Os raios solares penetraram através de minhas pálpebras, pontuando a claridade para dentro de meus olhos.
Os seixos oblíquos jaziam um calor sólido sobre meus braços descobertos, abraçados sobre um travesseiro da mesma forma que eu costumava abraçar um urso de pelúcia quando pequena. Piscando, me deparei com a cena reluzente pintada de laranja amarelado enquanto me espreguiçava na longa cama de mogno.
Eu estava sozinha em casa.
Era estranho e bizarro. Mas eu sabia.
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Depois que alguns de meus sentidos de Falange foram despertos, me deparei com esse sensor estranho que entregava a presença distinta de seres da mesma raça próximos a mim. Cada um tinha uma presença estranha de fazer sentir, as sensações jaziam como palavras através das mudanças de auras, que segundo Arena, minha co-estrutura-mentora-amiga anciã mais estranha do mundo, era a essência que fluía de cada ser, especialmente os Caminhantes.
A presença de tia Peg era estranhamente seca, áspera e aveludada ao mesmo tempo, carregada de paradigmas e um aroma conflitante de mel com abóbora.
Outra presença muito forte era a de Arbo. Tinha um cheiro almíscado de pimenta e sal, uma sensação comprometedora de um cobertor macio roçando sobre a pele em um dia úmido.
E a mais forte delas, Eron. Um verdadeiro redoma alucinante de sensações controversas. Cheiro de couro e orvalho, se misturando á sensação agridoce do calor do verão e água salgada. As notas olfativas se misturavam entre si, criando uma exuberância sensual de madeira quente. A sensação familiar, mas sempre diferente de ter coisas estranhas e não identificadas correndo pela espinha, parando na nuca e chamuscando os cabelos com um toque progressivo e quente. Como se um sussurro descesse por minha orelha e encontrasse a mesma di reção do pescoço e da nuca.
Era irritante a forma como essa sensação sempre me fazia arquear a coluna, arrepiando toda a extensão de minha pele como se eu fosse apenas um gatinho indefeso com os pelos eriçados.
Eu nunca ia ser exatamente assustadora se continuasse sem conseguir segurar as rédeas de minhas próprias sensações. Eu teria que ter uma longa e exaustiva conversa com minha v*****e própria algum dia.
Mas não havia nada aqui além de mim. Acordando sozinha numa manhã qualquer em Miriad.
Enquanto afastava os cabelos dos olhos e da boca entreaberta, eu forçava minha mente a se recordar dos últimos acontecimentos. Arbo havia escoltado uma carruagem segura até a frente da mansão Hatthwey, e depois de despachar a mim e a tia Peg para dentro, havia sumido novamente em direção á batalha nos Portões, ou fosse lá o que fosse.
Enquanto eu não fosse devidamente treinada, minha regra de ouro número um da lista de coisas a não se fazer enquanto for horrorosamente perigosa
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como um bisquí decorativo, era ficar estritamente longe de situações perigosas. Afinal, eu tinha um traseiro a zelar, mas uma mente muito aflita para dar conta. Minha ligação com Eron havia sido interrompida noite passada, e lembro -me vagamente de ter subido para meu novo suposto quarto, o qual eu nem mesmo havia verificado, como eu certamente faria há alguns meses atrás, esperando por alguma reposta mental ao meu chamado.
Eu me lembrava de haver me jogado na cama, esperando, enquanto tia Peg tentava me obrigar a descer e comer alguma coisa.
Só minha tia se sentaria para comer um peru entupido de tempero verde enquanto o lado de fora da casa estivesse sendo bombardeado.
Mas eu não tive resposta, e me obriguei a deitar e torturar a mim mesma enquanto recriava diversas cenas sangrentas na mente ao tentar imaginar o que diabos poderia estar acontecendo nos Portões. E quando eu estava quase navegando para o meu subconsciente, recebi uma resposta.
Está tudo bem. Nos vemos amanhã.
Mas eu havia estado tão torpe de sono, que não me lembrava de haver respondido alguma coisa. E se havia, sentia o rosto quente apenas ao imaginar o que poderia ter sido.
Ao pensar nisso, me afastei dos lençóis cor de champanhe, apertando os olhos para a decoração do quarto.
Mas que inferno.
Em algum momento minha tia ninja de 400 anos deve ter pensado nisso
tudo.
Era praticamente a mesma decoração de meu quarto em Hawthorne, Califórnia, no mundo terreno. Pisquei sobre a imagem sagrada de meus desenhos colados nas paredes cor de berinjela, me perguntando por que eu ainda guardava aquela tralharia toda. Meu laptop estava em cima da escrivaninha, á baixo de uma janela coberta por uma cortina em tons quentes de roxo, rosa e dégradé. Meus olhos se puxaram para o pequeno criado mudo ao lado da cama, confirmando minhas suspeitas.
Meu celular quase o tempo todo sumido pousado sobre o tampo riscado de canetão.
Ah d***a, eu queria chutar minha tia e beijá-la ao mesmo tempo.
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Arrebatei o aparelho de cima do móvel, agradecendo em silêncio por estar com pelo menos vinte por cento de bateria, visualizando uma mensagem não lida vinda de Ivi.
Deslizei o sensor da tela para desbloquear o aparelho e visualizei a mensagem.
HEY! COMO VAI O PAÍS DAS MARAVILHAS? A CORTE DO TRA-LA-LA-LA JÁ FOI COROADA OU O QUÊ? QUERO VOCÊ AQUI!
Sorri para o visor brilhante, dedilhando uma mensagem qualquer e pensando em minha melhor amiga.
Desde a festa a fantasia da descola, não pude mais conversar com Ivi. Melhores amigas normais geralmente arrumam meios de se falar, mas no nosso caso, as coisas eram mais complicadas. Ivi já havia conhecido uma parcela desse mundo, uma parcela bem amarga pelo que me lembro, e voltar aqui nunca seria uma opção para ela. E como uma Falange, eu precisava ter minha vida em Miriad, ao mesmo tempo em que não conseguia pensar em uma vida fora de Petrópolis.
O sorriso sumiu de meu rosto e o celular foi parar no chão, em cima de um tapete incrivelmente parecido com o familiar tapete persa ruído nas pontas que costumava decorar o chão de meu quarto antes.
Eu sabia que em alguns dias, a Elite de Arena voltaria para a Morada no Rio, e eu iria aproveitar a carona para voltar com eles, quisesse o Conselho ou não.
Acabou não havendo coroação nenhum na noite passada, por culpa de tod a a confusão acerca do suposto ataque aos Portões, mas o Punho estava completo e totalmente no poder. Havia tanta coisa quebrada no caminho para concertar, que eu duvidava que eles fosse se importar sobre onde eu estaria nas próximas semanas.
Ou pelo menos, eu contava com isso.
Joguei as pernas para fora da cama, visualizando a mim mesma. Eu me lembrava vagamente de ter trocado o vestido por uma camiseta do time de basquete do Tigres da GL que havia pertencido a Itham, me perguntando que infernos ela fazia em Miriad.
Mas ela já não ficava tão grande em mim, considerando que quase metade de meu bumbum ficava á mostra. Eu não notara o momento em que havia acontecido, mas de alguma forma, ao longo do tempo, eu esticara como uma
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cenoura. Minhas pernas estavam levemente mais compridas, os braços seguiam a mesma tendência, e meu tronco, mais fino e inflado ao mesmo tempo. Corei ao relembrar das curvas que se revelaram noite passada sob o tecido revelador do vestido, pensando no quanto eu estava perdendo sobre mim mesma. Uma vez, Arbo dissera que nossa raça tinha a igual tendência de crescer mais que os Terrenos. Eu nunca havia realmente reparado que tipo de estrutura eu costumava ter, mas podia dizer com certeza que ela estava mudando.
A surpresa em meu roupeiro não me sobressaltou. Eu sabia que algumas das minhas roupas estariam ali, o que foi um alívio, já que pude me enfiar em um shorts que fazia dupla de pijama com algum top perdido e me livrar da necessidade de seguir usando as roupas da irmã de Arbo.
O banheiro também tinha suas surpresas agradáveis.
Escova dentes, creme dental de uma marca barata, desfrisante para os cachos e uma escova de cabelos.
Caramba. Minha tia era realmente boa nessa de planejar coisas que minha sobrinha otária n******e saber.
Depois de me alongar alguns minutos diante do espelho, e retirar o que sobrara da maquiagem borrada da noite passada, me senti quase viva. A sombra preta e dourada havia se infiltrado de maneira grotesca nos poros do rosto á baixo dos olhos e nos contornos das pálpebras, e quando somado ao fator de meus cabelos não cooperarem com as cerdas da escova... bem, eu poderia dizer que minha expressão estava meio... selvagem.
Desde que a loucura toda começara, não tive muitos momentos para cuidar das necessidades básicas de uma garota, e duvidava que fosse ter muitos quando precisasse decorar movimentos mortais com uma lâmina afiada.
Eu sabia que não podia simplesmente sair assim por Miriad, mas não tencionava sair enquanto minha tia não chegasse e esclarecesse a porcaria toda que acontecera durante a cerimônia.
Tia Peg era o tipo de pessoa que sempre estava fazendo alguma coisa. Coisas escondidas de mim, devo ressaltar. O que a fazia muito feliz. Então, estava tudo bem.