Como você se portaria, ao ver a pessoa que você nunca esqueceu aparecer na sua frente? Fazia alguns meses que não o via. E ele estava diferente. E eu não sabia o que fazer, de verdade. E ele arregalou os olhos assim que me viu. Estava subindo as escadas. Nós paramos e nos fitamos. Senti todo aquele sentimento de paixão invadir meu coração. Ele olhou nos meus olhos, surpreso e fitou minha barriga. Via a dor em seu olhar.
- Laura... – ele murmurou.
Eu engulo seco. Não sabia o que falar. E senti as lágrimas despontarem de meus olhos. Desci as escadas, tentando não esbarrar nele, mas Etienne me parou, segurando-me pelo braço. Sinto meu corpo inteiro formigar e ele solta, como se estivesse queimado pelo simples contato com minha pele.
- Você está bem? – pergunta.
- Estou ótima – digo com a voz estrangulada.
- Bom...que bom – ele sussurra – Você está linda...Como está seu bebe? – ele pergunta, fitando minha barriga.
Ele levantou a mão, parecendo querer tocar minha barriga, mas coloca no bolso.
- Está bem...está saudável – eu respondo, sem fita-lo – Foi bom ver você. Etienne.
- Foi bom ver você também, Laura – não era mais Laurinha, só Laura.
E isso me partiu o coração. E como não queria que ele visse minhas lágrimas, desci as escadas, o mais rápido que consegue. Eu sentia meu peito dolorido e minha garganta seca. Fui para o ponto de ônibus, mas afastado da empresa. Não queria que ninguém me visse chorar. E recebi uma notificação de mensagem.
Oi, é o Etienne.
Faz tempo que não nos falamos. Não queria piorar a sua situação.
Ver você de novo me deixou estranho.
E eu não queria atrapalhar você na sua nova vida.
Para mim tem sido difícil aceitar que você precisa seguir em frente.
Eu me questione se fiz o certo.
Me diga, Laura, eu fiz o certo?
Eu não sei...
Apaguei a mensagem de raiva, querendo gritar e jogar meu celular longe. Por quê? Por que ele estava se questionando e me torturando com isso? Ele estava errado e foi ele que seguiu em frente. Não eu. Apenas tentei conversar, mas ele simplesmente me ignorou. Eu faria o mesmo. E ao invés de esperar a condução, segui pela pelo calçadão da praia. Via pessoas correndo, passeando sozinhas, acompanhadas. E sentia dentro de mim aquela dor. Não era como quando me desiludi com Paulo. Era mais forte, pois eu tive uma história com Etienne. Mesmo que fosse breve, parecia algo real. Não tivemos tempo de ver o que poderia ter sido. Terminou tão cedo. E aquilo me machucava. Pois, ele não deu uma chance se quer de me conhecer melhor.
Eu lamberia minhas feridas e seguira adiante. E isso era apenas por meu filho. Caminhei e vi um rapaz vendendo artesanato. Ele tinha dreads coloridos e parecia em paz.
- Moça, quer comprar? Você ia ficar bonita com esse filtro do sonho - ele mostra a peça para mim.
- Quanto é? - pergunto.
- Quinze reais - ele diz.
- Nossa, que caro - eu digo.
- Mas, é algo que faço a mão, por isso o preço tá assim - ele justifica, sem se abalar.
Pego dentro da minha bolsa o dinheiro e entrego para ele. Coloco na orelha e olho na câmera do celular. Até que era bonito.
- Valeu moça. Tá bonita - ele elogia.
Eu me afasto e continuo a caminhar. Pensava que meu sofrimento nem era tão grande assim. Se eu precisasse trabalhar na rua, como ele, não iria me dar bem. Ele era corajoso de enfrentar o mundo assim. Já tinha visto pessoas tratando m*l esses vendedores, até agredindo. Não entendia o motivo das pessoas serem tão violentas e cruéis. Pareciam se comprazer da miséria alheia e queria piorar situação.
Cheguei em outro ponto de ônibus, cansada. Havia andando por vinte minutos e nem havia chegado na minha casa. Parei e sentei no banco de pedra, para esperar o ônibus. Havia perdido várias chamadas de Paulo. Ele era insistente demais, o que me irritava. Eu sei que ele queria saber como estava, mas nem éramos namorados. E eu não queria compromisso. Já estava cansada dos homens. Acho que ia me aposentar por enquanto. Cuidaria do meu Lorenzo. Ele iria precisar de mim.
E ônibus chegou e entrei. Quando cheguei em casa, Paulo estava na minha porta. A gravata estava amarrotada, seus cabelos revoltos e seu olhar era preocupado. Ele se levanta, pois estava sentado.
- Laura, graças a Deus - ele diz, se aproximando de mim e me abraçando - Eu achei que tinha acontecido algo r**m com você - ele beija meus cabelos - Por que não atendeu?
Me afasto do seu toque.
- Calma lá Paulo. Eu estou bem, apenas fui andar - eu respondo e me aproximo da porta, para abrir.
- Laura, não pode sair assim, sozinha. E se algo acontece com você? Eu não sei o que vou fazer se perder você.
Engulo seco. Ele parecia muito apegado a mim. Isso não era bom. Entramos no apartamento e Loki miava. Deixei sua comida no potinho e sentei no sofá, estava exausta. Paulo senta ao meu lado.
- Você não tem casa não? - pergunto, o olhando de canto.
- Eu tenho, mas quero ficar com você - ele responde, rindo. Coloca o braço por cima do meu ombro. E automaticamente deito minha cabeça sobre seu peito. Era bom ter alguém. E não deveria dar esperanças. Mas, gostava de Paulo. Ele era um bom amigo. Ele suspirada e beija o topo de minha cabeça.
- Se importa se eu ficar aqui? - ele pergunta - Você me faz tão bem...
- Tá, mas não se acostuma, Paulo. Não sou sua namorada - aceito. Mas, para contrariar, eu o abraço.
Ele beija mais uma vez meus cabelos.
- Eu tenho que te fazer mudar de ideia, então - ele diz, maroto.
Ele levanta meu rosto e beija meus lábios. E quando vejo, estou entregue a ele. Ele me fazia esquecer o tempo e tudo que me magoava. Cantou no meu ouvido, músicas de amor e me amou lentamente.
Mais algumas semanas se passaram. Sem nenhuma novidade. Eu troquei de número, pois eu mesma temia correr atrás de Etienne. E eu não o vi mais pela empresa. Estava tentando com Paulo. Ele era doce, sempre cuidando de mim da melhor maneira possível. E aos poucos estava apegada a ele. Eu não sei se o amava, mas estar com ele me fazia bem. Ele desabafava seus problemas e eu fazia o mesmo. E tínhamos uma química muito forte. Ele era romântico e sempre que estava no meu apartamento tocava para mim. Eram suas composições, ou outras músicas. E não era sempre que estava comigo. Ia para São Paulo e visitava as outras empresas. E estava insistente quanto a eu conhecer seus pais. E queria isso? De jeito nenhum. Não queria casar com ele e também não queria ser chamada de golpista.
Paulo havia informado que teria um grande evento da empresa, em São Paulo, divulgando a nova marca de perfume da LeBlanc. Haveria muitas pessoas da socialite. E ele queria que eu fosse junto. Insistiu tanto que acabei cedendo. Já não adiantava mais dizer não a Paulo. Eu não conseguia. Ele supria minha carência e eu lhe dava o que ele queria: atenção. E comprou um vestido para eu usar no evento. A minha barriga já estava nítida, mas como era bem magra, quase não parecia que estava de seis meses. O vestido era aberto nas costas, com amarração no pescoço, de cor preta. Tinha uma f***a na perda direita, que ia até a coxa. E ele me comprou sandálias para combinar. E me fitava no espelho, com estranheza.
- Você está gata – disse Millie – Sério, eu queria um vestido desse pra mim.
- Então, vai no meu lugar – eu digo.
- Bem que eu queria – ela disse, mordendo a unha – Mas, o namorado rico é seu.
- Ele não é meu namorado – protesto, tirando as sandálias e sentando na minha cama, ao lado dela.
- Então me disse por que sempre que vejo vocês, estão se beijando em desespero? Parece que o mundo vai acabar – ela zomba.
- Eu não sei...- eu digo – Acho que estou carente.
- Oh, tadinha de você – ela zomba – Você tá dando esperança pro cara, Laura. Não devia fazer isso. Ele vai sofrer, quando você dar um pé na b***a dele.
Eu suspiro.
- Eu sei, eu sei...mas é que Paulo...-eu tento me explicar.
- Ele está insistindo? – ela pergunta – Olha, dá uma basta, diz que não dá. Que você não ama ele, mas não faz isso. Eu já sofri assim e no fim o Bernardo nem gostava de mim...
- Ai, Millie, não me faz me sentir pior – eu peço, agoniada.
- Eu tenho que te falar a real, Laura. O cara quer casar com você.
- Ele disse isso? – pergunto, assustada.
- Disse. Ele até comprou o aliança. Ele me mostrou, Laura. E na moral, se você não quer, fala. Mas, não casa por dó. Mas, se você sente algo, deixa rolar. Não fica em cima do muro.
Depois daquela conversa, eu pensei seriamente no que sentia por Paulo. Eu realmente gostava dele, ou era carência? Me questionei de todas as maneiras possíveis e impossíveis. Mas, ainda não tinha a resposta para aquilo. E quando chegou o dia do evento, eu estava nervosa. Ele disse que os pais deles estariam lá. Que precisava de mim lá. Mas, como eu iria fazer isso? E ele veio me buscar, todo sorridente. Entramos no seu carro e depois pegamos um jatinho, na sua pista particular. Essa cara só podia ser podre de rico.
Chegamos ao evento à noite. Era em centro de eventos, da própria empresa. O lugar estava cheio de pessoas importante, todos muito bem vestidos e elegantes. Eu não conseguia olhar, de tanta vergonha, pois eu não fazia parte daquele circulo social. E tentei me esquivar o máximo. Fiquei perto da piscina, enquanto no lado de dentro o senhor Leblanc não havia chegado. Ele faria seu discurso, falando o quanto as empresas eram importantes para ele, principalmente as do Brasil. Que era seu país natal. E começaria a falar sobre as metas para o futuro, o quanto os funcionários eram engajados. Mas, poucos funcionários estavam naquele evento. O Sandro estava lá, e também diretores da empresa de outra cidade também estavam. E ele como sempre nunca falava sobre a família. Somente sobre sua mulher, Ana Claudia. O restante, ele mantinha em sigilo total. O que me deixava com medo, pois Paulo não me disse se ele sabia que eu estava aqui. Júlio e Ana Claudia sabiam sobre mim e sobre a gravidez. Mas não sei qual foi à reação. Paulo disse apenas que queriam me ver.
Fiquei sentada em uma cadeira, pois o salto estava doendo muito. A minha cabeça doía e eu queria ir embora. Já fazia uma hora que estava lá e Paulo havia sumido. Disse que iria conversar com alguns sócios da empresa. E eu fiquei sozinha, comendo quitutes. Mas, chegou um momento que estava ficando chato aquilo. E de repente, o vejo. E estava abraçado, com o braço envolto da cintura de uma mulher. Não era qualquer mulher, era uma modelo. Tinha pele morena, cabelos escuros, na altura dos ombros, ondulados, uma boca sexy e grande. Só os olhos eu não conseguia ver, mas eu sabia que eram verdes. Como eu sei? Por que já a vi em capa de revista. Era a Marina Moraes, ao lado de Etienne. Aquilo embrulhou meu estomago. Queria morrer ali mesmo. E me levantei, tentando encontrar uma saída. Iria para o banheiro, pois não me sentia bem. E ele me viu. Arregalou os olhos e percebi que falava alguma coisa no ouvido da Marina. E quando vejo, estava vindo e minha direção. Eu saio em disparado. Não queria falar com ele.
- Espera – ele disse.
Eu continuei andando e entrei no local do evento. Era um grande salão de festas. E fui me esquivando entre as pessoas. Não olhei para trás. Não queria que ele visse minhas lágrimas. E consegui chegar a um corredor vazio e ele me encurralou na parede. Sua mão estava na altura da minha cabeça. Ele me fitava, com um misto de dor e surpresa. E eu fechei os olhos, porque queria conter as lágrimas por vê-lo.
- Laura – ele murmura, tocando meu rosto – Laura.
Ele beija meu rosto, depois meus cabelos. Sinto estremecer com seu toque. E ele beija meus lábios, com desejo, com saudades. Mas, eu não retribuo, mesmo desejando. A Marina está lá fora e não merece ser traída. Empurro ele com força pelo peito. Ele me olha incrédulo.
- Você não pode fazer isso - eu digo.
- Por que não? Eu amo você, Laura - ele diz, em tom de desespero - Eu tentei ligar várias vezes para você. Eu me arrependo de ter parado de falar contigo. Achei que havia feito o certo, mas não fiz.
- E por que não me procurou? - indago - Você teve um mês para isso é não fez.
- Eu sei, mas eu não estava no Brasil, Laura - ele diz, passando as mãos pelos cabelos - Eu estava na França, com meus pais... minha mãe...
- O que? - pergunto, preocupada, quando ele não diz nada e olha para o chão. Estava com uma aparência de derrota. Pego sua mão e entrelaço com a minha - Diz.
- Ela está doente, Laura - ele diz, apertando minha mão de volta. Seus olhos estão vermelhos. Ele parece cansado - Esta com leucemia. Meu pai está cuidando dela e passei esse mês ao seu lado. Na verdade, desde que nos separamos ela está assim. Eu não consegui assimilar que estou perdendo ela.
- Eu sinto muito, Etienne. Poderia ter me falado. Você cuidou de mim quando eu estava m*l por causa do meu pai.
- Eu sei, mas quando descobri que você estava grávida, eu perdi o chão. Eu não sabia o que fazer. Não queria te ver - aquilo me doeu - E seu pai, como ele está?
Ele ainda não me soltou. .
- Ele está melhor. Está falando com mais facilidade - E a mudança dele era visível. Mas, seu rosto nunca iria ser o que era. Sua fala também não. E a força do seu braço e perna estavam comprometidas. Mas o importante é que ele está vivo.
Ele me abraça, acariciando meus cabelos.
- Me perdoa, Laura - Etienne pede - eu fui egoísta com você. Vamos começar de novo.
- E Marina?
- Marina? O que tem ela? - ele pergunta, franzindo o cenho.
Eu me solto dele.
- Ela tá com você. Eu vi.
- Espera, ela não está comigo. A gente é só amigo, Laura - ele explica, com um sorriso - Está com ciúmes? Eu gostei disso.
- Não estou. Você tem o direito de seguir em frente - eu justifico - Se não está com ela, então por que estava abraçado a ela?
- Era para tirar uma foto. Você não viu o fotógrafo? - ele responde, tentando me abraçar, mas apenas cruzo os braços - Vai Laurinha. Deixa eu te abraçar, beijar. Eu te amo, má cherie. Me deixe compensa-la.
- Não dá, Etienne - eu digo, triste - Eu preciso ser sincera com você.
Ele para de tentar me beijar no pescoço e se afasta, sério.
- Eu não vim sozinha. Eu vim com o Paulo.
- Entendo - ele diz, com q voz soturna - Você está namorando com ele, então?
Eu n**o.
- Não, mas ele quer que eu conheça os pais dele. Ele quer algo sério, mas eu não amo ele, Etienne. Não estou tentando arranjar desculpas, nem tentando fazer com que fique comigo. Mas, não posso mentir. Ele quer que dê certo, por mais que eu diga que não.
Etienne parece pensar. Vejo que ele fecha os punhos e abre.
- E o que você quer? - ele pergunta.
- Eu não sei. Eu só quero ficar em paz - eu digo.
Ele anda de um lado ao outro do corredor. Parece estressado.
- Você dormiu com ele?
- Quê? Que espécie de pergunta é essa? - eu exclamo, indignada.
- Esqueça, Laura. Eu só...- ele tenta dizer, mas me agarra de novo pela cintura, me beijando.
Eu retribuo. E estamos nos tocando sem pudor. Ele beija meu pescoço, parecendo possessivo.
- Não importa o que houve, só fica comigo - ele pede - Eu cuido de você, do seu filho. Só não me deixa.
- Tem certeza? Eu não sei se você vai querer isso, Etienne. É muita responsabilidade - eu digo.
- Não me importa. Eu te amo e não vou perder você - ele diz, com convicção - Fala com Paulo. Diz que não vai ficar com ele. Seja sincera. E fala comigo. Se realmente me quiser, me ligue.
Ele se afasta, me deixando com as pernas bambas. Eu escoro na parede, tentando pensar. Minutos depois, vejo Paulo. Ele estava parecendo procurar algo e me vê parada. Parece calmo. E feliz por me ver. O que me faz me sentir muito m*l, pelo que estou prestes a fazer.
- Laura, nossa estava procurando você. Desculpe-me deixar você sozinha - Ele diz, se aproximando de mim e me puxando pela mão - vem, vamos conhecer meus pais.
- Não, Paulo. Precisamos conversar - eu digo, seria.
- Mas, não podemos esperar? Por favor - ele pede - eles estão esperando.
- Não - eu corto - Paulo eu não sei o que está pensando, mas eu não quero nada sério com você.
- Eu sei, você já disse - ele concorda - só vem, Laura. Eu não vou fazer você se casar comigo.
- Que fique claro, não estamos juntos - eu insisto.
Ele assente, parecendo sem abalar. Sigo ele até uma sala reservada, no mesmo corredor. E lá está Júlio e Ana Cláudia. Júlio tinha cabelos grisalhos, porte elegante e estava de terno. Ana Cláudia tinha cabelos escuros, olhos castanhos e a pele clarinha, com um vestido branco estilo tubinho, com salto alto preto. E mais alguém estava lá, sentada no sofá. Eu já vi o rosto dela em revistas. Ela era uma das sócias da empresa. Era Alicia Novaes. Esposa de Henrique Novaes. Ela tinha cabelos loiros, platinados, vestido preto, tubinho e saltos vermelhos. Seus olhos castanhos me fitaram, mas ela não demonstrava qualquer emoção. Já Júlio e Ana Cláudia me cumprimentaram com felicidade.
- É um prazer conhece-la – disse Ana Claudia, me dando um beijo nas duas bochechas. Ela parecia forçada demais – O Paulo não para de falar de você. E eu realmente estava ansiosa para conhece-la. Como está meu netinho?
Ela olha para minha barriga, parecendo avida em tocar. Eu não queria que ela me tocasse, sinceramente.
- Está muito bem, senhora – eu digo, tentando forçar um sorriso.
- Ah, ele disse que o nome é Lorenzo. Não é lindo, Julio? – ela pergunta para o marido, que estava com um semblante leve.
- Realmente é uma boa escolha de nome. Ótima escolha, Laura – ele diz, com um tom profissional – Soube que trabalha para nós, em Enseada. Gosta da empresa de lá? Meu filho está fazendo um bom trabalho?
- Ahn, sim, está sim – no começo ele era péssimo. Não estava por dentro dos processos. Mas, hoje, implantava melhorias. Mas, isso eu não iria contar – É muito bom trabalhar lá, senhor.
- Por favor, me chame de Júlio. Eu me sinto muito mais velho assim – ele diz, sorrindo – E essa é minha filha – ele aponta para a loira – Alicia.
Alicia acenou para mim.
- Muito prazer, Laura – ela diz, de forma automática.
- O prazer é meu – eu digo, sendo totalmente falsa.
Não tenho nenhum prazer de conhecê-los. Quero sair correndo.
- E agora, precisamos pensar no noivado – disse Ana Claudia – Filho, quando será a data de casamento?
- É...bem...sobre isso – ele tenta dizer.
O fulmino com o olhar. Ele não pode estar pensando em casamento. Eu disse que não queria.
- Filho, não pediu a Laura em casamento? Precisa pedir – insistiu Ana Claudia – Querida, eu não criei meu filho assim, sabe. Ele vai pedir você em casamento, tenho certeza – ela olha de esguelha para o filho.
- Com certeza, vai – disse Júlio, sério.
- Sobre isso, ele já pediu – eu contorno a situação – Mas, não se preocupem, porque...
- Ah, menos m*l – interrompeu Julio – Assim, eu fico bem mais feliz.
- Ah, que maravilhoso – disse Ana Claudia, entusiasmada. E eu estava em desespero, olhando para Paulo, que apenas fitava o vazio – Quando vocês querem se casar? Eu sugeria o quanto antes, pois você é esbelta, Laura. Vai ficar linda no vestido. Se não só depois que o Lorenço nascer.
- É Lorenzo, senhora – eu corrijo.
- Ah, sim, sim – ela concorda, mecanicamente – Então, quando vai ser?
- Podemos ter um minutinho – eu peço – Vou falar com o Paulo.
Eu não espero pela reação deles, puxo Paulo para fora da sala e voltamos ao corredor. Ele me fita, assustado.
- Você não pode fazer isso – eu digo, trêmula – Eu não vou me casar com você.
Ele me fita, magoado.
- Eu sei...não precisa espezinhar – ele diz, também, tremulo – Eu não imaginava que eles quisessem isso...porque, bem...
- Por quê? – eu pergunto, um pouco magoada.
- Bem, Laura...eles são queriam que eu me casasse com alguém do nível social deles – ele explica, hesitante – E achei incrível eles aceitarem você.
Mordo os lábios, com força. Ele estava-me desdenhando? Por eu não sei rica? Se ele soubesse que meu avô é dono de uma editora de livros, não diria tal coisa. Nós não somos ricos, como eles, mas temos dinheiro.
- Eu sei que não sou do seu nível social – digo, ácida – Mas, não se preocupe. Se vire sozinho para explicar que não vai haver casamento! Eu estou indo embora – eu me afasto, mas ele me segura pelo cotovelo.
- Espera, Laura...você entendeu tudo errado – ele diz, em desespero.
- É, e o que eu entendi de errado? – perguntei, irônica.
Ele passa a mão pelos cabelos castanhos, bagunçando seu penteado.
- Eu não estou! – ele diz, veemente – Eu não me importo com quem você é, Laura. Você é uma pessoa boa, incrível...E eu amo você. Mas, meus pais não pensam assim. Eu não achei que eles quisessem que eu me casasse contigo. Mas, eu me casaria com você, Laura. Eu já pedi isso para você, várias vezes. Só que, veja, você está sempre me destratando...sempre me esnobando. E eu não suporto mais isso...- seu tom é de magoa. Seus olhos estão tristes. E eu me sinto muito m*l por ter causado isso.
- Perdão, Paulo...é que...estou confusa – eu digo, sincera – Eu não queria nada sério... eu só quero ter esse filho e focar nisso agora.
Ele me fita, com intensidade e coloca a mão em meu rosto.
- Eu sei. Mas, podemos tentar? Eu quero que isso dê certo, Laura. Você é importante para mim. E eles aceitarem você, é algo tão bom. Se estiver comigo, posso cuidar de você, dar o amor que você precisa...eu te amo tanto, Laura – ele diz, beijando meu rosto, próximo aos meus lábios – Eu sei que você ainda gosta do Etienne...mas...
Me afasto, mantendo distância. Eu estou ofegante e não sei o que pensar.
- Paulo...não faz isso, tá. A gente não dá certo – eu digo, tentando faze-lo voltar a razão.
- Eu sei, você quer o Etienne...eu vi – ele diz, magoado, fechando os punhos – Eu não consigo entender por que gosta tanto dele. Ele nem ao menos ligou para você, ligou? De repente você se tornou interessante para ele. Não acha estranho? Não acha que ele esteja fazendo isso por outro motivo? Se ele realmente te amasse, teria aceitado o filho que você esta esperando, mesmo não sendo dele.
Suas perguntas são como dardos venenosos. Elas me envenenam, para que eu pense melhor sobre as atitudes de Etienne. E me faz pensar por que ele não me ligou, durante aqueles meses? Por que não veio até minha casa? Mesmo que sua mãe estivesse doente e isso o deixasse m*l, se ele realmente gostasse de mim...Não! Eu não iria cair naquela argumentação de Paulo. Ele estava fazendo isso para que eu ficasse com raiva. Mas, mesmo assim, aquilo mexeu comigo profundamente.
- Fiz você pensar, não fiz? – ele continua, se aproximando de mim, tocando minha cintura. Seu rosto está a centímetros dos meus lábios – Eu não sou ele, mas posso fazer você feliz. Eu não fiz nada certo, no começo. Me deixe compensa-la, Laura. Eu não te abandonei, mesmo com ciúmes de você...mesmo vendo você ao lado dele...
Ele beija meu rosto, acariciando meus cabelos. Eu não conseguia pensar. Empurrei ele, de leve e me abracei. Está tremendo da cabeça aos pés.
- Para de dizer essas coisas, Paulo. Só para! – eu peço – Eu não quero isso...não quero me casar, não vou me casar com você...
Ele não parece abalado.
- Pense bem, Laura. O que você vai ter, se não estiver comigo? – ele argumenta. E isso me faz ter mais raiva ainda. Como ele pode dizer isso? – Pense que criar um filho não é fácil. Você vai estar sem apoio, sozinha. Eu posso estar com você, claro que posso. Sendo seu amigo. Mas, não poderei estar sempre, pois não serei seu marido.
- Como pode dizer essas coisas, Paulo? – eu esbravejo – Eu não preciso de você, não preciso de ninguém. Suas ideias arcaicas de que precisamos ficar juntos, para que eu possa criar essa criança, não faz sentido. Eu trabalho, eu faço a minha vida. Não preciso de ninguém!
A porta da sala se abre. Os pais de Paulo nos olham, com surpresa. Paulo me fita, com magoa. Seus olhos me acusam, e eu não sei quais são suas acusações. Talvez, porque eu não aceito ser sua esposa e não sou submissa. Não vou deixar ele brincar comigo. Me afasto, mesmo ele pedindo para que volte. E ando rápido, até encontrar a saída daquele corredor. Passo pelo salão de festa e vejo todas aquelas pessoas se divertindo, bebendo e dançando. Estão em um mundo completamente diferente, muito acima das minhas possibilidades materiais. Mas, eu prefiro ficar onde estou. No meu mundo, no meu círculo, longe de pessoas como Paulo. Que são manipuladores, que acham que o dinheiro pode comprar tudo! E avisto um elevador e aperto, para descer até o térreo. Espero, com desespero. Por que logo, Paulo vai me encontrar. E não quero ver ele. Puxo minha bolsa com força e meu telefone não para de tocar. O elevador abre e alguém entra comigo. Aperto o térreo, umas quatro vezes e o elevador se fecha.
- Não precisa espancar o botão, Laura – disse uma voz conhecida.
Eu olho para trás, e vejo Etienne. Seu sorriso me faz ficar deslumbrada. Eu não sabia o que fazer. Eu poderia abraça-lo? Poderia beija-lo? Eu não sabia.
- Eu ouvi, o que você disse para ele, Laura – ele diz, se aproximando de mim, colocando uma mecha atrás do meu cabelo – E eu estou muito feliz por você ter se mostrado forte.
Eu fico sem reação. Ele beija meus lábios e eu retribuo. O elevador abre as portas e nos afastamos.
- Eu não sei se fiz o certo – eu murmuro.
- Fez o que achava certo, Laura. Se não, não teria feito – ele diz, me fitando com intensidade.
Ele me puxa pela mão e saímos do elevador. Passamos pela recepção e ele pega uma chave com a recepcionista.
- Para onde vamos? – pergunto.
- Eu vou levar você embora, Laura – ele diz – Você aceita vir comigo?
Eu assinto. E nós vamos até a garagem e entramos em um carro preto, estilo sedan.
- E para onde vamos? Você não me respondeu – eu insisto, enquanto ele liga o motor.
- Que tal, para bem longe dessa festa? – ele sugere – Depois eu levo você para sua casa.
Meu telefone toca, e vejo que é Paulo. Desligo e ele manda uma mensagem.
Laura, vamos conversar.
Não seja criança. Precisamos nos entender.
Não vou permitir que se afaste de mim.
E não pense que vai afastar Lorenzo de mim, Laura.
Esse filho também é meu. E posso recorrer à justiça para tê-lo comigo.
Pense muito bem antes de brincar comigo.
Fico nervosa, engulo seco. Etienne me fita, com preocupação.
- O que houve? – ele pergunta, enquanto faz uma manobra para sair do estacionamento.
Leio a mensagem para ele. Etienne segura com força o volante. Quase bate o carro em uma coluna. Ele desliga o motor, respirando fundo.
- Ele não vai fazer isso, tá bom? – ele garante – Eu estou com você Laura. Se me permitir, vou ajudar você.
Eu assinto. Ele beija minha testa, afagando meu rosto. E não percebo que estou chorando, apenas quando ele passa o polegar próximo aos meus olhos.
- Não se preocupe, Laurinha – ele sussurra – Você vai sair dessa.
Depois que diz isso, beija meus lábios e volta a ligar o carro e nós saímos daquele centro de eventos. Eu fico tensa, tentando relaxar, mas não consigo. Só lembro-me da mensagem de Paulo. Ele está me encurralando. Está tentando mexer com meu psicológico. Mas, isso eu não vou permitir. Não vou permitir que tire meu filho de mim.