Ela tirou o pirulito vermelho da boca.
Que palavra, maninha? “ b***a”? ― ela sorriu, se jogando no assento ao meu lado ― b***a, b***a, b***a!!!
Eu lhe mostrei um punho fechado.
Okay, Arbo: eu mudei de opinião. Ela é toda sua!
Hanna anuiu um resmungo enquanto voltava a enfiar seu pirulito na boca, se ajeitando no estofado macio enquanto cruzava os três metros de pernas em cima da mesa de centro.
Mudei de ideia. Talvez amassos não resolvam problemas de irritação feminina e TPM. Seu namorado esteve aqui, quase botou fogo na casa enquanto vocês faziam alguma coisa, e você ainda está irritada...
Arbo jogou um pacote de salgadinho na cabeça de Hanna, se sentando ao lado de Dublemore quase ao mesmo tempo.
Em primeiro lugar: que nojo. ― Arbo tiritou em direção a Hanna, afastando seus pés do precioso encadernado da mesa de centro e ganhando um olhar furioso da cabeça de Fuinha em troca. ― Em segundo lugar: não fale de s**o quando eu estiver no mesmo ambiente que você . E em terceiro lugar: comece a falar, tipo, que d***a você está fazendo aqui, e concentre em utilizar um bom emprego de palavras nos seus argumentos antes que eu te chute até a sexta avenida... sou o que você pode considerar uma pessoa decididamente seletiva no uso adequado do português. Ou do Funhês, que seja.
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Não consegui segurar o riso enquanto Hanna lhe enviava um olhar interrogativo.
Funhês?
Arbo dispensou a pergunta com um gesto de mãos.
― Longa história. Desembuche.
Hanna me enviou um olhar consternado.
Você devia me dar pelo menos um voto de confiança.
O que eu devia, era tornar relativamente mais íntima a proximidade de sua cabeça com o seu ra...-
Tudo bem! ― Arbo me cortou, erguendo uma mão ― Nada de comentários depreciativos enquanto estivermos tentando nos entender aqui.
Rolei os olhos.
Não consigo evitá-los quando Hanna Winchester está por perto. Está na ordem sísmica do universo. Quem sou eu para quebrar a ordem natural das coisas?
Edra me enviou um olhar engraçado.
Na teoria, você é uma Natural Elementar...
Eu voltei a rolar os olhos.
Eu quis dizer não literalmente. E eu ainda estou bloqueada, então, na teoria, é como se eu não fosse.
Você ainda está bloqueada!? ― Hanna se intrometeu, abrindo o pacote de salgadinho que tinha alçado voo em sua cabeça de fuinha ―
Então como diabos conseguiu assassinar a espinhenta?
Não é da sua conta! ― eu tomei o pacote de salgadinho de sua mão ― E pare de ser nojenta! Quem é que consegue c****r pirulito e comer salgadinho ao mesmo tempo?
Ela voltou a me tomar os salgadinhos.
Não me subestime, maninha. Eu sou incrivelmente aquela pessoa habilidosa que consegue assoviar e c****r cana.
Arbo jogou outro pacote nela.
Okay, espero que também consiga conceder explicações descentes ao mesmo tempo, porque eu ainda estou esperando e a ponta de meu pé está coçando. E esse salgadinho é de cebola. Eve tem razão: cebola não combina com morango nem em outra vida! Qual é o seu problema? Quero dizer, fora esse seu corte de cabelo h******l?
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Pela primeira vez desde que chegara, Hanna se mostrou nervosa.
Qual é? Vocês nem mesmo me conhecem e me tratam como se eu fosse uma vereadora corrupta que deixou seus filhos sem leite no inverno.
Eu não tenho filhos. ― Arbo tiritou.
Você! ― Hanna enviou um dedo indicador e ameaçador de Fuinha em direção a Arbo ― Você já me jogou pelas escadarias da GL uma vez. Isso não é o suficiente para você?
Não.
Então que diabos eu tenho que fazer para ser tratada como alguém
aqui?
Morra.
Hanna se afundou no assento, e tudo que eu pude fazer, foi ter pena. d***a. Eu verdadeiramente estava com pena da fuinha. Ter algum debate com Arbo, a tempestade, fosse da espécie que fosse, não era agradável. Arbo não era uma pessoa tão fácil de se dobrar, o que me fazia imaginar que eu havia tido muita sorte por ela ter gostado de mim logo de cara. Quem sabe apenas porque eu fosse a única garota com a qual ela pudesse ter uma interação normal.
Hanna... ― eu comecei ― Facilite as coisas para você e apenas explique como conseguiu chegar até aqui. E por favor, sem comentários sarcásticos, ou eu não me responsabilizo por você acabar dentro do latão de lixo até o fim da tarde.
Ela se silenciou por um tempo, parecendo analisar suas opiniões quanto todos os olhos recaíam sobre ela.
Por fim, ela exalou.
Sua tia... acha que eu devo estar aqui.
Levei alguns minutos para entender o que Hanna poderia estar querendo dizer com aquilo, e as dúvidas se somavam às certezas de forma dolorosa.
Como assim? ― eu me precipitei ― Quer dizer que você não está aqui por v*****e própria?
Não foi isso que eu disse. ― Hanna interpôs ― Quero dizer, em partes. Eu quero estar aqui, realmente quero, acreditem vocês ou não. Depois de conhecer o objetivo real das escoltas de Falanges Guerreiras sendo treinadas para... bem você sabe, eu simplesmente me fascinei, como
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se de repente, estivesse conhecendo meu lugar no mundo, encontrando meu berço de origem, algo que eu sempre almejei mesmo sem saber do que pudesse se tratar. Mas eu também sou uma Falange Conjuradora, e sua tia acha que algo em mim possa ser útil para... ― ela suspirou, deixando os salgadinhos de lado e esboçando uma careta, a linha reta que seus cabelos criavam ao redor do rosto balançando como que atingidas pela correnteza branda do vento ― Escute, eu não tenho certeza absoluta sobre o que sua tia acha que está fazendo, mas ela está claramente desesperada, certo , Eve’s? Pode parecer loucura, mas ela sabe de alguma coisa. Alguma coisa que está vindo, tomando formas e ameaçando engolir tudo dentro de um grande buraco n***o.
Eu não era capaz de conter minhas próprias palavras, porque um ardor mudo me corroía de dentro para fora, enviando fisgadas de reconhecimento e concordância por todos os lugares de meu corpo.
Mas Edra foi mais rápida que eu.
Ela tem razão. ― ela afirmou, para espanto geral ― Essa garota, ela tem toda razão. Mamãe vem tendo visões, pressentindo coisas. Mas ela não sabe dizer ao certo o que pode ser.
E a tia maluca de Eve acha que essa outra maluca pode ajudar de alguma forma!? ― Arbo arregalou bem seus olhos, descansando as costas no encosto macio do estofado ― Oh, Deus! Quando foi que a loucura se tornou o lema principal de nosso mundo?
O que mais tia Peg lhe disse? ― eu perguntei, dentes trincados, olhos fixos no nada vazio a minha frente, odiando o fato de tia Peg conseguir esconder tantas coisas de mim em um espaço tão curto de tempo mesmo depois de tudo que havia acontecido.
Hanna deu de ombros.
Se você quer mesmo saber, eu também acho que sua tia é maluca. Eu não entendi nada do que ela quis dizer, mas o fato é que ela me aceitou aqui porque ela me quer aqui.
Eu grunhi, tanto de frustração quanto de melancolia.
Pare de dizer “sua” tia. Esqueceu que da forma mais i****a possível, ela também é sua? E que parece estar mais receptiva a conceder informações a você do que a mim!? Porque eu estou na sombra? Porque todos parecem estar tentando me esconder o que está para acontecer?