Laura nunca gostou que duvidassem dela.
Não gostava quando a mãe perguntava três vezes se ela realmente ia estudar na casa da Tereza. Não gostava quando professores diziam que ela era “inteligente, mas dispersa”. E definitivamente não gostava do jeito que Henrique a olhava às vezes — como se enxergasse algo nela que ela própria ainda não tinha coragem de admitir.
Foi numa quinta-feira abafada que Tereza apareceu na casa dela, pontual como sempre, usando uma calça branca impecável e um sorriso ensaiado.
— Boa tarde, dona Sônia — disse com aquela educação de menina criada em colégio bilíngue. — A gente vai viajar no feriado. Minha mãe pediu pra convidar a Laura pra ir com a gente pra casa de campo.
Laura quase engasgou com o próprio ar.
Viagem?
Ela não sabia de viagem nenhuma.
A mãe olhou para Laura com desconfiança.
— Casa de campo? Onde?
— Perto de Itu — respondeu Tereza sem hesitar. — Vai estar todo mundo lá. Meus pais, meus irmãos… É mais tranquilo do que a cidade.
Tranquilo.
Laura segurou o riso.
Henrique e tranquilo não cabiam na mesma frase.
— Eu prometo que ela fica no meu quarto — completou Tereza. — A gente só quer descansar um pouco.
A palavra descansar soou como uma mentira tão elegante que quase parecia verdade.
Dona Sônia respirou fundo. Ela gostava de Tereza. Gostava do jeito educado, da forma como falava olhando nos olhos. E, no fundo, talvez acreditasse que uma família estruturada pudesse influenciar positivamente a filha.
— Tudo bem — disse, por fim. — Mas eu quero falar com sua mãe antes.
— Claro.
Laura sentiu o coração acelerar.
Era isso.
A permissão vinha fácil demais ultimamente. Fácil como as mentiras que ela já sabia contar sem gaguejar.
O carro preto parou na frente da casa na manhã de sexta-feira.
Não era a casa de campo.
Era Henrique ao volante.
Sem motorista.
Sem pais.
Sem desculpas.
Ele abaixou o vidro e lançou aquele sorriso torto que parecia sempre um desafio.
— Pronta?
Laura entrou no carro tentando não parecer ansiosa.
— Cadê sua mãe?
— Viajou ontem — respondeu ele, dando partida. — A gente vai mais tarde.
— A gente?
— Você, eu, a estrada… depende do seu nível de coragem.
Ela revirou os olhos.
— Para de falar como se fosse protagonista de filme r**m.
Ele riu baixo.
— Você gosta.
Laura odiava quando ele acertava.
O som da música alta preenchia o silêncio que se formava entre provocações. Henrique dirigia com uma mão no volante, a outra relaxada perto da marcha, postura de quem sempre teve controle da própria vida.
— Já andou em racha? — perguntou de repente.
Ela virou o rosto.
— Racha de carro?
Ele sorriu de lado.
— Moto.
O coração dela deu um pequeno salto.
— Não.
— Então você vai hoje.
— Eu não disse que ia.
Ele reduziu a velocidade, olhando para ela por um segundo mais longo do que o necessário.
— Você sempre diz que não tem medo de nada.
Era isso.
O jeito que ele fazia parecer que cada decisão dela era uma prova.
— Eu não tenho — respondeu.
— Ótimo.
Ele acelerou.
O lugar era afastado.
Uma estrada quase esquecida, iluminada apenas por faróis e pela lua crescente. O cheiro de gasolina misturado com terra quente fazia o ar parecer mais pesado.
Laura saiu do carro tentando esconder o frio na barriga.
Motos alinhadas. Garotos rindo alto. Meninas encostadas nos carros, copos vermelhos nas mãos.
Aquilo não era uma casa de campo.
Aquilo era caos organizado.
Henrique abriu o porta-malas e pegou um capacete.
— Pra você.
— Eu não vou subir em moto nenhuma.
Ele se aproximou, diminuindo a distância até quase tocar.
— Vai sim.
O olhar dele não era suave. Era intenso. Provocativo.
— Você não aguenta, Laura?
Ela sentiu o orgulho inflamar.
— Aguento qualquer coisa.
— Então prova.
Ele estendeu o capacete. Ela pegou.
Não porque queria.
Mas porque ele esperava que ela dissesse não.
Henrique sempre fazia isso.
Ele não mandava.
Ele insinuava.
E Laura sempre escolhia o caminho mais perigoso só para não parecer pequena.
Enquanto ele ajustava a própria jaqueta de couro, ela observava o jeito firme com que ele se movia. Seguro. Dono do espaço.
— Você confia em mim? — perguntou ele, já sentado na moto.
A pergunta ficou suspensa entre o barulho dos motores sendo ligados.
Confiar.
Laura não sabia se confiava nele.
Mas confiava em si mesma. Confiava que conseguiria sair ilesa de qualquer coisa.
Subiu na moto.
Quando segurou na cintura dele, percebeu o calor do corpo através do tecido. Henrique inclinou a cabeça ligeiramente.
— Segura direito. Eu não vou devagar.
Ela apertou mais.
O motor rugiu.
Outras motos se alinharam.
Alguém contou.
Três.
Dois.
Um.
O som explodiu na noite.
A arrancada foi brusca, fazendo o estômago dela afundar. O vento bateu forte contra o capacete. A estrada se transformou numa linha borrada de luzes e sombras.
Ela riu.
Não de medo.
Mas de adrenalina.
Era como cair sem cair.
Como estar no limite sem ultrapassar.
Henrique acelerava mais a cada curva, como se quisesse testar até onde ela aguentava. E ela não soltava.
Não fechava os olhos.
Não gritava para parar.
Ela queria sentir.
Queria viver algo que ninguém pudesse controlar.
Por alguns segundos — ou minutos, ela não sabia — não existia mãe, escola, mentiras ou consequências.
Só velocidade.
Só o corpo colado ao dele.
Só o perigo como música de fundo.
Quando a corrida terminou, os motores foram desligados um a um. Risadas. Palmas. Gritos.
Henrique tirou o capacete e olhou para ela.
Os olhos brilhavam.
— E aí?
Laura retirou o dela com calma, o cabelo bagunçado caindo sobre o rosto.
— Já andei mais rápido.
Mentira.
Ele riu alto.
— Você é impossível.
— Você que é previsível.
Ele se aproximou, diminuindo novamente o espaço entre eles.
— Previsível?
— Sempre tentando provar alguma coisa.
Ele inclinou a cabeça, analisando.
— E você sempre tentando vencer.
Ela sustentou o olhar.
Não havia beijo.
Não havia declaração.
Havia tensão.
Aquela tensão que não precisa de toque para existir.
— Cuidado, Laura — ele disse, voz mais baixa agora. — Uma hora você vai perceber que não está competindo comigo.
— Então com quem?
Henrique sorriu, quase gentil.
— Com você mesma.
As palavras ficaram.
Ela desviou o olhar primeiro.
Não porque tinha perdido.
Mas porque algo nela tinha sido atingido.
Ao redor, as motos continuavam ligando e desligando. Garotos apostando novas corridas. A noite avançando sem pressa.
Laura olhou para a pista improvisada, agora marcada por pneus e poeira.
Ali estava tudo o que ela dizia querer: risco, liberdade, ausência de limites.
E, ainda assim, havia algo diferente.
Henrique não a tratava como os outros. Não a via como troféu. Não a segurava pelo braço para exibir.
Ele a desafiava.
Como se enxergasse uma versão dela que nem ela conhecia ainda.
E isso a irritava.
Porque ele parecia saber que ela podia mais.
E Laura ainda não sabia se queria esse “mais”.
Henrique colocou novamente o capacete.
— Vamos?
— Pra onde?
Ele montou na moto e estendeu a mão.
— Mais uma.
Ela olhou para a estrada.
Olhou para ele.
E sentiu aquela velha sensação crescer: a necessidade de provar.
Segurou a mão dele e subiu na moto outra vez.
Os motores começaram a roncar novamente.
Dessa vez, ela não sentiu apenas adrenalina.
Sentiu algo diferente.
Algo que não cabia em rótulos.
Não era amor.
Não era paixão.
Era intensidade.
E intensidade sempre parece certa quando se é jovem demais para calcular consequências.
A moto avançou até a linha de largada.
As luzes dos faróis iluminaram o asfalto irregular.
Laura respirou fundo.
Ao longe, outras motos já estavam posicionadas.
Ela apertou a cintura dele.
Henrique virou levemente o rosto, como se quisesse ter certeza de que ela ainda estava ali.
Ela estava.
Sem medo.
Sem freio.
Sem pensar no amanhã.
A contagem começou outra vez.
Três.
Dois.
Um.
E quando as motos dispararam pela estrada escura, Laura sentiu que estava entrando em um território onde não existiam promessas — apenas velocidade.
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