Etienne voltou da sua viagem, naquela noite. E fizemos amor, até amanhecer. Ele não parava de falar aquela palavra bonita: Je t’aime. Era tão lindo que eu não sabia o que pensar. Mas tinha algo importante a dizer, por isso, no dia seguinte, fiz ele sentar no sofá da sala. Sentei a sua frente, segurando suas mãos.
- Etienne, preciso lhe dizer algo importante – eu digo – E vou entender se você quiser partir – Não, não ia, mas deveria ser racional. Ele não podia ficar forçado comigo.
- O que foi meu amor? – ele pergunta, preocupado – Seu pai está bem? – eu assinto. E realmente ele estava. Abracei ele no dia anterior e fiquei lendo para ele – E sua mãe? – assenti – E você? – eu n**o – O que foi, meu amor? Aconteceu algo? – ele toca meu rosto, com carinho.
Sinto as lágrimas despontarem dos meus olhos. Ele toca meu rosto, beijando meus lábios.
- Não faz assim...o que está havendo? – ele pergunta.
- Etienne...eu estou grávida – eu murmuro, sem olha-lo.
Ele respira fundo, mas não tira as mãos das minhas. Mas, sinto que está tenso.
- Nossa, isso...bem – ele balbucia – Eu não esperava por isso...é uma notícia boa, pelo menos – ele ri, de bom humor – Mas, vamos precisar cuidar de você, agora, amor. Não precisa chorar. Eu estou com você.
Ele me beija, nos lábios. Eu o afasto.
- O que foi? Não quer ter esse bebe comigo? – ele pergunta, inseguro – Eu sei que não sou tão maduro, mas podemos aprender juntos...
- Etienne, para de falar – eu peço. Ele me fita, assustado – Não é isso. Eu adoraria ter uma família com você. Seria um sonho...mas, esse bebe não é seu.
Seu semblante fecha e ele solta minha mão. Passa as mãos pelos cabelos. E posso sentir sua dor. Ele parece perturbado.
- Você...de quem é? – ele pergunta, soturno.
- Do Paulo – respondo.
Ele assente, apertando os punhos.
- O Paulo...- ele diz – Ele sempre fica com tudo...
Ele se levanta.
- Onde você vai? – pergunto.
- Pegar uma água – ele responde, com o tom duro.
Ele toma a água e coloca as mãos sobre o balcão. Seu olhar a distante e frio.
- Você estava apenas brincando comigo? – ele pergunta.
- O que...eu...claro que não! – eu engasgo com as palavras e sinto a indignação subir. Era difícil ver Etienne assim.
Ele suspira.
- Eu não sei se consigo acreditar – ele diz, sem me olhar – Há quanto tempo vem escondendo isso?
- Hum..desde que disse que precisava ir no médico.
Ele ri, sem humor.
- Eu pedi para você ser sincera, aquele dia...por que não me contou? - ele pergunta, irado – Eu não sei se consigo confiar em você...Como posso confiar?
Ele estava sendo duro demais. Talvez, nosso sonho tenha acabado.
- Eu não pedi para você confiar. Eu sei que nunca lhe enganei, mas se você não acredita, pode ir embora – eu vocifero, irritada. E sinto uma tontura tomar conta do meu corpo.
Ele parece perceber isso e se agacha, tomando minha mão.
- Desculpa, Laura...é...- ele tenta dizer.
- Não precisa se explicar – eu digo, respirando com dificuldade – Só vai embora.
Ele se levanta e anda de um lado para o outro. Parece um animal enjaulado.
- Vai precisar contar para ele, sabe? – ele diz, nervoso – E Paulo...há algo que não disse para você...e peço desculpas...Ele é meu primo.
Apenas assinto, pois nós dois mentimos. Eu não poderia cobrar nada dele.
- Eu não vou contar para ele, Etienne – digo – Quero criar essa criança sozinha.
Ele n**a com a cabeça.
- Laura, isso não é justo – ele argumenta – Paulo pode ser irresponsável, mulherengo, mas ele gostaria de saber que tem um filho. E não precisa fazer isso sozinha...
- Ah, não? Mas é o que vou precisar fazer – eu retruco, com sarcasmo.
- Laura, pare de ser teimoso – ele diz, irritado – Não pode fazer isso...não pode excluir ele disso. Eu não desejaria isso para ninguém.
Eu n**o com a cabeça. Não iria envolver Paulo nisso. Eu nem ao menos sentia algo por ele. Talvez, amizade, eu não sabia.
- Laura – ele diz, agachando e tomando minha mão – Como seu amigo, eu peço que reconsidere. Não faça tudo sozinha. O nome dele poderá lhe oferecer p******o e esse filho terá todo o apoio. Inclusive meu.
- Mas, eu não terei seu amor, não é? – eu pergunto, sentindo minha garganta fechar.
Ele me fita e parece sofrer em silêncio.
- Eu não sei se posso ficar assim – ele diz, com pesar – Paulo já me tirou alguém uma vez...e isso não foi fácil de digerir. E dessa vez, fui eu que tirei você dele...
Espera o quê?
- Espera, você se envolver comigo por interesse? – vocifero.
- Não, não Laura. Eu não soube me expressar...-ele tenta dizer, mas eu levanto e me afasto.
- Como pode, Etienne? – eu exclamo, irada – Eu não acredito que fez isso de propósito. Eu não me importava que nossa relação seria segredo, ou que eu não soubesse de você totalmente. E não me importo de saber que Paulo é seu primo, mas me usar desse modo, para feri-lo...isso é c***l.
Ele anda de um lado para o outro, apertando os punhos.
- Eu não me aproximei de você por isso, Laura – ele justifica, olhando para mim, de forma sério – Não sou assim...mas, era como se fosse? Entende. Era como se pudesse me vingar pelo que ele me fez...Mas, o que sinto por você não tem relação com isso.
Eu apenas fecho os olhos. Eu não sei se poderia confiar nele. Se ele não confia em mim, eu não poderia.
- Etienne, acho que quero ficar sozinha – eu murmuro – Pode ir embora?
Ele assente, pegando sua mochila. E sai. Eu sento no chão, sentindo meus sonhos se esvaírem. E achei que mudaria a minha vida ao lado Etienne, assim como quando conheci Paulo. Mas, talvez não fosse assim. E lembrei do que meu pai disse, uma vez: "Quando você sonha com algo ou alguém que está além do seu alcance e quer que sua vida mude, Laura, talvez é você que precise ser a mudança. Não sonhe que alguém posso mudar sua vida. Apenas seja mudança em sua vida, minha filha". Sequei minhas lágrimas, lembrando do que ele me disse. Ele tinha razão. E eu precisava seguir adiante e ser a mudança que desejava.