Capítulo 21

1888 Palavras
Vários pensamentos passam pela minha cabeça, enquanto observo o movimento de carros pela sacada. Etienne alugou um quarto de hotel, para que pudéssemos descansar e viajar pela manhã. Comprou as passagens de avião, para voltar para Enseada. Ele dorme, tranquilamente na cama, enquanto eu penso o quanto fui tola de deixar Paulo entrar assim na minha vida. Ele era insistente, supria minhas carências, me dava amor. Dizia o quanto me amava. Mas, era tudo para me manipular. Contudo, me sentia culpada. Será que não era minha culpa tudo aquilo que me acontecia? Será que deveria ter sido forte e rejeitado ele? Se eu não tivesse retribuído, apenas rompido às relações, mesmo que fosse incertas, ele estaria daquele jeito, me ameaçando? Eu não sabia responder minhas duvidas. E queria dividir isso com Etienne, mas seria errado. Ele não merecia ouvir que me relacionei com Paulo, durante aqueles meses que passamos separados. E provavelmente, eu estava buscando minha absolvição por meus erros. - Ainda acordada? – perguntou Etienne, da cama. Sua voz era pastosa. - Desculpa – eu digo – Não consigo dormir. - Vem aqui – ele pede, dando tapinhas na cama – Eu vou fazer você dormir. Eu me aproximo e sento na cama. Ele me puxa e me abraça, beijando minha testa. Sinto seu carinho, sinto seu amor. Eu não me importo com nada, a não sei com ouvir a batida do seu coração. Ele acaricia meus cabelos, murmurando palavras de conforto. Eu não escuto, apenas deixo que ele me abrace. Eu sentia tanta falta dele. Todas as noites que precisava dormir, pensava nele, todos os momentos que passei sem ele, pensava o quanto seria divertido tê-lo ao meu lado. Mas, por ser orgulhosa, reprimia todos os pensamentos que me levavam até ele. Parecia que eu tinha superado, mas não tinha. E não percebi que dormia. Quando abri os olhos, já era de manhã. Etienne continuava comigo, mas dessa vez, ele estava de barriga para baixo e eu, olhava para o teto. Havia uma rachadura, na pintura. E pensei se aquela rachadura não seria a minha vida. Ela estava se partindo, se fragmentando. Estava mudando. Pensei nos meus pais, o quanto eles eram felizes juntos, o quanto eles me ajudaram. E nem dividi com eles meus segredos. Não contei que estava com Paulo, apenas havia dito que Etienne e eu havíamos brigado. Se eu tivesse contado para minha mãe, sobre minhas incertezas, minhas inseguranças? Se eu tivesse confiado nela, será que eu estaria passando por isso? Por que minha vida estava se rachando? Por quê? Isso era culpa minha? Paulo havia dito que eu havia dado esperanças para ele, na sua última mensagem que verifiquei. Deixei o celular em cima da cabeceira e pensei, será que eu era culpada, como ele estava afirmando? Você me deu esperanças, Laura. Eu pensei que pudéssemos nos acertar. Ainda não desisti de me casar com você. Mas, eu não tenho mais paciência, Laura. Você está me magoando. Todos os dias eu fui usado por você, permiti que você pensasse, mas você nunca se decidia. E pensei que ontem poderíamos nos acertar. Mas, há sempre Etienne entre nós. Quando ele magoa-la, não me procure. Se ele não estiver do seu lado, não me procure. Pense no está fazendo, jogando uma relação estável para ficar com uma pessoa que virou as costas para você. Eu fiquei do seu lado todo esse tempo, e você me trata assim? Como se eu não fosse nada? Tudo bem. Você quem escolheu isso. Mas, não pense que vou tolerar isso. Não vou. Esse filho também é meu. E vou fazer de tudo para obtê-lo na justiça. E essa era sua mensagem. Uma clara ameaça. Ele se mostrava finalmente. Um manipulador. Mas, se eu tivesse abrido meus olhos a tempo, nada disso teria acontecido. Respirei fundo, sentindo meu estomago dolorido. Etienne acordou, assim que eu me levantei. - Laura – ele diz – Você está pálida, está tudo bem? - Não...- eu digo – Vamos embora, por favor? Eu estava tremendo, não conseguia parar. Ele se levanta e me abraça com força. - O que foi, meu amor? – ele pergunta, beijando minha testa – Me diz. Deixa eu te ajudar. - Paulo está mandando mensagens. Não para de mandar – eu respondo. Sinto minha boca seca e parece que vou desmaiar. - Calma, não apaga as mensagens, tá? – ele orienta – Vamos mudar de chip. E o seu vai ficar comigo, tá bom? Deixe que ele mande, pois serão provas contra ele. Entendeu? Eu assinto. Ele beija meus lábios. - Fica tranquila, ele não vai tirar essa criança de você. Tá bom? – ele me acalma, passando a mão na minha barriga – Tudo vai dar certo. Você só não pode fugir, tá? E não dê motivos para ele te ameaçar. Ele vai usar tudo isso contra você, qualquer falha. Mas, se mantenha firme. Estamos juntos nisso, tá bom? Eu assinto. Não conseguia dizer nada. E coloco meu vestido e sandálias, mecanicamente. E partimos do hotel. Tudo acontece tão rápido. Quando vejo, estamos dentro do avião, saindo de São Paulo. Etienne segurava minha mão e tentava me distrair. Mas, eu não conseguia parar de pensar nas ameaças de Paulo. Não conseguia. Quando chegamos a Enseada, já era tarde. Por volta de cinco horas. Liguei para minha mãe, desabafando tudo. E Etienne me levou até a casa dela. Ela me abraçou, enquanto Etienne conversava com meu pai. - Filha, por que não me falou? – ela pergunta – Sempre que você vinha aqui, dizia que estava tudo bem. Não sabia que estava com o pai da criança. - Eu não queria preocupar a senhora – eu justifico – E também, não estava levando ele a sério. - Ai, filha – ela diz, me fazendo sentar na cadeira, em frente à mesa, na cozinha. Ele me entregou um chá de camomila e eu bebi, com dificuldade. Parecia que minha garganta estava fechada – O que ele estava fazendo, não é certo...mas, Laura, você deveria ter mantido a distância. Ele pensou que poderia fazer você mudar de ideia e está retalhando, fazendo ameaças. - Isso é culpa minha, então? – pergunto, nervosa. Eu estava magoada que minha mãe pensasse assim. - Eu diria que você é responsável por alimentar sentimentos nele, filha. Mas, se ele fosse equilibrado, não faria algo assim – ela explica, tocando minha mão – Laura, às vezes, quando estamos sozinhos, carentes de afeto e amor, é natural procurar em outra pessoa o que precisamos. Mas, devemos tomar cuidado com quem nos envolvemos. E agora, a única coisa que você pode fazer e tentar conversar com ele, racionalmente. Ele é pai dessa criança que você carrega. E fará parte da sua vida, mesmo você não desejando. Mas, ele não pode tomar essa criança, tá bom? Nenhum juiz faria algo isso. A criança sempre fica com a mãe. A não ser em casos de maus tratos. - Mas, mãe...eu não quero contato com ele. Eu não quero ter que me explicar...se ele ao menos estivesse sendo racional. Mas, ele queria me obrigar a casar com ele – eu justifico. - Filha, mas será muito pior se vocês não resolverem isso de forma amigável – ela explicou – Entenda que ele está com o orgulho ferido. Talvez, exaltado até. Provavelmente não esteja falando sério quanto a essas ameaças. Quando estamos com raiva, falamos coisas sem pensar. Eu tento entender o ponto de vista da minha mãe, mas é difícil. Ele parecia estar falando sério e eu não iria falar com ele. Não iria mudar nada e queria distancia. E estar com Etienne mais uma vez, era importante para mim. Nós teríamos uma chance de continuar de onde paramos. E ele parecia realmente interessado em ficar comigo, mesmo esperando um filho que não era dele. Fui para a sala e conversei com meu pai. Ele, como sempre, tocou minha barriga e perguntava se estava tudo bem com seu neto. Já pensava no futuro, o quanto queria ver meu filho nascer. E isso me enchia de esperanças. Ele estava melhor, seu aspecto era mais saudável. Não era o mesmo homem que eu conhecia, mas estava melhorando a cada dia. - E vocês dois, quando vão se casar? – ele pergunta, com a voz lenta. Eu fico vermelha e envergonhada. Etienne segura minha mão. - Isso quem precisa decidir é a Laurinha – ele diz – Amo muito sua filha e depois que deixamos nosso orgulho de lado, eu já quero casar o mais rápido possível. Ele beija minha testa e me abraça pela cintura. Sentia sinceridade em suas palavras, mas não achava certo força-lo a isso. - Vamos com calma, gente – eu peço – Etienne não precisa se obrigar a casar comigo. Quem sabe depois que eu tiver o filho, pensamos nisso. - Eu queria ver você de noiva, filha – meu pai diz, com um tom sonhador – Seria a noiva mais linda, saindo da igreja. Eu dou risada. - Pai, não vou me casar na igreja. Nem o senhor casou – eu digo. - Ah, mas sua mãe não queria – ele justifica – Eu queria, pois sempre achei muito bonito o casamento dessa forma. Queria dar isso para ela, mas Olga é igual a você. Sempre direta e prática. Eu rio. Mamãe sai da cozinha, com a mãe na cintura. - O que é isso? Já está falando m*l de mim? – ela diz, em tom de reprimenda – Deixe sua filha escolher o que é melhor. Etienne, não se sinta pressionado a nada, tudo bem? Casar não é uma brincadeira. Tem que ter companheirismo e amor. E as vezes, nem o amor sustenta tudo. A base para o casamento é cumplicidade no dia a dia. E aceitar seu companheiro, como ele é. Etienne sorri para ela. Meu pai faz uma cara chateada. - Você me aguenta, Olga? Não tá fácil o casamento para você? – ele pergunta, em tom magoado. Ela senta ao seu lado e beija sua bochecha. - Claro que não, seu t**o – ela diz, com tom carinhoso – Eu amo você. Quando saímos nessa aventura que é a vida, eu escolhi ser sua amiga e companheira. Não fiz isso de forma apaixonada, sem refletir. Eu escolhi você, meu amor. Ele assente, segurando sua mão. - E eu escolhi você – ele diz. Sinto-me emocionada por ver aquela cena. Etienne me abraça, beijando o topo da minha cabeça. - Eu sei que ainda é cedo, mas eu já escolhi você, Laura – ele sussurra no meu ouvido – Espero que você me escolha também. Eu reflito sobre suas palavras, sobre o que minha mãe e meu pai disseram. Cada um tinha uma visão diferente, mas se complementavam. Etienne estava do meu lado, disposto a tudo. Mas, eu tinha medo. Ainda tinha medo de perder ele, que virasse as costas para mim, no momento que tudo se tornasse mais difíceis. Eu não poderia condena-lo. A jornada era minha. Lorenzo era minha responsabilidade. Nós tomamos café da tarde, juntos. Conversamos, mas ainda refletia sobre aquilo. E voltei para casa, com medo de encontrar Paulo na minha porta, mas respirei fundo, ele não estava. Pedi para Etienne me deixar sozinha por aquela noite. Ele insistiu em ficar, mas precisava daquele tempo. Precisava pensar em mim.
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