E passei meu domingo, revirando o apartamento de cima a baixo. Fiz uma limpeza em tudo. Sem Etienne, parecia que tudo estava vazio. Sem sentido, mas eu precisava seguir adiante. Era esse meu lema. E sai na segunda-feira, para trabalhar, com os olhos cansados, de tanto chorar. Mas, eu era adulta. Não era possível fugir da realidade. Eu precisava acordar.
E cheguei no trabalho, mais cedo, do que deveria. E encontra nada mais, nada menos que Paulo, entrando no saguão. Ele para, ao me ver. Não havia mais jeito em me esconder.
- Laura? – ele indaga – O que faz aqui?
- Vim trabalhar – eu respondo e não paro de andar.
Ele me segura pelo braço.
- Espera, Laura – ele diz – O que houve? Está tudo bem?
Ele analisa meu rosto.
- Laura, faz quanto tempo que trabalha aqui? – pergunta – Entrou quando?
Eu mordo os lábios.
- Um ano e três meses – eu respondo.
Ele fecha os olhos e ri.
- Como sou t**o – ele diz – Eu nem percebi que você...eu nem havia notado que você trabalhava aqui. Nem me dei ao trabalho de perguntar.
Realmente, Paulo apenas falava de si. E as vezes me perguntava algumas coisas, mas eu desconversava.
- Por que não me contou...por que? Espera...- ele parece pensar e continua com a mão no meu braço – E por Etienne, não é?
- Eu não contei porque você nunca perguntou – desconverso.
Ele estreita seus olhos.
- Não, não é – ele ri – Sabe que há política zero com quem se envolve com funcionários. Pode ser demitida por isso.
Se ele ia me mandar embora, eu estava pouco ligando. Iria para o seguro e seguir minha vida. Estar longe dele, de Etienne...Etienne.
- Eu sei disso, vai me demitir? – provoco.
Ele pisca os olhos ao ouvir eu falar isso. E ri.
- Não sei...eu deveria? – ele sussurra, perto do meu rosto – Sabe que não me importo? – ele dá de ombros – Mas, por que fugiu de mim, sábado? E por que está com essa cara? O que houve? Meu primo disse algo que fez isso com você? Posso conversar com ele, se quiser.
Pela primeira vez, dou risada.
- Não, Paulo...é que só acabou. Sabe, apenas isso – eu respondo.
Ele assente, parecendo ter pena de mim. Odiava que tivessem pena de mim.
- Eu sinto muito, Laura – ele diz, percebendo que ainda segurava meu braço. E fica desconcerto e retira – Perdão...eu...enfim, agora que trabalhamos na mesma empresa, deixe eu compensar meu lado distraído...talvez egoísta. Quer almoçar comigo?
Eu não deveria aceitar, mas por que não? Paulo era meu amigo.
- Claro – eu digo – Nos vemos depois então.
Eu me dirijo as escadas, pensando se deveria contar a verdade para Paulo, mas penso que não. Ele não precisa saber.
- Ei, não vai pegar o elevador? – ele pergunta, parado na porta do elevador, esperando.
- Não, eu preciso fazer exercícios – respondo.
Ele ri.
- Isso é curioso – ele diz, indo atrás de mim – Vou fazer isso, também.
E me acompanha. E conta mais um pouco sobre sua vida. Diz que está difícil dar conta de tudo e como sente falta da música. E até mesmo, pergunta de mim. O que começa a me irritar. Como me esquivar das suas perguntas? Eu respondi o menos possível. Não queria que ele soubesse de mim, por que não sabia se podia confiar nele. Mas, enfim, cheguei no meu andar e ele analisou o lugar.
- Aqui fica o marketing? – ele pergunta.
- Sim, e o setor de TI – acrescento.
- Legal – ele diz – Vou passar por aqui, mais tarde...conhecer melhor a empresa.
Eu assinto.
- Deveria mesmo, precisa entender o trabalho de perto e não exigir, sem conhecer – deixo escapar.
- Como disse? – ele perguntou, sério.
- Nada – desconverso, mordendo os lábios.
- Eu ouvi bem, Laura – ele diz, sério – Mas, vou levar o conselho a sério. Bom trabalho para você. Até mais tarde.
Ele agiu como um empregador age com seu funcionário. Realmente, gostei do seu profissionalismo. Tão diferente de certas pessoas. E entro na sala, que estava vazia e ligo meu computador. Começo trabalho e quando vejo, meus colegas chegaram e se assustaram comigo, até Ana.
- Uau, que funcionária incrível eu tenho – ela diz, sorridente – Viram pessoal. A Laura é a melhor.
Dou risada.
- Ela só caiu da cama, só pode – comentou Diego – Você vai nos ferrar assim, Laura. Não faz isso não. Vai que Ana manda a gente chegar cedo?
- Calma Diego, só foi hoje – eu digo.
- Espero que sim – ele diz – Se eu tiver que chegar mais cedo do que chego, vou enlouquecer.
E continuamos a trabalhar. Millie havia notado que não estava bem, mas eu pedi para falar depois. Ela entendeu o recado. Tinha tanto a falar com ela. E quando resolvemos, antes do almoço, ir ao banheiro.
- Não, quê? – ela exclamou, ao ouvir meu relato sobre todo meu fim de semana, até o instante que Paulo me deixou no meu setor – Paulo? Ele é o filho playboy do Julio? É primo do Etienne. Isso tá bizarro. E Etienne...eu esperava mais dele.
Eu dou de ombros.
- Eu não posso obriga-lo a ficar comigo, Millie – eu explico – Se ele não gostou, é direito dele. Mas, eu preciso cuidar do meu filho.
- E talvez contar para o Paulo, Laura – faço uma careta – Ah, vai, ele pareceu bem legal com você. Não deu em cima, nem nada. Não custa ele pagar pensão.
- Ele vai achar ainda mais que sou interesseira, Millie – digo com sarcasmo – Não vou contar e pronto. Sigo em frente e cuido dessa criança. O que pode dar errado?
Ela gargalhou.
- Tudo, você não sabe nem cuidar das suas plantas – ela debochou.
- Ah, cala a boca – eu digo, mas acabo rindo também.
E voltamos ao trabalho. Eu me sentia mais leve, mesmo sentindo meu coração despedaçado. E verifica meu celular, para ver se Etienne me mandava mensagem. O que não acontecia. Apenas uma mensagem de Paulo:
Oi Laura,
Apenas para confirmar que nos encontramos no saguão a uma hora, tudo bem?
E respondi apenas com um ok. Não queria transparecer animação que nem sentia. Suspirei e voltei meus olhos para a tela. Aquele dia parecia lento demais. E uma hora chegou. Eu saí do setor. Já havia avisado Millie e a mesma disse que eu era rápida no gatilho. Essa Millie é uma i****a as vezes, mas eu amo ela.
Desci as escadas, devagar, tentando pensar em uma desculpa para recusar seu convite. Mas, minhas pernas me colocaram no saguão. Paulo me aguardava, com a gravata amarrotada e um sorriso leve. Nos cumprimentamos, profissionalmente e partimos. Seu Juca me olhou, com os olhos arregalados e eu dei de ombros. Fomos até o estacionamento e entrei na suv de Paulo. Era um carro confortável, com banco de couro.
- Então, Laura – ele diz – Agora que estamos fora do prédio, indo almoçar, posso sair do meu modo empresário e perguntar: como você está?
Ah não!
- Não precisa se preocupar comigo, Paulo. Não é como se o mundo fosse acabar.
Ele assente.
- Eu sei...mas, você parecia bem triste – ele diz, me olhando com um misto de pena e carinho. Arghh pena, odeio isso – E não gostei disso. Você é minha amiga.
Sei, sei muito bem que não é isso.
- Tá, Paulo. Chega dessa falação – peço, ligando o rádio. Oasis tocava. Arggg, troco a rádio.
- Ei, eu gosto daquela música, Laura – ele protesta, voltando na estação – Meu carro, minhas regras, moça.
Ele pisca para mim. Quero lhe dar um soco.
- Você quer me torturar? – eu indago, irrita.
- Talvez? Você me torturou por um tempo. E como castigo, vai ouvir Oasis comigo – ele diz, em tom de deboche – A Laura, sorria. Não gosto de vê-la brava.
Faço uma careta, ao invés do sorriso. Ele gargalha.
- Eu gostei disso – ele diz, sorrindo para mim – Você é engraçada, Laura. Prometa não mudar.
Fecho a cara e cruzo os braços. Ele me cutuca.
- Ah, não fica brava – ele pede.
- Só dirigi, estou com fome – eu digo, sem olha-lo.
- Você que manda – ele diz, zombeteiro.
Mas, o resto do trajeto foi leve. E ele me fazia rir, me fazendo esquecer que Etienne havia me ignorado. Totalmente. Eu mandei uma mensagem, perguntando se poderíamos conversar, mas não havia resposta. Bem, o recado restava dado. Ele não queria contato comigo.
E chegamos a um restaurante japonês, bem caro. Eu não gostei nada. Reclamei com Paulo, mas ele disse que iria pagar. E quem disse que eu queria?
- Desconta do salário, tá? – eu digo.
- Não, eu pago, sério. Assim você me ofende, Laura.
Ok, eu aceitei. Mas, como ele pagou, eu comi tudo que queria. Sushi, sashimi, sushi com morango. Tudo que podia comer, eu comi. E ele ria, fazendo o mesmo. Ser sua amiga era bem interessante. Estava começando a respeitar ele. Mas, o que ele havia dito na praia, não saia da minha cabeça.
- Paulo, por que disse aquelas coisas horríveis para mim? Na praia?
Ele para de comer e larga o raxi na mesa.
- Disse o que? – ele pergunta, limpando a boca com o guardanapo.
- Aquelas coisas, de eu ser seu resto.
Ele engole seco.
- Aquilo foi um erro – ele diz, sério – Eu estava com raiva e queria provocar Etienne. Eu nunca deveria ter dito aquilo sobre você, Laura. Você é uma mulher digna. Quem foi i****a fui eu. Sinto muito.
E via sinceridade em seus olhos. Mas, eu ainda estava magoada.
- Eu não sei se consigo perdoar.
- Não precisa, Laura...eu sei que errei – ele diz, olhando para mim – E por isso, insisti em falar com você. Queria consertar meu erro. E quando vi que você estava com Etienne...bem, aquilo me deixou puto. Mas, fazer o que? Eu perdi.
Eu assinto.
- Perdeu f**o, Paulo – eu provoco.
Ele dá de ombros.
- Bem, mas quem está sendo i****a agora? Ele te fez chorar – ele provoca.
- Paulo, só cala a boca – digo, com raiva – Quando acho que posso gostar de você, você age como um i****a.
- Desculpa, desculpa mesmo, Laura – ele diz, mas sem parecer arrependido – Esse é o nosso problema. As vezes somos idiotas, Laura? As vezes somente somos isso...fazemos coisas que não deveríamos, falamos coisas que não deveríamos. É o que somos, imperfeitos.
Bem, ele não estava errado. Eu também errei f**o com Etienne. E estava fazendo isso com Paulo.
- Paulo, preciso contar algo – eu digo.
Ele assente.
- É bem sério...e não quero que pense que estou em aproveitando de você.
- Por que pensaria isso? – ele pergunta.
- Bem, é que...sabe aquela noite, em que fomos para aquele motel...
Ele assente.
- Você usou c*******a?
Ele fica branco.
- Não – ele diz, mordendo os lábios – Você não tomava remédio?
Ah, tudo estava explicado agora.
- Não, o que lhe fez pensar isso, seu i****a?
- Calma, Laura...eu não sei, tínhamos bebido demais aquela noite...eu só pensei...
- Pensou errado – eu corto, irritada – Por sua culpa eu estou grávida.
Ele me fita, assustado.
- Grávida? É meu? – ele pergunta, atônito.
- É seu sim.
Ele engole seco.
- Bem, isso...
- Não se preocupa, não quero nada que venha de você.
E me levanto, irritada. Ele me olha, sem entender.
- Pode descontar do meu salário o almoço, tá – eu digo e vou até a saída do restaurante.
Sinto ele me acompanhar. Ele me segura pelo braço.
- Espera, Laura, vamos conversar, tá? – ele pede, me olhando com desespero – Eu não imaginava que isso estivesse acontecendo...
- Ah, nem eu – digo, com ironia.
- Só para de ficar na defensiva, e me escuta, Laura. Por favor – ele pede, irritado.
Eu assinto. Estava cansada de me defender. Saímos do restaurante e entramos no carro. Ele respira fundo, apertando o volante, com força. Eu o fito, esperando ele se acalmar.
- Laura...eu sinto muito...eu só piso na bola – ele diz, olhando para frente – Eu só faço isso, sabe? Decepcionei minha mãe, meu pai, meus amigos, o pessoal da minha banda, Etienne...você...eu não sei por que faço tudo errado...eu só queria consertar isso tudo...
Ele parece sincero. Vejo em seus olhos a dor. Toco seu ombro, sentindo empatia. Talvez, seu olhar de pena para mim, nem fosse isso, mas empatia. Eu as vezes distorcia a realidade, me fazendo de vítima.
- Escuta, Paulo – eu digo – Fica calmo, tá? Tudo vai ficar bem. Você vai consertar tudo. Você está começando de novo. Está fazendo o certo. Obrigada por se importar comigo, tá? Eu te perdoo. E não precisa se preocupar com nada, tá. Pode ver a criança, mas não precisa cuidar de mim, tá legal.
Ele n**a com a cabeça e me olha, com olhos vermelhos. Vejo que está contendo as lagrimas.
- Não, Laura. Para de falar isso – ele pede – Quero fazer parte da vida do meu filho. Vou cuidar de vocês, eu prometo. Você não está sozinha nisso, tá?
Ele segura minha mão. Nos olhamos, com respeito. Pela primeira vez, desde que resolvi tentar ser sua amiga, o olho assim. Sem raiva. Queria tanto que Etienne tivesse dito isso para mim, que iria me apoiar. Mas, bem, o filho não é dele.
- Obrigada, Paulo – digo, apertando sua mão – Só não se sinta culpado, tá. Merdas acontecem.
Ele ri.
- Isso não é m***a, Laura. É uma vida – ele diz – E importa. É importante.
Eu assinto.
- Verdade, você tem razão...é, que eu acho que não estou preparada para isso...é demais – eu digo, com a voz entrecortada.
Eu não estava preparada para ser mãe. Eu não estava preparada para vida. Para nada. Só queria me encolher e sumir. Paulo me abraça, beijando meus cabelos. Não sinto as lágrimas virem. Só sinto o oco, o vazio.
- Laura, não se preocupa – ele diz, acariciando meus cabelos – Tudo vai dar certo, tá? Você vai ser uma boa mãe. E eu vou estar aqui. Essa criança vai ser feliz e ninguém vai dizer o que ela precisa ser e vai ter só amor – eu entendi o que ele disse. Ele se sentia assim, sem amor, sem respeito do pai e obrigado a coisas que não queria – Deixa eu te ajudar, Laura, por favor.
Eu assinto, deixando que ele me abraçasse. Ele acaricia meu rosto, erguendo meu queixo.
- Eu gosto de você, Laura, de verdade – ele diz, me fitando com seus olhos castanhos e quentes – E me arrependo por tudo que disse...se eu pudesse consertar isso...
Eu me afasto. Não queria aquilo com ele. Não.
- Está tudo bem – eu digo – Não precisa fazer anda.
- Ok – ele diz, passando a mão pelos cabelos – Vamos voltar. Tudo bem?
Eu assinto. E coloco o cinto. Sinto ele me olhar, mas eu não o fito. Não quero olhar em seus olhos e ver sua paixão. Não agora que queria ver os olhos verdes de Etienne.