Ei, eu ouvi isso! ― Hanna grunhiu.
Problema seu! ― Ivi murmurou do outro lado, e eu quase pude vê -la gritando no meio da rua quando ouvi uma buzinada do outro lado do telefone, seguida de um gritinho dela ― EI, SEU b****a! OLHE POR ONDE ANDA!
O FATO DE EU ESTAR PARADA NO MEIO DA RUA NÃO SIGNIFICA QUE VOCÊ PODE PASSAR POR CIMA DE MIM! CUIDADO! EU SEI DISSECAR
SAPOS! ― ela gritou, baixando a voz logo em seguida ― Desculpe, Eve. O que você estava dizendo mesmo? Fuinhas? Sapos? Girinos? Meu Deus! Já nem me lembro mais!
Foi inevitável não rir. Ivi seria uma a**a infalível numa Elite de Falanges Guerreiras. E isso me fez pensar que ela estava lá fora, suspensa a qualquer perigo que rondasse o mundo terreno. Meus olhos imediatamente se umedeceram e minha garganta se afunilou ao supor que ela poderia ser o próximo corpo encontrado sem o coração...
Meu Deus! Não! Eu ia aprender a lutar como uma maluca e voltar o quanto antes. Antes que qualquer fatalidade acontecesse! Eu tinha que fazer algo, qualquer coisa que me fizesse parar de me sentir tão inútil, tagarelando do outro lado de um telefone enquanto fritava bacons.
Itham, Ivi. Você estava me dizendo o que houve com ele.
Oh, sim. Não é nada demais, para falar a verdade. Acho que ele anda só meio doente, você sabe. Ele teve um pouco de febre essa noite, mas se negou a ir até o hospital. Achei que pudesse ter sido um resfriado, mas aí li sobre mosquitos contagiados espalhando um rota vírus h******l pelo Brasil! Já imaginou? Meu Deus! Você acha possível ele ter sido mordido por um mosquito? Pense nas possibilidades! Se for algum mosquito mutante, Itham se transformaria num... Homem-Mosquito!? Céus! Não seria tão estranho ser parte mosquito ao considerar que vocês são parte estrelas! Isso completamente daria uma matéria! Eu precisava de você aqui, Eve! ― ela choramingou ― Não estou conseguindo encontrar temas o suficiente interessantes para enfiar nas páginas do jornal! E agora que a Fuinha está em Miriad passando umas férias, estou esporadicamente perdida! Qual a graça de escrever m*l sobre ela quando ela nem está aqui! HANNA, ESTÁ ME OUVINDO? VOLTE IMEDIATAMENTE!
Hanna revirou os olhos, girando sobre os calcanhares e voltando para a
sala.
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Certo, Ivi... ― eu esbocei uma careta enquanto transferia os bacons para uma tigela de vidro revestida com papel toalha ― Escreva sobre homens mosquitos, mas lembre-se de ficar de olho em Itham! Se ele piorar, arraste-o para um pronto socorro, mas faça alguma coisa!
Ela gemeu do outro lado.
É um resfriado, Eve! Não uma tentativa de arrancar seu coração batendo do peito. Nossa... não acredito que acabei de dizer isso como se estivesse escolhendo o sabor do sorvete... ― ela suspirou, e quase pude ver sua expressão se tornando séria na próxima frase, quando sua voz tremeu próxima ao microfone do aparelho ― Ainda não teve nenhuma notícia de... você sabe...
sua mãe e Layan?
Ignorei a pontada dolorosa no peito ao mergulhar no assunto.
Ás vezes eu me pego torcendo para que ainda estejam vivos... ninguém conseguiu arrancar nada de Jade ainda, até onde eu sei... e saber que ele está tão calmo mesmo estando no coração da fortaleza inimiga me faz querer gritar. Não temos como saber o que ele está planejando. ― eu admiti, depositando a grande tigela em cima da mesa e firmando o quadril na beirada de madeira ― Eu só quero me tornar logo algo que seja mais do que um peso morto e ajudar de alguma forma... ainda hoje eu pretendia visitar uma pessoa que poderia me ajudar com o bloqueio e...
Parei onde estava ao me dar conta do fato, meus olhos deslizando para o relógio na parede de forma automática. Quase a tarde toda já havia se passado e nada de Eron! Prendi a respiração ao notar algo incômodo no peito, como se uma porta lá dentro estivesse fechada, ou como se algum ruído familiar tivesse cessado. Foi então que me dei conta: minha ligação. Aquela coisa vital que eu sentia com Eron estava... muda?
Senti meus batimentos, mergulhando para dentro de mim mesma e experimentando o gosto de meu desespero, fazendo uma tentativa logo em seguida:
Eron?
Não houve nada. Eron, você está aí?
Um pressentimento estranho verteu de minhas veias, se impregnando a todos os meus pensamentos legíveis, e minha fonte passou a palpitar quando minha boca se secou.
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Eve? Ooooiii? Você ainda está aí? Caramba, eu vou odiar se você tiver derrubado esse maldito telefone na privada. Você sabe disso não sabe?
Me recuperei de meu transe, dando meu melhor para não deixar transparecer meu equívoco em minha voz.
Ham, estou aqui, desculpe... é que eu estava lembrando que preciso...
falar com Ilínea... eu acho.
Você acha? ― Ivi replicou, mas cedeu, por fim ― Tudo bem... só não deixe de me ligar. Assim que tirarem qualquer coisa daquele Jade maluco, eu quero ter o privilégio de ser a primeira humana a saber, está bem?
Claro... ― eu concordei meio zonza, e mesmo depois da ligação ter sido encerrada, permaneci com o telefone grudado na orelha, fitando os bacons a minha frente com a respiração acelerada, repassando todos os acontecimentos do dia e tentando encontrar um possível erro em tudo.
Eron poderia estar... irritado?
Não... ele só encerrava nossa ligação quando não queria que eu soubesse de alguma coisa, ou quando...
Calma, Eve! ― eu ralhei comigo mesma, tentando apaziguar meus hormônios e tentando realocar minhas ideias. Tudo bem, nada com o que se preocupar. Eron deveria ter... se esquecido. Devia estar fazendo algo que o impedira de vir... talvez ele chegasse a qualquer momento, inclusive.
Depois de alimentar Hanna, perambulei pela casa, esperando e sentindo o coração se apertar a cada minuto a mais, seguindo o ponteiro do relógio com os olhos esbugalhados enquanto o sol ia enfraquecendo cada vez mais e sumindo numa linha interjacente no horizonte cheio de colinas de Miriad. E quando a estampa quase imperceptível das duas luas se acentuou por de trás das nuvens grossas e acinzentadas, eu soube que logo tia Peg estaria em casa, e logo minhas oportunidades de sair estariam zeradas.
Depois de tomar a decisão mentalmente, subi trocar de roupa, apelando pelas roupas escuras dos Guerreiros e guardando o celular no bolso, parando apreensiva na porta da sala logo em seguida, com os lábios secos e os olhos presos na figura brilhante de Hanna no sofá, que era envolvida pelas ondas faiscantes de brilho que vertiam do plasma da TV.
Ela demorou um tempo para perceber minha presença, e quando fez, verificou minhas roupas, erguendo uma sobrancelha.
Onde você vai?
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Eu dei de ombros, tentando esconder minha apreensão.
Como faço para Herman me levar a algum lugar... ou até alguém?