Ligações

2072 Palavras
Sim. ― Arena concordou ― Muito bem, Edra. Informações muito precisas. Os Órganons haviam sido a maior criação das Trevas na aniquilação da Luz... na época, até uma Grande Competição foi realizada, visando escolher os melhores Guerreiros de nosso mundo para proteger o Grande Punho, já que parecia não haver uma forma muito fácil de aniquilar tais criaturas , e que a alvo óbvio era Miriad... ― os olhos de Arena se dirigiram rapidamente a mim antes de engolir em seco. ― Até Evangeline Hatthwey chegar. Meu coração pulou, fazendo malabares dentro do peito até eu encontrar a voz dentro de mim novamente e torcê-la para fora num gemido estrangulado. O que... o que Evangeline fez? Eu queria ouvir a resposta, e ao mesmo tempo não queria. Tudo relacionado a Evangeline fazia meu coração se retorcer como se estivesse sendo esmagado. Ao mesmo tempo que me sentia corajosa e desejava enfrentar isso, eu também me sentia desfalecer, querendo me esconder do futuro. Eu estava dividida, como se uma parte incerta de mim meio que já soubesse o que iria acontecer. E isso estava me deixando maluca. Ela descobriu que sua espada era a única capaz de atravessar a pele das criaturas completamente. Na época houveram revoltas, viagens e buscas de informações acerca de tal espada e do material do qual era formada, e então, foi descoberto uma matéria especial, uma espécie de ouro frio misturado a detritos de cometas revestindo o aço da mesma, e depois, mais armas contendo a mistura foram encontradas, como nas armas da família Fightwade, descendente do Punho da época. Mas a matéria pura, em si, estava contida na lâmina de Evangeline, a espada denominada Élesmer. Meus olhos quase saltaram das órbitas. Mas esta... é a Espada do Julgamento! Meu Deus! Zórem quase me matou com essa espada! E... ― minha voz falhou na próxima afirmação ― E eu 104 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. ainda me lembro da forma como o punho da espada voou para mim quando a chamei pelo nome, no momento de possessão da Esfera. Arena concordou com um suspiro, como se soubesse que em algum momento, eu iria ter que descobrir isso. Tia Peg apenas gemeu, ainda em silêncio. Eu sei, e suponho que isto se deva à sua ligação estranha com Evangeline. Não sabemos como a a**a foi parar nas mãos dela. Sabemos apenas que Élesmer é a própria espada da deusa Têmis. Segundo a lenda, a própria deusa teria encomendado o forjo da espada à deusa Ísis, que teria acesso às chamas do Tártaro. O aço da espada tem uma fonte desconhecida até aí, e depois, foi concedida aos caminhantes como a Espada da Justiça, ou Élesmer, que significa Forjada nas Chamas. Hoje, ela se encontra em posse do Punho, onde é o seu devido lugar. Por algum motivo, isso não me pareceu correto. Se Élesmer estava nas mãos de Evangeline, deveria haver algum motivo para isso. Eu já havia aprendido o suficiente para saber que coisas incomuns não aconteciam por acaso, e que Hanna até que conseguia ficar quieta quando era esquecida. Tudo bem... ― suspirei, ainda tentando me achar ― Então, suponho que depois dessa grande descoberta, a tal raça de Órganons foi vencida. Sim. ― Arena concordou com outro gesto ameno de queixo. ― E como pode prever, as experiências foram falidas, forçando as duas Casas, tanto das Trevas quanto da Luz a perceberam que o aço de Élesmer e as demais armas que foram forjadas depois poderiam cortar qualquer Falange das Trevas que ousasse repetir o rito. “Se pois, lembra-te: as chamas consomem”. Oh Deus... as peças estavam começando a se encaixar, e eu imediatamente não gostei do rumo incerto daquela explicação, porque me parecia perverso demais. O caminho estava sendo tracejado, e o final da trilha era óbvio demais para ser ignorao. Então... já que Falanges não são refratárias ao poder do aço das armas... Foi tia Peg quem suspirou dessa vez. Nós achamos que agora eles estão tentando transformar humanos. Pégasus, já falamos sobre isso. Nós não temos como ter certeza. ― Arena replicou. E isso é infundável... ― eu murmurei perplexa ― São simples humanos, completamente mais fracos que nós! ― me assustei depois de verter a 105 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. frase, sem conseguir deixar de notar que agora, a palavra humanos saía amarga de minha boca, como se fosse uma raça que eu conhecera num tempo distante demais para ser lembrado. Tia Peg me enviou um olhar estranho. É para isso que servem as experiências, Eve: aprimorações. E não há nada que me pareça mais óbvio que isso: os humanos não foram feitos para serem feridos pelo poder das espadas da deusa, e sim protegidos, e isso os tornaria letais caso alguma transformação desse certo, porque estaríamos, de certa forma, desarmados contra eles. Arena bufou. Eu não sei... mas ainda me n**o a pensar nisso. Os assassinatos... devem significar outra coisa. Por quê? Você parece ter muita certeza disso. ― eu forcei entrada pelo argumento de Arena, encontrando as falhas e os buracos entre as lacunas de sua firmação, e minha resposta foi um olhar atormentado que tia Peg lhe enviou, como se implorasse que Arena mantivesse sua boca fechada. ― Arena, por que você está tão certa de que o alvo das Trevas não seria transformar os humanos e criar um exército? Ela suspirou, pela primeira vez se deixando cair num dos estofados e analisando meu olhar, parecendo procurar por algo ali. Por que a forma usada, o rito para transformar Falanges em Órganons, era quase a mesma para criar Renegados Celestes, com pequenos desvarios na equação. Não sabemos ao certo quem o descobriu, mas é certo que há muito tempo, apenas uma última pessoa sabia do segredo. A saliva desceu áspera por minha garganta, que se apertou quase ao nível de obstruir a passagem de ar de meus pulmões. A tontura acometeu meus sentidos, mas resisti firme enquanto seguia o rumo que Arena estava me forçando a seguir. Hera. Quando o nome tropeçou de minha boca, todos os ruídos na sala cessaram. Hera Hatthwey, minha mãe de sangue. Era a Rainha do Horror dos piores contos de terror de Miriad, a tirana que havia traído sua família e seus irmãos por ser das trevas. Sua morte fora muito mais que uma bênção divina. E agora Arena estava supondo que... 106 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. Não... ― eu afirmei nostalgicamente enquanto minha cabeça balançava de forma furtiva, quase inconsciente. ― Não... mas n******e ser! Hera está morta! Arena concordou. Exatamente. Vê porque eu acho que esta não poderia ser a causa dos assassinatos? Eu pisquei, tentando pôr os mecanismos do meu cérebro para trabalhar, mas minhas células cinzentas pareciam ter escapado pelas orelhas. Mas... mas... ela talvez pudesse ter passado o segredo para alguém. Você não conhecia Hera Hatthwey, meu bem! Mas de uma forma ou de outra, Hera prometeu voltar, não foi? ― Arbo foi quem soltou o lembrete que ninguém queria soltar, porque geralmente, essa parte da história sempre cabia a ela. Era seu dever dizer coisas que ninguém mais se sentia corajoso o suficiente para dizer. E então, a ficha caiu, no mesmo instante em que eu pulei do sofá inconscientemente. Vocês não estão tentando supor que eu... não! ― eu ralhei, pega de surpresa. ― É claro que não! Eu sou Predecessora de Evangeline Hatthwey, não de Hera! Arena desviou os olhos. Eu sei querida, e por mais que você esteja ligada a Evangeline de uma forma inegável, também é incontestável a ligação que você tem com sua mã... quero dizer, com Hera. Lembre-se que foi por isso que sua Tia se obrigou a fazer tudo que fez. Hanna se encolheu no assento, e eu quase tive pena dela ao considerar a situação. As lágrimas invadiram meus olhos antes que eu pudesse me dar conta. Céus! Já não bastava o futuro incerto e provavelmente terrível que me aguardava por ser Predecessora de Evangeline, ainda teria que lidar com uma possível ligação com minha mãe!? Quantas vezes eu fui amaldiçoada? Com quantas maldições terei que lidar ainda!? ― eu quase gritei, sentindo minhas palavras atravessarem o peito de tia Peg e fazerem estragos permanentes em seu interior. 107 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. Nada está certo ainda, Eve... ― Arena se levantou, apaziguando ambiente como ela sempre fazia quando usava aquele tom de voz. ― Tudo está muito confuso agora, e até minha mente Erudita se encontra fazendo voltas e mais voltas em torno dela mesma enquanto tenta achar uma solução. Eu também havia aprendido o suficiente para saber que quando Arena não sabia de algo, as coisas costumavam não acabar muito bem. Por hora, precisamos nos preparar para o que está vindo. ― Arena voltou a tomar posse da palavra ― Amanhã mesmo, se m falta, você e Yohanna iniciam os treinamentos, e eu Pégasus, nos encarregaremos de levar o caso ao Punho. ― ela finalmente cedeu ― E, querida deusa! Só espero que eu acabe não me arrependendo disso mais tarde. De todas as formas, não podemos ficar de braços cruzados enquanto as Trevas dão passos e mais passos à frente em vantagem. Eu assenti, tremula, me perguntando o que tudo aquilo poderia significar. E as estatísticas apontavam que não era nada, nada bom. Mas eu sabia que dificilmente alguma coisa ia ser boa daquele momento em diante. Meu nascimento havia demarcado a era nebulosa na facção da Luz. Eu era a pedra no caminho. Sim, infelizmente eu vou ter que concordar com sua tia biruta, Eve! São assassinatos muito parecidos e estranhos demais para mente humana quase sã do mundo terreno. Isso só pode ser obra das mentes insanas do seu mundo. ― Ivi falava do outro lado do telefone, respirando ofegante em meio ao que parecia ser uma corrida. Eu quase podia vê-la correndo pelas calçadas com uma pilha de cadernos nos braços, onde eram resenhadas suas preciosas colunas para o jornal da 108 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. escola. E é claro que eu não poderia ter um contato melhor com o mundo terreno. Minha melhor amiga era uma jornalista, e isso era quase bom demais para ser verdade. Seu eu precisava de alguém policiando o mundo terreno, esse alguém era Ivi. Eu quase a via como uma Falange Jornalista/Investigadora. Mas era estranha a forma como de repente tudo se invertera entre nós duas, ou a forma como ela passara a falar “seu mundo” em meio a frases tão simplórias, como se essa fosse a coisa mais natural a se fazer. Ultimamente, eu também vinha falando humanos como se nunca tivesse sido uma um dia, e isso era apavorante. Certo, ― eu apenas concordei, baixando o fogo da frigideira de bacons enquanto Hanna brincava de procurar canais na sala. d***a, eu sentia falta de tia Peg fazendo o almoço para mim, ou de tia Peg me obrigando a comer metade do que estava na geladeira antes de se certificar se meu estômago aguentaria ou não. ― Mas ainda assim, eu quero que você me mantenha informada. Qualquer coisa incomum que aconteça, você me liga imediatamente, tudo bem? Claro! Meu Deus, como se eu não fizesse isso o tempo todo! Da ú ltima vez que te liguei foi apenas para informar que havia dissecado um sapo! Quero dizer, claro que eu achei uma coisa absolutamente comum. Afinal de contas, foi o meu primeiro sapo dissecado, e isso conta quase como um primeiro beijo! E... e oh! Eu me esqueci de dizer! Itham tem andando meio m*l ultimamente também, eu não sei... Eu parei de fazer o que estava fazendo ao mesmo tempo em que a cabeleira loira de Hanna Winchester brilhou na entrada da cozinha, um olhar assombrado tomando seu rosto. O que houve com Itham!? Claro, você e sua audição aguçada de Fuinha! O quê!? ― Ivi perguntou do outro lado. Eu só estava falando com a minha querida irmã, Ivi, nada demais. ― eu tiritei, feliz por já ter posto Ivi a par dos fatos, inclusive de Hanna. Oh, aquela Cabeça de Fuinha está aí? Faça-me o favor de dizer a ela que da próxima vez que nos virmos, eu vou dissecá -la! Isso aí Eve: conte a ela sobre minha experiência com sapos! Não deve ser tão diferente em Fuinhas mutantes oxigenadas. 109
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