Quarta Peça

1468 Palavras
Pela primeira vez, Dublemore ergueu os olhos. Porque talvez a prejudicada seja você. ― ela murmurou, enviando incontáveis informações flamejantes de mau agouro por minhas veias, especialmente ao baixar os olhos cor de gelo para o avolumado velho em cima da mesinha ― E algo me diz que isso não diz respeito apenas à você, mas a mais três pessoas. Minha mente rodopiou, as palavras da Esfera ecoando em minha cabeça. “Você é a quarta peça, Evangeline. Minha obra prima... meu propósito final”. Meus olhos também desceram até a biografia. E você concluiu que as outras peças são... pessoas? Dublemore assentiu. ― E que Evangeline pode muito bem ser uma delas. Meu coração trotou dentro do peito, o silvo pesado escapando de meus lábios em forma de protesto. Com a decisão formada na mente, meu braço se esticou, meus dedos alcançando o livro, e no mesmo instante, meu mundo se partiu. Minha órbita se inverteu, e a angústia se intrincou no mais profundo de meus ossos, vertendo do objeto em forma de dedos gelados e subindo por meus braços, encontrando meu rosto e se fundindo em algum ponto crucial dentro de mim. Eu estava queimando, rasgando, quebrando. Eu era apenas meia parte de mim mesma, vendo o mundo por de trás de uma grossa lente de vidro em chamas. Então, de uma forma esquisita, eu entendi. A dor, a mais profunda dor. A de parecer ter perdido algo essencial para se respirar... mas não era meu pulmão que parecia arder e queimar... mais meu coração. Entendi as lágrimas, a dor saturada por de trás delas, tão profunda, que fizeram meus dentes rangerem, um acúmulo de palavras se soltando em minha mente enquanto meu coração parecia estar rasgando o peito. “ Jazer e arder”, “Eu queimarei de volta”, “A vida e morte se extingue”, “Nem céu, nem inferno”, “É uma lâmina de dois fios”, “Nascer, amar e morrer”, “A vida e morte se extingue”... 92 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. “E então, o amor, que destrói, e arrasa tudo em seu caminho. Corações que sangram, e destruídos são... é um furacão sem vento o amor; apenas destruição...”. “Nascer, amar, morrer, renascer, girar, voltar; queimar...”. NÃO! ― o grito rouco rasgou a sala de uma extremidade a outra, fragmentando o ar e ferindo meus ouvidos. Demorei um pouco a perceber que era o meu, as palavras de Zórem flutuando por meus pensamentos enquanto o brasido em meu peito se acalmava. “Cuide bem de seu coração, Eveline.., sem ele, você vai descobrir que não vale a pena viver...”. Meus olhos voltaram ao foco, como se minhas córneas tivessem decidido cooperar de repente, e as chamas sumiram, a dor, as lágrimas, as palavras, tudo... eu estava oca. Arbo estava reclinada acima de mim, o livro em sua mão, o mantendo o mais longe de mim enquanto seus olhos arregalados investigavam meu semblante. Pela deusa, Eve! ― ela tiritou quando percebeu que eu estava à ativa novamente. ― Só... fique longe dessa coisa satânica. Eu tive certeza que você iria diluir numa poça de Eveline... você meio que... pareceu derreter, seus olhos ficando brancos ao girarem nas órbitas... ― ela encarou o livro em sua mão ― Que espécie de m***a é essa? Uma espécie de m***a mágica, pelo que vejo... ― Hanna disse, franzindo o cenho ― E alguma espécie de m***a mágica de ligação. Se vocês ainda duvidavam que essas duas estivessem ligadas de alguma forma, espere que isso soe como uma resposta. Arbo lhe enviou um olhar impiedoso. O que seu traseiro entendeu sobre isso? Edra se precipitou à frente: ― Deus, Eve! O que você sentiu? Por um momento, eu só consegui respirar, como se sentisse falta do gosto do oxigênio preenchendo os pulmões, me tornando inteira mais uma vez... me tornando eu novamente. Eu... eu... meus Deus... ― eu passei as mãos pelo rosto, nunca parecendo tão satisfeita por seu eu, e não alguém preso naquele universo constante de dor e agonia... ― Eu... eu quase acho que me senti no inferno. 93 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. Uma dor... não física, mas que também se impregnou em meus músculos ao mesmo tempo... na mente, em cada parte de mim. Eu estava... atormentada, como se meu coração estivesse rasgando meu peito e grunhindo de dor. Eu sei, sei que isso parece b***a e poético demais, mais foi exatamente o que eu senti. Me senti... ardendo dentro da dor, se é que isto possa ser possível... Havia requisício de lágrimas em meus olhos, pois eu os sentia úmidos contra as pálpebras, e Edra pareceu captar cada pequeno sentimento por de trás de minhas palavras, seus olhos terrosos se tornando maiores e recaindo sobre o livro nas mãos de Arbo. Edra levou as mãos à boca. Querida deusa... o que aconteceu com Evangeline a ponto de machucá-la de forma tão profunda? Eu já não queria mais saber. Com a garganta seca, percebi que talvez fosse melhor se eu apenas... esquecesse. Qualquer coisa me parecia mais viável, menos sentir aquela crosta sangrenta de sentimentos mais uma vez. Aquilo acabaria comigo se houvesse uma segunda rodada. Me deixe ver isso... ― Hanna pediu, estendendo uma mão, e Arbo só a encarou como se Hanna estivesse lhe esticando uma cobra. Arbo... ― Edra repetiu suavemente ― Ela é uma conjuradora. Yeah... ― Hanna assentiu ― O que quer dizer que merdas mágicas são comigo mesma... A contra gosto, Arbo lhe passou o livro, e Hanna comprimiu os lábios numa careta desagradável ao correr as mãos pela capa rústica do objeto enegrecido. Ela exalou profundamente, parecendo captar algo invisível aos olhos. Isso é... Deus! ― ela se arrepiou, me enviando um ol har congelado ― Seja lá o que for que aconteceu com essa tal de Evangeline, reze à todos os céus que o mesmo não aconteça com você. Isso é quase como um... ranger de dentes. O sofrimento do Hades! Eu notei isso... ― eu esfoleguei, massageando o peito na esperança de me livrar das últimas sequelas daquela gaiola ardente. Eu estou bem... eu sou Eveline... eu estou legal... eu estou legal... Hanna arfou, uma palma de cada lado do livro, e depois de fechar os olhos por alguns segundos, observei boquiaberta quando uma camada 94 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. esverdeada de luz rodeou as mesmas, contornando o livro e o selando em uma bolha luminosa e incandescente que rapidamente que me lembraram a uma única coisa: os olhos de Eron, e a recordação abriu caminho por meu receios, cortando meu coração numa pontada dolorosa de... necessidade. Engoli. Hanna finalmente abriu seus olhos, que pareciam levemente mais escuros, e a luz se extinguiu. Esse livro parece... um coração ferido, que se fechou. Está carregado de feitiços de p******o, como um coração estaria, mas acho que consegui eliminá-los... ― ela me estendeu o livro ― Talvez... você pudesse tentar novamente. Arbo chiou. Eu não sei se essa seria uma boa... Tudo bem... ― eu tremi, minha voz se quebrando num suspiro ao alcançar a peça com os dedos. Era um dever, e todo dever é um dever. Doloroso ou não. Mas para minha surpresa, dessa vez, o toque era apenas gelado, como uma crosta de lava vulcânica que se gelara ao redor da capa, amortecendo ligeiramente a ponta de meus dedos. Com as esperanças renovadas, estiquei o único elástico desgastado que rodeava o livro, o abrindo logo em seguida, meus olhos indo de encontro às páginas machadas de gordura, amareladas e opacas, velhas e mofadas. E meu queixo caiu. De decepção. Ressabiada e perplexa, folheei o livro avidamente, não conseguindo acreditar no que meus olhos registravam. Mas... isso é impossível! ― eu gaguejei, sob os olhares espantados caídos em mim ― Isso simplesmente... está em branco! Nem uma única palavra! Nada! O olhar de Arbo rapidamente foi para Hanna. O que é isso agora? Você o quebrou!? Hanna se encolheu, lhe enviando um olhar inocente e ao mesmo tempo irritado. Como diabos eu iria quebrar um livro? Eu apenas eliminei seus feitiços de p******o! 95 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. E mais todas as letras junto com ele, ao que parece... Ela rolou os olhos. Não seja ridícula. ― Hanna se virou em minha direção, implorando com o olhar para que eu acreditasse nela ― Eu juro, Eve’s! Tem mais uma coisa também: foi a própria Evangeline que enfeitiçou isso. Talvez seja por isso que Zórem não quisesse que você pusesse as mãos nele: porque talvez soubesse que só você conseguiria descobrir o segredo. Isso é óbvio. Mas... porque eu? Como ela saberia?
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR