Mentir nunca é certo. Falar a verdade sempre é o melhor, mas é para quem não tem coragem de dizer, para não perder alguém? O que essa pessoa deve fazer?
Olhei para minha tela do computador, parando de digitar. Meu primeiro final de semana sem Etienne. Eu digitando e escrevendo. Mais um desabafo para mim. Mas, àquela pergunta, na tela do computador, me fazia refletir minhas ações. Cada uma delas. Eu estava grávida de três meses. Pelas minhas contas. Os enjoos pararam. Mas, eu me sentia cansada. E cansada de mentir. Eu não contei para Etienne, nada. Escondi dele algo crucial. Será que eu era digna sua confiança? Eu não sei. Talvez, não. Mas, e falta de coragem em dizer aquilo para ele, me minava, me fazia mentir. E para minha sorte, eu era magra, não havia engordado quase nada. Ninguém havia notado, ainda. Mas, logo o quarto e quinto mês viria e barriga iria crescer. Como dizer para ele? E se ele achasse que era seu filho? Péssima ideia. Eu não queria começar a relação com uma mentira. Bem havia essa e de que Paulo vinha até minha porta, conversar. Ele desabava. Apenas isso. E eu não cortava. Por quê? Eu não sei. Mas, não gostava dele daquele jeito. Sei lá...talvez pena? Eu não sei.
E eu me esquivava na empresa, para que ele não me visse. E como Paulo era muito egocêntrico, nunca havia me visto. E ele viajava para outras empresas do país. Então, nem sempre estava por lá. Nos encontrávamos casualmente, no prédio, na rua. As vezes ele me levava para casa. Nunca tocamos no assunto: Etienne. Nunca. Eu me sentia péssima. Péssima. Pois, será que estava fazendo errado, sendo amiga de Paulo? E escondendo o filho dele? Meu Deus, eu não sabia.
E foi pensando nisso, que sai do apartamento. E desci as escadas. Paulo vinha na direção contrária, indo em direção ao elevador Ele sorriu ao meu ver. Sempre sorria. Parecia voltar de viagem. Estava com suas roupas de empresário de sucesso e com uma bagagem de rodinhas na mão direita. E sobre o ombro, uma mochila.
- Laura – ele diz – Que bom vê-la.
Olhei para o lado. Seu Afonso parecia distraído, olhando para a tela do computador. Sorri para Paulo, mesmo que forçado.
- Bom ver você, Paulo – eu digo, começando a andar – Voltando de viagem?
- Sim. Fui para São Paulo – ele diz – Tinha um evento da empresa e precisa estar junto, com meu pai...-ele diz a última frase, como se fosse um peso – Mas, até que está sendo produtivo conhecer a empresa. Achei que Milena iria assumir tudo, mas parece que meu pai quer dar cinquenta porcento do controle. Minha irmã está uma fera – é, ele falava da irmã dele. Algo que deixaria seu Júlio muito irritado, se soubesse. Mas, como sou tão confiável, ninguém sabia dos segredos da família Leblanc. Era somente eu, Loki e Paulo – E você? Para onde vai? Vamos dar uma volta. O sol está bonito lá fora. Podemos ir na praia.
Má ideia, má ideia.
- Não precisa, Paulo. Eu vou na minha mãe – eu recusei – Até mais...
- Espera, eu levo você – ele diz – Não vai me custar nada.
Por que Paulo estava fazendo isso? Eu não sei. E por que não disse que não? Bem, talvez eu quisesse um amigo. E ele me ouvia também. Ele sobe, com elevador e eu espero no saguão. Vou até seu Afonso.
- Oi seu Afonso – digo – Alguma carta para mim?
- Não, Laura – ele diz – E seu namorado, o Etienne? Ele não apareceu aqui hoje.
Seu Afonso tinha uma percepção incrível. E me colocaria em problemas se falasse demais.
- Não está não. Está em uma conferência. Ele atua na área de análise de sistemas – eu respondo, com um sorriso forçado – Ele é muito inteligente.
- Verdade, parece ser – seu Afonso concorda – E aquele rapaz, que você estava conversando? Ele parece gostar de você.
Aperto os punhos.
- Sério, nem notei – eu respondo – Ele é só um amigo.
- Sei, mas cuidado, Laura. Ele parece muito apaixonado – avisa seu Afonso – Só digo isso, porque ele parece estar mesmo. E você e Etienne são um casal tão bonito. Dá pra ver como se gostam. Não deixe ninguém estragar o que você tem.
Assenti, engolindo seco. Ele tinha mais do que razão e por isso me despeço do porteiro e saio, andando. Não iria esperar Paulo. Não mesmo. Não queria perder Etienne. E ando um bom pedaço, até chegar ao ponto de ônibus, que me levaria até a casa da minha mãe, depois da ponte. As palavras de Afonso ecoavam meu campo mental, me fazendo refletir minhas atitudes. Ele sempre tinha uma palavra sábia e essa era a mais importante que ouvi toda a minha vida. Valia a pena mentir? Eu precisava contar para Etienne. Tudo, antes que fosse tarde demais. Eu celular apitou no bolso e vi que era Paulo. Deixei que tocasse. Estava na hora de cortar aquela amizade. E dei graças a Deus que a condução havia chegado. Entro e pago pela passagem, que era cara. Mas, tudo era para ver minha mãe querida. O ônibus para em cada ponto, balneário. Passa pela ponte e logo estou perto da casa da minha mãe. Desço algumas quadras antes. E ando, despreocupadamente. O celular vibra, incessantemente, mas não dou atenção. Estou feliz assim. Não quero que Paulo confunda as coisas. Sou amiga, mas Afonso tinha razão. Eu não podia deixar nada estragar o que tinha com Etienne. Ele era meu porto seguro e eu acho que já o amava. E muito.
Chego na casa dos meus pais e meu celular continua a tocar. Dessa vez era Etienne.
- Oi Laurinha – ele diz – Desculpa incomodar, minha luz, mas fiquei com saudades.
Ouvir sua voz era reconfortante.
- Eu também estou – digo, sorrindo e entro pelo pequeno portão e fico sentada no banco que tinha no jardim da minha mãe – E aí, Et? Como está a conferência?
- Muito boa – ele responde, alegre – Só faltava você aqui. Queria te abraçar, beijar você. Queria tudo. E conversar com você me acalma.
Suspiro. Eu também sentia isso.
- Você também me acalma, meu amor – eu deixo escapar.
- Meu amor? – ele pergunta, surpreso – Nossa...isso...
d***a! Eu falo demais.
- Desculpa...é cedo para falar isso nhe? – eu digo, sem graça.
- Não, não, Laurinha – ele diz, sem perder o humor – Não tem essa de cedo ou tarde. Apenas diga o que sente. Você também é meu amor. Meu grande amor.
Nossa, ouvir isso me fez deixar escapar lágrimas. E de remorso também, não só de felicidade.
- Você também, é Etienne. Eu te amo – eu digo.
Escuto o silêncio e ele respirar do outro lado. Eu não ligo se ele não dizer de volta. Mas, queria que ele dissesse algo.
- Eu te amo, Laura. Je t’aime – ele diz, o que me faz derreter – Queria dizer isso, olhando para você. E quando chegar, hoje à noite, vou dizer isso, várias e várias vezes.
Depois daquela declaração e de pelo menos vinte minutos de trocas de palavras amorosas, eu desligo. Sinto meu coração cheio, mas minha cabeça a mil. Como posso ter mentido para ele, por tanto tempo? Olho para o lado e vejo minha mãe. Ela sorri para mim.
- Filha – ela diz, saindo da varanda da casa – Que bom ver você.
Eu abraço ela, com força. Sinto meu corpo tremer.
- Mãe, eu fiz algo h******l – eu sussurro.
Ela acaricia meus cabelos.
- Algo h******l, mas o que? – ela pergunta.
- Mãe, se eu mentisse, para proteger a pessoa que amo, estou sendo errada? – pergunto.
Ela me solta e para, analisando o que disse.
- Filha, nunca é certo mentir. Mas, nunca é certo usar as palavras para ferir – ela diz.
- Mas...e se for difícil contar a verdade? – insisto.
Ela me fita, com candura.
- Filha, as vezes é difícil falar a verdade – ela diz – Mas, nunca é bom guardar para sempre uma verdade. Mentir, por vezes é muito pior e pode piorar sua situação. E pode ser trair a confiança da pessoa amada.
Eu não tinha pensado por esse lado.
- Mãe...preciso lhe dizer algo – eu digo. Ela assente, mas parece nervosa – Vem comigo, vamos sentar.
Eu puxo ela até o banco. E conto tudo. Falo de Paulo, falo das minhas mentiras, falo da minha gravidez. Ela escuta, quieta. E depois diz:
- Filha, os dois precisam saber disso – ela aconselha – Eu estou muito feliz que vou se avó...mas, não desejava que fosse dessa maneira – ela diz, me olhando, mas sem me censurar – Queria que você formasse uma família, mas quando você estivesse preparada para isso. E vejo que ainda não está, mas só Deus sabe o motivo para isso ser tão cedo.
- Mãe, não é Deus...são minhas escolhas – eu esclareço.
- Eu sei que não é Ele, mas se aconteceu, era por um motivo bem importante – ela explica – Eu sei que não gosta de tocar nesses assuntos, mas não pude evitar.
Eu aperto sua mão.
- Mãe, eu não me importo de você dizer o que acredita. Apenas, só acho que somos responsáveis por nossas ações. E eu me coloquei nisso...e nem sei como sair.
Ela assente, beijando minha testa.
- Vai ficar tudo bem – mamãe diz – No final, você só precisa dizer a verdade. Se Etienne não aceitar, é porque não a ama o suficiente. Mas, tenho certeza que vai sim.
E era esse meu medo. De que ele não me amasse o suficiente.