Um dia eu espero te reencontrar numa bem melhor
Cada um tem seu caminho, eu sei foi até melhor
Charlie Brown Jr, Lugar ao sol
Era só o que faltava para completar meu quadro trágico!
- Entra Laura – ele pede – Não vai sozinha para casa.
- Nem ferrando – eu digo, cruzando os braços.
- Vai, Laura. Não faz assim – ele pede – Eu não vou fazer nada. Juro.
Estava cansada e não sabia que horas viria a condução. Será que estava cometendo o maior erro da minha vida? Talvez. Mas, entrei no seu carro, mesmo assim. Coloquei o cinto e ele dirigiu. Ele ficou calado e olhava para a rua a sua frente. Engoli seco, pois havia algo para contar, mas não queria. O sonho estranho que tive com ele me deu certeza de que não queria dividir aquela criança que crescia dentro de mim. Sim, eu sou egoísta.
- Laura – ele começa, apertando o volante com força – Eu só queria pedir desculpas...acho que cometi a maior burrada da minha vida...e a vida está me cobrando.
Escute ele, sem me comover. Quer dizer, só um pouco.
- E por que está aqui? Você não tinha uma banda? – perguntei, petulante.
Ele me fita, com raiva.
- Você não me dá uma chance né? – ele pergunta, irritado – Eu perdi a banda...eu perdi tudo...e estou preso nessa d***a dessa cidade. Começando do zero.
Bem, se ele estava começando do zero, bem-feito.
- Que pena – eu digo, olhando minhas unhas. Eu estava sendo muito i****a com ele, não conseguia me controlar – E o que você fez de errado?
- Eu não sei por que eu perco tempo tentando me explicar – ele diz, nervoso, voltando sua atenção para o trânsito. Vejo seus ombros tensos, o que me diverte muito – Mas, se isso deixa você feliz, não vou poder sair daqui, por um longe tempo. Só que, somos vizinhos, Laura – ele me olha novamente, com ironia – Se me provocar, eu sei revidar. E você não vai gostar.
- Está me ameaçando? Eu não tenho medo – eu retruco, olhando-o com desdém.
Ele ri, sem humor.
- Talvez...mas, sendo sincero – ele diz, mais calmo – Você era a única que me viu de verdade. Por isso, me arrependo.
Sua afirmação acaba me tocando por dentro. E não queria me sentir tocada.
- Bem, pode ficar arrependido para sempre – eu replico – Pois, não vai valer de nada o que disser.
Ele suspira.
- Tá bom, Laura – ele diz – Mas, pelo menos vamos conversar. Sei lá...tomar uma cerveja e ser amigos. Dá pra ser assim?
Pensei no caso. Mas, Etienne não iria gostar disso. Mas, quem disse que ele mandava em mim? Mas, não queria ele magoado.
- Não sei, Paulo – eu digo, sincera – Acho que não daria certo.
Ele assente.
- Talvez tenha razão – ele diz – Mas, começamos errado. E queria ter a chance de te reencontrar de novo naquele bar e fazer tudo certo. Talvez, você era a única que me viu de verdade, em tanto tempo.
Mordo os lábios. Ele sabia me envolver com suas palavras, foi assim que me apaixonei por ele em um dia.
- Escuta, Paulo – eu digo – Não tente usar esses argumentos comigo. Somente me deixa em casa, tá.
Ele assente. Vejo que ele aperta o volante com força. Mas, seu rosto transparece cansaço e tristeza. Percebo que ele está com uma camisa e calça social e gravata amarrotada.
- Você está trabalhando? – pergunto.
- Sim, na empresa do meu pai – ele responde – Por quê?
Aquilo só poderia ser brincadeira. Diz que não...
- Qual empresa? – pergunto.
- A LeBlanc. Você deve conhecer é a mais famosa no Brasil – ele responde, dando de ombros – O império de Júlio Leblanc. Como ele é incrível, não é mesmo? – sei que está sendo retorico. Sinto sua ironia. E estou hiperventilado. Ele é filho de Leblanc. Seu nome então deveria ser Paulo Leblanc – Ele sempre se preocupa com as aparências...malditas aparências! E onde está meu sonho? Acabou. Apenas sou um peão dele.
Escuto quieta. Não quero dizer que trabalho lá.
- Sinto muito, Paulo – eu sussurro.
- Não sinta – ele diz, com sarcasmo – Eu já estou ferrado mesmo. Era isso que você queria também. Aposto.
- Eu não...- tento dizer. Ele me fita, com raiva – Eu não queria isso...eu só estava chateada com você.
Ele assente.
- Eu sei, eu sou um desastre. É isso que sou, Laura – ele diz – Eu não consigo levar nada a sério, é o que meu pai diz. Talvez ele esteja certo e eu seja a d***a do seu filho mimado.
Ele estaciona o carro na garagem do prédio e eu saio assim que o carro para. Desço e vou andando de fininho para o elevador. Pensei melhor e desviei para a escada. Desvio o percurso, mas Paulo me acompanha.
- Você não usa o elevador? – ele pergunta, com o blazer sobre seu ombro. Ele está ao meu lado na escada e posso ver o quanto ele é alto e tão bonito quando Etienne. m***a, era dele que Etienne estava falando, sobre seu primo que ele não queria falar.
- Quase nunca – eu digo. E tinha certo pânico de elevadores.
- Hum – ele murmura – Laura – ele me para na escada, segurando meu cotovelo – Desculpa por agora no carro...eu sei que fui i****a. Eu não estou legal. Não vou incomodar você mais, tá bom? Mas, pelo menos vamos ser amigos. Eu gostei muito de você, de verdade.
Estou tentada a aceitar.
- Tá bom, Paulo – eu assinto – Só amigos, tá? Nada mais.
Ele sorri, sincero. Vejo o Paulo que conheci no bar do Jorge. Seu sorriso é jovial. Ele solta me braço e coloca a mão no bolso da calça.
- Podemos, sei lá, sair? Um dia desses? Pode convidar seu namorado se quiser...
Meu Deus, agora eu estava ferrado.
- Vou pensar – eu digo, tentando sorrir – Então, você é primo do Etienne?
Ele assente.
- Você e ele estão juntos mesmo? – ele pergunta. Sinto um tom de ciúmes na sua voz.
- Ah, não sei. Faz tempo que não vejo ele – desconverso.
Chegamos ao segundo andar e paro na minha porta. Ele me olha, desconfiado.
- Eu vou entrar – eu digo, com a mão na maçaneta – Obrigada por me levar.
Ele assente.
- Se precisar, é só me chamar, Laura – ele diz, sorrindo e sobe as escadas.
Paulo parece mais leve. Era como se um peso saísse dele, depois da conversa. E talvez eu tivesse exagerado. Ele só era um cara, cheio de problemas. Problemas com um pai controlador. Puxo a chave da minha bolsa de couro preto e insiro a chave na maçaneta. Entro no apartamento e acendo as luzes. Largo a bolsa no sofá e dou comida para Loki. Pego ele no colo, dando um beijo na sua cabeça. Caminho até meu quarto e abro a porta. A visão que tenho me faz rir. Havia pétalas de rosas sobre a cama. Velas espalhas sobre o chão. Mas, nem sinal de Etienne. Largo Loki no chão, que sobe na cama e se aninha entre as rosas. Sinto Etienne se aproximar de mim, pelas minhas costas, segurando minha cintura.
- Gostou? – ele perguntou, em meu ouvido – Fiz pensado em...- ele para de falar – Loki, sai daí cara.
O gato nos fita, com seu olhar de sono e se aninha mais.
- Mas, eu não dou sorte mesmo – Etienne diz, com humor – Só com você eu dei sorte.
Eu viro para ele. Seus olhos estão me fitando com intensidade, me fazendo estremecer. Beijo seus lábios. Ele envolve minha cintura. Com sua outra mão, ele envolve minha nuca. Ele me guia até a cama me fazendo sentar. Se afasta, pega Loki no colo e sai do quarto. Fico esperando-o voltar e ele aparece na porta, com um olhar malicioso. Fecha a porta e tranca atrás de si. Se aproxima de mim, me ajudando a tirar minha camisa, abrindo botão por botão. Eu o ajudo também. Sinto-me ofegante. Eu o desejo tanto que me faltam palavras para descrever o que estava sentindo. E Etienne parecia sentir a mesma coisa, pelo modo como me olhava. Ele me beija de novo, me fazendo me perder em seus braços. Ele me toca, com carinho e desejo. Seus olhos verdes ficavam mais bonitos sobre a luz das velas. Ele para e coloca a c*******a, depois, sinto seu corpo deitar-se sobre o meu. Seus movimentos são ritmados, me levando a loucura. Beija-me com ardor e murmurava palavras em meu ouvido. O quanto era bonita, o quanto tinha prazer comigo. O quanto eu era especial, o quanto gostava de mim. O quanto me desejava. Depois de fazermos amor, dormi em seus braços, sem pensar no amanhã. O amanhã não me pertencia, somente o presente era importante. E Etienne era meu paraíso.