O tipo de amor que não pede pra ficar

1343 Palavras
Henrique não parecia o tipo de garoto que esperava por alguém. Ele era o tipo que era esperado. Laura percebeu isso na segunda vez que o encontrou. Não foi na festa. Foi dias depois, numa tarde comum demais para o que estava prestes a começar. Ela saía da escola, mochila pendurada em um ombro, quando um carro preto estacionou devagar em frente ao portão. Não era o mesmo da festa, mas era do mesmo padrão silencioso e caro. Os olhares se voltaram. A janela traseira abaixou. Tereza. — Entra — disse, simples, como se aquilo fosse rotina. Laura hesitou apenas o tempo suficiente para parecer indiferente. Depois entrou. O interior cheirava a couro novo. O motorista mantinha os olhos fixos à frente. — Você enlouqueceu? — Raiana cochichou da calçada, rindo nervosa. Laura apenas deu um meio sorriso antes da porta fechar. O carro deslizou pela rua como se o mundo abrisse caminho. — Meu irmão quer te ver — Tereza comentou, olhando o celular. Laura cruzou as pernas, fingindo desinteresse. — Ele sabe onde me encontrar. Tereza riu. — Você não faz ideia. Henrique estava encostado no balcão da cozinha quando elas chegaram. Casa ampla, clara demais, organizada demais. Ele usava uma camiseta branca simples, mas havia algo nele que transformava simplicidade em escolha calculada. Ele levantou o olhar quando eu entrei. E não desviou. Não havia pressa. Não havia aquele sorriso automático que ele usava nas festas. Havia observação. — Achei que você tinha evaporado depois da piscina — ele disse. — Eu sempre vou embora antes de virar assunto demais. Ele sorriu devagar. — Você já é assunto demais. Tereza revirou os olhos. — Vou deixar vocês dois. Não que isso seja novidade. Eu não comentou. Apenas mantive o olhar firme em Henrique. Havia algo diferente nele longe da música alta. Ele parecia mais… humano. — Quer sair daqui? — ele perguntou. — Sempre. E começamos assim. Sem promessas. Sem rótulos. Sem expectativas declaradas. Primeiro foi um passeio de carro sem destino. Depois um café numa padaria escondida do centro. Depois mensagens na madrugada. Henrique não falava de sentimentos. Eu não perguntava. Havia um acordo silencioso: aquilo era leve. E era. Nós riamos com facilidade. Conversávamos sobre tudo e nada. Ele falava dos planos de estudar fora. Eu falava da escola com ironia, escondendo as partes mais sombrias. Na terceira vez que ficaram sozinhos, foi ele quem puxou o meu rosto. O beijo não foi urgente como nas festas. Foi curioso. Explorador. Sem desespero. E talvez por isso tenha sido mais perigoso. Na escola, Laura mantinha a postura impecável. Notas altas. Trabalhos entregues. Professores ainda confusos com a dualidade entre comportamento desafiador e desempenho exemplar. Mas agora havia algo novo: ela sorria sozinha às vezes. Tereza aparecia duas ou três vezes por semana no portão. Sempre com o carro e o motorista. Sempre com naturalidade suficiente para parecer que aquilo era normal. Os comentários começaram. — Quem é aquela? — Você viu o carro? — Laura tá diferente… Ela estava. Tereza começou a entrar na escola ocasionalmente para buscá-la na secretaria. Andava pelos corredores com confiança silenciosa. Não precisava de uniforme para impor presença. — Sua escola é pequena — comentou certa vez, observando os murais coloridos. — Seu mundo é grande demais — Laura respondeu. Tereza a olhou de lado. — Você gosta disso. Laura não negou. Henrique passou a buscá-la algumas vezes também. Sem o motorista. Ele gostava de dirigir quando era para encontrá-la. — Você não parece impressionada com nada — ele disse numa dessas tardes, estacionando perto da praça. — Porque eu não sou. — Nem comigo? Ela virou o rosto devagar. — Principalmente com você. Ele riu, mas algo no riso foi mais contido. Era um jogo. E Laura era boa nele. Eles começaram a se envolver com mais frequência. Não havia declarações. Não havia “o que somos?”. Apenas encontros que terminavam com pele quente e despedidas leves. — Sem drama — ela dizia. — Sem drama — ele repetia. Mas Henrique começou a quebrar as próprias regras sem perceber. Ele lembrava detalhes que ela comentava casualmente. Levava o chocolate que ela gostava. Mandava mensagem antes das provas importantes. Laura aceitava tudo como parte do jogo. Ela não analisava o que sentia. Talvez porque sentir significasse perder controle. O dia em que Tereza decidiu entrar na casa de Laura foi estratégico. — Quero conhecer sua mãe — anunciou, numa tarde qualquer. — Pra quê? — Porque todo mundo tem origem. Laura ficou tensa por um segundo. Mas não recusou. O carro parou em frente à casa simples, portão baixo, jardim pequeno. Tereza desceu primeiro, elegante como sempre, mesmo de calça jeans. A mãe de Laura abriu a porta com surpresa educada. — Boa tarde… — Eu sou Tereza. Estudo com a Laura — mentiu com suavidade. — Vim trazê-la em casa. O sorriso da mãe foi imediato. — Que menina educada. Entra, por favor. Laura observava tudo com o coração acelerado. Era como misturar dois universos que não deveriam se tocar. Tereza caminhou pela sala pequena como quem visita um lugar importante. Não havia julgamento no olhar. — Sua filha é muito inteligente — disse para a mãe, sentando-se no sofá. Laura quase riu. A mãe sorriu orgulhosa. — Ela sempre foi dedicada. Laura sentiu algo estranho ali. Uma pontada rápida. Como se estivesse traindo mais do que regras. Henrique mandou mensagem nesse exato momento. “Te vejo hoje?” Ela respondeu sem pensar. “Sempre.” A amizade colorida ganhou intensidade. Não porque eles decidiram. Mas porque proximidade constrói laços mesmo quando ninguém admite. Henrique começou a ficar irritado quando outros meninos olhavam para ela nas festas. — Ciúmes não estava no contrato — Laura provocou. — Não estou com ciúmes. — Então para de me olhar assim. Ele desviava. Mas voltava. Numa noite mais silenciosa, deitados no banco traseiro do carro estacionado, ele ficou encarando o teto por mais tempo do que o normal. — Você vai embora fácil demais — ele disse. — É o segredo. — E se eu não quiser que você vá? Laura virou o rosto para ele. — Você sempre pode ir junto. Era uma resposta inteligente. Mas vazia. Henrique ficou em silêncio. Ele estava começando a sentir algo que não combinava com leveza. Laura não percebia. Ou fingia não perceber. Na escola, os professores começaram a notar que ela parecia mais distante emocionalmente, mas ainda impecável academicamente. Durante uma aula de redação, o tema foi “O que é amor para você?” Laura escreveu três páginas. Falou sobre intensidade. Sobre liberdade. Sobre não pertencer a ninguém. Entregou o texto com calma. A professora leu depois, intrigada. Laura saiu da sala sem olhar para trás. Tereza observava tudo com atenção calculada. Ela sabia como o irmão funcionava. Sabia que ele nunca repetia encontros. Sabia que ele não enviava mensagens primeiro. Sabia que ele não esperava ninguém. — Você vai machucar ela — Tereza disse certa vez, enquanto esperavam Laura sair da escola. — Eu nunca prometi nada. — Não precisa prometer pra criar expectativa. Henrique encarou o próprio reflexo no vidro do carro. — Ela sabe onde está se metendo. Tereza suspirou baixo. — Ninguém sabe. Esse é o problema. Henrique começou a aparecer sem avisar. Mandava localização. Esperava. Ele queria mais tempo. Mais presença. Mais dela. Laura continuava leve. Brincava. Provocava. Beijava. Ia embora. Ela gostava da intensidade. Gostava da química. Gostava de como ele a fazia se sentir desejada sem sufocar. Mas não se perguntava com o que ele significava. Henrique, por outro lado, começou a imaginar como seria se ela ficasse. E ali estava o início do erro. O amor da vida não pede licença. Ele acontece no meio da liberdade fingida. E quando Henrique percebeu que pensava nela nos dias em que não se viam, já era tarde. Laura ainda não tinha percebido nada. Para ela, era só mais um jogo bem jogado. Mas alguns jogos deixam marcas invisíveis. E nem sempre quem se apaixona primeiro é quem sofre menos.
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