro do carro preto, o silêncio era pesado.
Os faróis iluminavam diretamente a pequena cabana improvisada na beira da estrada.
Brandão estreitou os olhos.
Por um instante… ele achou que estava vendo errado.
A silhueta de uma mulher abraçando uma criança aparecia entre a lona que balançava com o vento.
Então um relâmpago iluminou o céu.
E o rosto dela ficou visível por um segundo.
O coração dele falhou uma batida.
Ele murmurou baixo, quase sem perceber:
— Não pode ser…
Seu olhar ficou preso naquela mulher.
— É igual…
O motorista virou levemente a cabeça, observando também.
— Senhor… — disse ele, surpreso. — olha aquela mulher… ela está tentando proteger a criança nessa tempestade.
Brandão continuava olhando.
Imóvel.
A mente dele parecia voltar anos no passado.
O mesmo rosto.
Os mesmos cabelos claros.
A mesma expressão delicada.
Ele apertou a mandíbula.
— Chegue mais perto.
O motorista imediatamente reduziu a velocidade e aproximou o carro da cabana.
A chuva batia forte no vidro.
Agora era possível ver claramente.
A mulher estava completamente encharcada.
E a criança tremia nos braços dela.
Brandão abriu a porta.
— Senhor, a chuva está muito forte — disse o motorista.
Mas ele já estava saindo.
A água atingiu seu rosto imediatamente.
Sem se importar, ele caminhou em direção à cabana.
Cada passo afundava um pouco na lama.
Quando chegou perto, viu a cena com clareza.
A mulher abraçava o menino com todas as forças, tentando protegê-lo do vento.
Os dois estavam tremendo.
Brandão parou diante deles.
Por um segundo, ficou apenas olhando.
O coração batendo mais forte do que ele gostaria de admitir.
Então estendeu a mão.
— Moça… venha comigo.
Ailme levantou o rosto lentamente.
Os olhos azuis encontraram os dele.
E por um instante o tempo pareceu parar.
Ela olhou para o homem alto diante dela.
Elegante.
Mesmo sob a chuva.
Mas seus pensamentos estavam no filho.
Romã chorava baixinho contra o peito dela.
— Mamãe… medo…
O coração dela apertou.
Ela olhou novamente para o homem.
Depois para o carro.
Depois para o filho.
E então segurou a mão estendida.
Brandão sentiu os dedos dela gelados quando ela aceitou sua ajuda.
Ele a guiou até o carro rapidamente.
O motorista já havia aberto a porta.
Os três entraram.
Assim que a porta fechou, o som da chuva ficou distante.
Mas o pequeno Romã ainda chorava.
— Mamãe… medo…
Ailme o apertou contra o peito e beijou a cabeça dele.
— Shhh… tá tudo bem, meu amor… calma…
O menino tremia muito.
Brandão observou a cena em silêncio.
Então tirou o próprio terno.
Sem dizer nada, colocou o tecido caro sobre o corpo do menino.
Tentando aquecê-lo.
Ailme levantou os olhos para ele, surpresa.
— Obrigada… senhor…
A voz dela era suave.
Doce.
Brandão ficou imóvel por um segundo.
Porque algo dentro dele se apertou.
Ele pensou, em silêncio:
Até a voz…
É igual.
Muito igual.
E naquele momento…
Pela primeira vez em anos…
O homem conhecido como Brandão sentiu o passado bater forte contra o peito.