E Paulo estava por toda parte, naquela empresa. E se não estava lá, estava na matriz, em São Paulo. Ele me escutou, quanto a ser presente nas empresas. E não tentar mudar tudo, sem pelo menos conhecer a fundo os processos da própria empresa. E contava que seu pai estava mais calmo com ele. E que queria me conhecer. Ah, por Deus, não. Ele contou que estava gravida e que não estávamos juntos. Mas, mesmo assim, Júlio queria me ver. E talvez, para me acusar de ser golpista. Ótimo. Eu precisava fugir do país, urgente.
E visitava meu pai, e cada vez mais ele parecia distante. Contei para ele a novidade e ele parecia feliz, mas estava mais fraco. Aquilo me assustava, de verdade. Me fazia ter insônia, não conseguia dormir. E Etienne nunca mais falou comigo. Já havia passado um mês. E eu não o via pela empresa. Era como se tivesse sido tudo um sonho. Ele não era real e não estaria mais comigo, me abraçando. Foi tão breve nossa relação. Tudo tão fugaz, mas bonito. Eu não me arrependia, mas ele fazia falta. Se ele entrasse pela porta do meu apartamento, iria me entregar a ele e esquecer seu mês de silêncio.
E Paulo fazia questão de estar presente. Me levava do trabalho, para casa e de casa para o trabalho. Eu tentava fugir, mas ele parecia saber meus horários. Eu pedia para ele parar com isso, mas ele me implorava para me levar. Dizia que seria pelo bebe. Pelo seu filho. Morria de mim de, sei lá, quando a criança nascesse, ele a roubasse de mim. E eu iria mata-lo, se ousasse tentar.
Bem, no fim, eu estava seguindo em frente. Tentando usar o lema do meu pai. Ser a mudança na minha vida e não buscando em outra pessoa isso. Então, resolvi dar continuidade a minha história, que guardava no pendrive, fazia tempos. E escrevia de dia e de noite. Paulo precisava bater na minha porta, para que eu saísse de casa, final de semana.
- Vamos, Laura – ele diz, me olhando digitar do computador – Você precisa sair.
Eu n**o com cabeça.
- Não, preciso terminar esse capítulo – eu digo, sem parar de digitar.
Ele fecha a tela do meu computador.
- Vai sair, tomar um sol – ele diz – E vai se divertir. Agora.
Eu o fulmino com o olhar.
- Paulo, você é um homem morto – eu digo, me levantando.
Ele ri e se afasta.
- Quero ver você tentar alguma coisa, sou maior, mais forte – ele zomba – E você é baixinha.
Eu corro até ele e ele se esquiva. Mas, consigo bater nele. Ele ri, e me segura me cintura. Não sei o que estava havendo, se era os hormônios falando alto, mas de repente, nos encaramos com intensidade. Algo muito diferente do que sentia, quando ele estava por perto. Ele beija meus lábios e eu retribuo. Eu havia perdido a cabeça, iria me arrepender em seguida, mas naquele momento, só queria ter amor, carinho. E ele estava ali. E senti seus braços me envolverem. Sentia sua respiração acelerar. Ele me ergue no colo e me leva até meu quarto. Eu queria negar, mas não sei se poderia. Paulo, apesar de ter me magoado tanto, sabia me envolver. E somente estava me apoiando. E fazemos amor, lentamente, sem pensar no amanhã. Ele beija todo meu corpo. Diz que quer estar comigo, casar. Eu apenas escuto, aproveito aquele momento. Só isso. Eu não queria isso, mas apenas assenti. Queria apenas me sentir desejada.
- Laura – ele diz, em meu ouvido – Quero você, comigo, de verdade.
- Hum – eu digo, me virando para ele. Vejo seu rosto e seu olhar intenso. Ele era bonito demais, para meu gosto – Você sabe que não quer, Paulo. Não se preocupa, não vou me apegar.
Ele n**a com a cabeça.
- É sério para mim – ele diz, tocando meu rosto – É sério mesmo. Eu quero você, Laura. Eu amo você.
Opa, aquilo era demais. Eu me levanto.
- Paulo, para de dizer isso – eu digo, enrolando o lençol em meu corpo.
Na rádio rolava uma música, Sublime, Bad Fish. Mas, eu não escutava. Eu apenas estava tonta com a declaração dele.
- É sério, Laura – ele diz, sentando na cama – Eu te amo...e custei a ver isso...
Não quero escutar. Por que a única pessoa que queria agora, era Etienne. Mas, bem ele não voltou.
- Para, Paulo – eu peço – Para com isso...Eu não posso te dar o que você quer.
- Eu sei – ele diz – Você já deu seu coração. Mas, me deixe faze-la feliz. Ele nem voltou para você. E eu estou aqui.
Mordo o lábio, com raiva.
- Cala a boca – eu grito e saio do quarto.
Ele me alcança no corredor.
- Não vou parar de falar a verdade, Laura – ele diz, me fitando com ira – Eu estou aqui, não ele. E se você não quisesse, não deixava eu entrar. Por que está me usando desse jeito?
Loki começou a sibilar, com o corpo eriçado. Paulo não parecia se incomodar, nem eu.
- Eu não estou usando você. Acho que você está fazendo isso, Paulo – eu retruco – Eu queria só sua amizade. Só isso.
Eu me afasto, para ir à sala. Não tem para onde ir, mas quero ficar longe dele. Ele me irrita tanto.
- Mas, não é isso que quero, Laura. Eu quero você – ele diz, com veemência. Seus olhos me olham, com desejo inflamado – Eu amo você. Entenda isso.
Aquilo meche comigo. Eu não sei, mas mesmo não amando ele, fico tocada. Talvez eu gosto um pouco de Paulo, não na mesma intensidade que amo Etienne.
- Paulo, vamos parar por aqui, tá legal? – eu peço – Vamos nos machucar assim...
Ele se aproxima de mim, tocando meu rosto.
- Eu nunca machucaria você – ele diz, beijando meu rosto. Eu desvio o olhar – Me dá uma chance, Laura. Uma.
Eu hesito. Estava cogitando isso? Eu deveria estar maluca.
- Eu não sei...preciso pensar – eu digo – Eu preciso de tempo.
Ele assente.
- Eu espero, Laura. Eu espero por você o tempo que for – ele diz, beijando minha testa.
Ele se veste e sai, me deixando sozinha. Tomo um banho demorado, pensando no que ele me disse. Eu estava cogitando aceitar aquilo? Eu não sabia...Mas, se Etienne não voltasse, eu não ficaria sozinha. Eu não sabia ficar só. Eu não curtia a solitude nem a solidão, que Osho dizia que era necessária. Que precisávamos estar bem sós. Não, eu não sabia ficar sozinha. Nem meditar conseguia.
E saio para caminhar na praia, ver o pôr do sol. O frio chegava e sentia as mudanças no ar. Como tudo parecia em grande transformação. O outono havia chegado, fazia pouco tempo. Sentia o ar da praia mais frio. E eu também havia mudado. Se no verão, eu estava sorrindo com Etienne, no outono, eu refletia sozinha a minha vida. O que estava fazendo de fato? O que queria de fato? Qual era meu futuro? O que faria por aquele ser que crescia dentro de mim? E Paulo, onde entrava naquela equação? Eram tantas perguntas, que resolvi me calar e ficar em silêncio. Tirei meu chinelo e me aproximei da água, deixando a maré tocar meus pés. Via algumas pessoas andando pela praia e até surfistas. E todos pareciam envolvidos em suas vidas, em seus mundos particulares. E eu precisava cuidar do meu mundo. Que se tornava difícil de sustentar. Tudo se tornava difícil. Mas, precisava caminhar, apenas isso. E foi exatamente o que fiz.