Pré-visualização gratuita O Perfume da Mentira
A brisa de Paris entrava pela sacada do hotel cinco estrelas, bagunçando levemente os fios escuros do cabelo de Ana Paula. Ela segurava uma taça de vinho tinto enquanto observava o pôr do sol refletindo nas águas do Sena. Estava tudo perfeito. Ou deveria estar.
Atrás dela, o som abafado do celular vibrando sobre a cama interrompeu sua contemplação. Mais uma mensagem de Gustavo.
— Não me espere acordada. Reunião com investidores acabou de surgir. Beijos.
Ana franziu o cenho. Aquela era a terceira noite consecutiva em que ele “precisava sair” às pressas. Primeiro, um telefonema estranho no meio do jantar. Depois, uma ligação no meio da noite com ele falando baixo, quase sussurrando. Agora, essa mensagem.
Ela mordeu o lábio inferior, indecisa entre ignorar ou ir atrás da resposta que já suspeitava. Mas não foi isso que a incomodou. Foi o nome que piscou no canto da tela: "E. Morelli".
Não era a primeira vez que via aquele nome nas notificações do celular de Gustavo, mas era a primeira vez que ele apagava a mensagem em seguida — sem saber que ela estava vendo.
Respirou fundo. Estava na Europa para lançar sua linha de produtos. Gustavo a acompanhava para abrir mais uma filial de sua boate, mas nas últimas 48 horas, ele parecia mais distante do que nunca.
Sentou-se na beira da cama e puxou o notebook. Decidiu responder alguns e-mails, focar naquilo que sempre foi sua âncora: o trabalho. Mas algo a impediu.
Com um clique, acessou o sistema administrativo de sua empresa. Por precaução — e por uma desconfiança incômoda — resolveu checar as contas da última campanha publicitária.
Seu coração gelou ao ver uma transferência suspeita no valor de R$ 800 mil para uma empresa chamada EN GESTIONI SRL, sediada na Itália.
— Isso não foi autorizado por mim…
Ela apertou os olhos, ampliou o comprovante digital e viu que quem havia autorizado foi… Gustavo.
Seu peito apertou.
Aquela conta estava vinculada à campanha da nova linha infantil — a que levava o nome das sobrinhas, Aurora e Olívia. Era o projeto mais pessoal de Ana, e o fato de ele ter mexido nisso sem consultá-la era mais do que uma quebra de confiança. Era traição.
Ela levantou-se bruscamente, o corpo tremendo. Foi até a mala, pegou o celular de reserva que usava apenas com contatos diretos de seus advogados e digitou uma mensagem rápida.
— Preciso que verifiquem tudo sobre a EN GESTIONI SRL. E também quem é Enzo Morelli.
Segundos depois, a resposta foi seca:
“Morelli era sócio de Gustavo há 10 anos. Romperam negócios por causa de um desvio. Te explico melhor por vídeo. Alerta vermelho.”
Ana soltou o celular na cama. O ar ficou rarefeito. Tudo começou a fazer sentido: a tensão de Gustavo, as mensagens deletadas, a ausência cada vez mais frequente.
Mas ela não era mais a mulher que engolia tudo em silêncio. Não depois de anos construindo seu império com suor, especialmente sendo mulher em um mercado onde poucos acreditavam nela.
Vestiu um sobretudo preto e desceu para a recepção. Precisava respirar. Pensar. E talvez… agir.
Foi quando a porta giratória do hotel se abriu… e ele entrou.
Um homem alto, elegante, com cabelo castanho escuro penteado para trás, barba bem feita, camisa social aberta no colarinho e um olhar penetrante que parecia enxergar tudo. Ele parou assim que a viu.
— Ana Paula?
Ela franziu o cenho.
— Sou eu… e você é?
Ele sorriu, um canto dos lábios apenas, como se aquilo fosse o bastante.
— Enzo Morelli. O homem que vai acabar com o seu noivado.
Ana congelou. A taça quase caiu de suas mãos. O perfume que ele usava era amadeirado e denso, e combinava com o tom rouco da voz dele — sedutor, perigoso, definitivo.
— Desculpa, você disse o quê?
— Eu disse... que você merece saber a verdade. Sobre Gustavo. Sobre tudo. — Ele se aproximou, mas manteve uma distância respeitosa. — E se aceitar ouvir, talvez descubra não apenas quem ele é… mas quem você pode ser longe dele.
Ela ficou em silêncio, o coração disparado. Enzo não era apenas um homem atraente. Ele carregava nos olhos um mundo de segredos… e um convite.
Ana Paula engoliu em seco.
Naquela noite, Paris não parecia mais romântica. Parecia um campo de batalha.
E ela… estava pronta para lutar.