Ana Paula olhou para Enzo assim que ele entrou. Ele usava um sobretudo escuro sobre uma blusa de gola alta, com a mesma tranquilidade arrogante de quem tem tudo sob controle — o oposto exato do homem ao lado dela, Gustavo, que agora estava pálido, com a mandíbula travada e o ego ferido.
— Está atrapalhando o café da manhã, Enzo — disse Gustavo, tentando manter a pose.
Enzo sorriu com desprezo.
— O que você chama de café da manhã, eu chamo de chantagem matinal.
Ana virou-se para Gustavo e cruzou os braços.
— Avisa ao seu advogado que o meu já protocolou o bloqueio das contas conjuntas. A documentação do desvio está a caminho das autoridades brasileiras. Se eu fosse você, começaria a me preocupar com o passaporte.
Gustavo bufou.
— Você não tem coragem.
— Eu não tinha. Agora eu tenho. — Ana se aproximou, a voz baixa, como um golpe certeiro. — E você devia agradecer por eu não divulgar os vídeos ainda.
O rosto dele empalideceu mais. Enzo arqueou uma sobrancelha, satisfeito.
— Querido Gustavo, parece que sua noiva está finalmente descobrindo como usar uma coroa de verdade.
Gustavo tentou se recompor. Pegou as chaves do bolso e sorriu, falso.
— Isso ainda vai te custar caro, Ana.
— Não mais do que estar ao seu lado já custou.
E então ele se foi. A porta bateu. O ar no quarto ficou mais leve — e ao mesmo tempo, mais carregado de tensão.
Ana caminhou até a janela. Mãos na cintura, o corpo inteiro tremendo. Era a vitória… mas com gosto de guerra.
— Você está bem? — Enzo perguntou, agora com a voz baixa, verdadeira.
— Estou… livre. E cansada. E… viva.
Ele se aproximou devagar, como se soubesse que ela ainda processava tudo. Mas quando colocou a mão na cintura dela, o mundo girou. Ela se virou, sem pensar, e o encarou.
— Eu deveria manter distância de você — sussurrou.
— Então mantenha — ele provocou, a voz rouca, os olhos ardendo.
Ela o puxou pela gola do sobretudo e o beijou.
Foi como romper um dique. A tensão acumulada, o medo, o desejo, a raiva — tudo explodiu naquele beijo. Não era suave, nem delicado. Era um beijo de alma rasgada. De libertação. Um beijo que dizia: "eu ainda estou aqui, inteira, apesar de tudo".
Enzo a prensou contra a parede, uma mão na cintura dela, a outra na nuca. Os corpos se encaixaram como se esperassem por aquilo há séculos. Os dedos dele deslizaram pela lateral do corpo dela, apertando com desejo e reverência. O vestido caiu sobre os ombros, escorregando lentamente. Os lábios dele traçaram um caminho pelo pescoço, e Ana arqueou as costas, entregando-se a uma sensação que há muito não sentia: ser tocada por alguém que a desejava por inteiro, sem fingimentos.
Ela gemeu baixo, arrepiada pela mistura de desejo e fúria. Enzo era preciso, mas também faminto. Como se ela fosse tudo o que ele precisava para respirar.
— Você é fogo — ele sussurrou, os olhos nos dela.
— Eu sou o que ele nunca conseguiu apagar.
Enzo a conduziu até a cama com calma, sem pressa. Como quem sabe que a pressa não combina com o tipo de prazer que ela merecia. Deitou-a com delicadeza e subiu sobre ela, os olhos mergulhados nos dela como se quisesse decifrar cada segredo.
Os beijos voltaram com mais intensidade, e quando as roupas caíram, não restou mais nada entre eles além da verdade: ela era uma rainha — e agora sabia disso.
As mãos dele a exploravam como se desenhassem um mapa. Os corpos se uniram em uma dança lenta, profunda. O calor entre eles era mais do que físico — era a junção de dois mundos quebrados encontrando abrigo um no outro. O quarto se encheu de suspiros e promessas não ditas.
Depois, deitados lado a lado, o silêncio era confortável. Enzo traçava círculos invisíveis na pele da cintura dela. Ela mantinha os olhos fechados, absorvendo cada sensação.
— Você não precisa confiar em mim de uma vez — ele disse, a voz baixa. — Mas pode se permitir sentir. Pelo menos isso.
Ana abriu os olhos e o olhou. Havia verdade ali. E uma centelha de medo também. Mas dessa vez… era um medo bom. O medo de recomeçar.
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O sol já tocava o topo dos prédios de Paris quando Ana abriu os olhos. Estava deitada de lado, os lençóis bagunçados, os cabelos soltos sobre o travesseiro. Enzo ainda dormia ao lado, o braço estendido em sua direção, como se mesmo dormindo buscasse o calor dela.
Ela se levantou devagar, puxou o robe e caminhou até a sacada. A cidade seguia seu ritmo, indiferente ao que acontecia ali dentro. Mas Ana estava diferente. Sentia cada célula desperta, cada parte de si mais viva do que nunca.
E então, o celular tocou.
Era sua assessora no Brasil.
— Ana, precisamos de uma resposta urgente para a imprensa. Estão exigindo um posicionamento seu até o meio-dia.
— Organize uma coletiva. Hoje. Aqui em Paris. — Ela disse, sem hesitar.
— Tem certeza?
— Pela primeira vez, sim. Vou falar. Vou mostrar quem realmente sou.
Desligou e se virou para Enzo, que agora a observava com aquele mesmo olhar intenso de antes.
— Vai enfrentá-los?
— Todos. Um por um. E dessa vez… do meu jeito.
Ele sorriu, satisfeito. E Ana também.
Porque naquela manhã, ela não era mais a mulher ao lado de Gustavo.
Ela era Ana Paula.
Inteira. Livre.
E prestes a mostrar ao mundo que uma rainha não se curva. Nunca.