O caminho era tortuoso e cheio de pedregulhos soltos que me faziam tropeçar a cada passo dado, me fazendo perguntar interiormente se havia sido uma boa ideia sair
sozinha àquelas horas enquanto tentava seguir o ponto branco a minha frente, que abria as asas de momento em momento e exclamava sons estranhos que eu achava impossíveis de serem reproduzidos.
Herman às vezes voltava o longo pescoço para trás, como se quisesse ter certeza de que eu ainda o estava seguindo, e eu podia jurar que conseguia captar um leve vislumbre de satisfação nos olhos amarelados dele.
Não me olhe assim! ― eu tiritei irritada, tentando encontrar um ângulo aceitável com a sola das botas enquanto firmava os pés na trilha escolhida pelo mamífero cheio de características exoestranhas ― Eu ainda sinto v*****e de estrangular você.
Ele voltou a abrir as asas, trotando de maneira esquisita a minha frente e proferindo algum som indistinguível enquanto voltava a girar a cabeça para
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frente, altivo, como se dissesse silenciosamente que eu precisava dele, e era melhor calar a boca.
Não que eu duvidasse que a qualquer momento ele pudesse me devorar. E não que eu não estivesse apavorada com isso também. Meu Deus... eu era uma natural elementar. E estava com medo de ser devorada por um pato.
O fato, era que Herman me parecia ser o único ser que poderia me levar até o meu objetivo. Quando pedi a Hanna o favor de fazer Herman me levar até Eron, esperei por um feitiço, ou mesmo um “ leve-a até Eron, Pato maldito, ou eu frito você no jantar!”, mas tudo que eu havia presenciado, fora Hanna se agachando carinhosamente ao lado do pato e sussurrando algo em seu ouvido. No momento, me perguntei se Hanna poderia falar também “ Patanês”, ou mais precisamente “Hermanês”, mas quando perguntei o que ela feito, ela apenas justificou que havia pedido para que Herman me levasse até Eron. Quando interpelei como Herman a obedecia tão facilmente, ela apenas deu de ombros.
É claro que ele me obedece. Na teoria, eu poderia explodi -lo, se
quisesse.
Bom... eu posso sentar em cima dele. ― eu idealizei, e ela apontou se indicador pra mim.
Isso é especialmente criativo! Não deixe de ameaçá-lo caso ele desvie da rota ou caso tente desobedecê-la.
E agora eu o seguia, ameaçando sentar em cima dele caso ele tentasse me devorar.
É. Legal. Nada mau para um fim de noite: seguir um pato assassino até meu quase namorado sumido que havia decidido emudecer nossa ligação por algum motivo estranho logo depois que eu descobri que algumas pessoas estavam tendo seus corações arrancados do peito. Minha vida estava ok.
E eu não conseguia acreditar que algum tempo atrás eu reclamava por ir à escola desenhar duas montanhas e um sol.
As alamedas onde a mansão Hatthwey havia sido construída eram particularmente assustadoras também, por ficar fora de Bauryn e por se intercalar com as ruínas de Pheeton. E eu descobri isso no preciso momento em que Herman me fizera adentrar no portal destruído da antiga cidade das ruínas. Os detritos de pedra lascada se entulhavam ao meu redor como um tabuleiro de xadrez que fora sacudido, onde todas as peças tropeçaram de qualquer forma umas nas outras, criando um alambrado de entulhos e pedaços de construção por
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todo o espaço que a vista alcançava. Uma fina poeira acinzentada era levado pela inconstância do vento ao redor da minha cabeça, enviando calafrios assombrosos por minha espinha.
Morte. Era sobre isso que o local falava.
Aquele era o poema do fim.
O ar estava morno, e saia e voltava de meus pulmões em uma harmonia intrigante, silenciosa e taciturna.
Parei onde estava, observando aterrorizada o vazio ao meu redor ao cogitar que aquela era uma parte de Miriad que eu não conhecia. E uma parte definitivamente assustadora e destruída também. Claro que o fato de estar notoriamente sozinha também não estava ajudando muito. E eu era apenas uma humana fraca caso algo resolvesse dar errado, o que não me parecia algo extremamente fora de cogitação num ambiente como aquele.
Escute aqui, Herman: eu espero que você não esteja brincando comigo.
eu sussurrei num grunhido para o pato branco, que continuava o caminho sem se importar com minha parada ― Herman! Você está me ouvindo? Eu vou sentar em cima de você, eu juro! d***a, se eu fosse uma Conjuradora eu provavelmente iria fazer você esticar até explodir feito uma bomba atômica com propriedades orgânicas! E você ia ficar muito, muito f**o!
Ele continuou seu caminho, e eu o segui, na tentativa de fazê-lo parar e ao menos olhar para mim, nem que fosse aquele olhar ameaçador que suponha que ele estava cogitando morder minha orelha. Ser ignorada pelo pato assassino era quase tão r**m do que ter uma orelha ardendo.
Herman! Está me ouvindo?? d***a! Eu não estou gostando disso! Se você estiver me levando para alguma armadilha, nós vamos descobrir o que acontece com um pato quando colocamos ele no micro-ondas! Entendeu? Eu posso não atear fogo com as mãos ou atirar lazer pelos olhos, mas com certeza sei mexer nos botões de um micro-ondas.
Tropecei em um detrito estranho, recoberto por uma macha escura de musgo e... outra coisa. Assustada, eu recuei, pavor se diluindo em espiral pelo peito enquanto perseguia oxigênio para dentro dos pulmões novamente. E enquanto recuava, minhas pernas bateram em outra coisa, me enviando abaixo antes que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo. Cai de sentada, sentindo a dor leve explodindo pela coluna ao contato rígido e brutal com o solo. Retirando os cabelos dos olhos, verifiquei o obstáculo, estática ao perceber
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que havia acabado de tropeçar no que restara de uma escultura de pedra, afundada até a cintura no chão, recoberta nas extremidades por espinhos salpicados de mais musgo, ao lado de uma espada enegrecida pelo tempo, cuja lâmina enferrujada se enterrava no solo, em meio a algo cinzento e...
Deus no céu. Aquilo era... um crânio?
Apavorada com a intensidade de minha própria presença no nada em meio
noite, me enviei de pé novamente, ofegando ao perceber que Herman havia sumido em algum momento. Ou simplesmente me deixado para trás.
Pato Maldito.
Eu estava prestes a sair correndo para qualquer lugar quando uma sensação quente me atingiu em cheio nas costas, descendo de vagar pela espinha e subindo novamente ao pescoço.
O que você está fazendo aqui?
Pulei onde estava, praguejando minha fraqueza enquanto saltava para longe.
Eron estava a apenas dois metros de distância, sua sombra perceptível pela luz do luar criando um enorme ponto de referência em meio ao nada na trilha destruída. Usando apenas as calças escuras e a camiseta preta com o decote em V, apenas sua pele bronzeada e os olhos intensamente verde -dourados se sobrepunham a confusão de escuro que se mesclava aos cabelos rebeldes, que jogados de lado, desciam em fios descuidados por cima dos cílios longos e grossos.
Meu Deus. Quando eu iria me acostumar com aquilo? Eron parecia um projeto de minha imaginação saltando para a realidade. Mesmo ali, eu sentia que nunca poderia tê-lo o suficiente, ou acreditar que ele poderia ser real o suficiente. E isso era assustador. Aquela chama borbulhante que tomava forma e extensões em algum ponto do meu peito toda vez que meus olhos desciam sobre ele estava ali novamente, ardendo, implorando, rastejando em sua direção.
Pigarreei. Isso não era certo. Eu não poderia me deixar depender tanto da existência de outra pessoa daquela forma. Não quando minha vida era um círculo desconexo construído de incertezas.
Eu... eu só... ― eu gaguejei, engolindo em seco, sentindo as palavras escaparem ao tentar me focar em outra coisa que não fosse correr para ele e me aninhar em seu corpo até que ele me confirmasse que tudo estava bem. Porém,
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me distraí o suficiente ao perceber que... ― Espere. ― repliquei confusa ― Suas... veias estão... hãm, laranjadas?
Estavam. Um leve tom aquarelado de laranja e amarelo, que só era possível de ser visto ao longo da parte interna dos braços fortes .
Mas ele não olhou para o ponto no qual eu apontava.
― Estão. Efeito do poder. Eu estava treinando.
Eu assenti debilmente. Então Eron treinava. Quero dizer... desde quando?
Hã. ― eu assenti, me sentindo uma tonta enquanto mass ageava os próprios pulsos. ― Então você estava... treinando.
Os ombros de Eron caíram, como se ele estivesse cansado . E ele suspirou, enfiando as mãos nos bolsos e voltando a caminhar, seu olhar caindo em outra direção.
O que você está fazendo sozinha por aí a uma hora dessas, Eve? ― ele voltou a perguntar, seu tom neutro me obrigando a tentar adivinhar o que se passava por de trás de toda aquela parede de músculos e covinhas.
Eu não estava sozinha. Quero dizer, eu estava com Herman.
Eron me enviou um levantar de sobrancelhas, e eu passei a caminhar atrás
dele.
Bem, isso é tão r**m quanto estar sozinha. Miriad pode ser um lugar perigoso... ― ele repreendeu, seus olhos se tornando irônicos de um modo que não pude compreender. ― Qualquer coisa pode ser perigosa a essas horas.
Eu estava pronta a perguntar o que ele queria dizer com aquilo, mas algo dentro de mim simplesmente dizia que não tinha certeza de que queria saber. Ainda mais quando um pedaço ambulante de chocolate encarava meu decote daquele jeito.
E-eu só... quero dizer, eu só fiquei curiosa. Você sumiu e ...
Ás vezes eu devo sumir. ― ele simplesmente disse, voltando a caminhar. Obviamente, tive de voltar a segui -lo. ― Aprendi a lidar com os problemas de uma forma meio diferente que o resto das pessoas. ― Eron subiu um declive longo e esverdeado, se sentando em seguida no topo da corcova. Me sentei ao seu lado, ainda meio incerta, percebendo que dali, era possível ver quase toda Bauryn, distante e brilhante, parecendo quase tão distante quanto possível. E as ruínas ficaram para trás, mesmo que estivéssemos obviamente em meio a elas.