Capítulo 6 – Sangue e Espelhos
Narrado por Lorenzo
Não existe silêncio mais incômodo do que o que fica depois de uma tempestade.
Aquele maldito encontro ainda latejava na minha cabeça, como um tambor sem ritmo, batendo contra as paredes do meu crânio. Eu não conseguia tirar da mente o jeito como Matteo olhou para Lorena, aquela loira venenosa dos Mancine. Um olhar de desejo, de fome, de conquista. Como se não tivesse nada em jogo. Como se fosse apenas mais uma mulher na coleção dele.
Mas não era.
Eu sabia.
Lorena não era qualquer uma. Ela era um dardo envenenado lançado direto contra o coração dos Donatello.
No carro de volta, o silêncio dele era quase uma afronta. Matteo estava relaxado, até sorridente, como se tivesse acabado de vencer uma aposta i****a. Eu, ao contrário, estava com o maxilar travado, cada músculo do corpo pedindo para socar a arrogância do meu irmão.
Ele me conhece.
Sabe quando eu estou no limite.
Mas não disse nada.
Deixei ele na ala leste da mansão, onde ficava a parte mais afastada dos dormitórios. Ele saltou do carro com aquele andar insolente de conquistador nato, jogando as chaves no ar e assobiando como se não tivesse nada de errado. Como se não tivesse acabado de brincar com fogo em um barril de gasolina.
Eu não consegui dormir naquela noite.
Passei horas no escritório, revisando relatórios, mapas de rotas, listas de aliados e possíveis traidores. Mas, no fundo, nada daquilo me tirava a tensão que me corroía por dentro. Não era sobre negócios. Não era sobre armas, drogas ou território. Era sobre família. Sobre Matteo.
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De manhã, encontrei mamãe na varanda. Isis Donatello, a rainha da máfia, ainda carregava no olhar a mesma firmeza de anos atrás. O tempo não a havia vencido. Ao contrário, tinha lapidado suas cicatrizes em joias invisíveis. Ela estava tomando café, um vestido preto elegante caindo em curvas discretas, e me olhou como se já soubesse.
— Você está com a cara de quem passou a noite em claro. — disse, sem rodeios.
— Passei. — respondi.
Ela ergueu a sobrancelha, paciente.
— Matteo?
Assenti.
— Ele se meteu com alguém que não devia. — continuei, apoiando as mãos na grade da varanda. — Lorena Mancine.
Os olhos dela se estreitaram por um instante, e pude jurar que vi uma sombra de preocupação atravessar sua expressão. Mas logo ela retomou o controle.
— Sempre soube que os filhos herdariam mais do que sangue. Herdaram fogo. — murmurou.
— Ele não tem noção do que está fazendo, mãe. — eu explodi, minha voz mais alta do que queria. — Os Mancine não são apenas inimigos, eles são predadores. Lorena não apareceu do nada. Ela foi mandada.
Ela perguntou, calma. — O que você vai fazer?
— Eu vou proteger a família. Vou proteger o império. Nem que para isso eu precise puxar Matteo de volta pelos cabelos.
Isis pousou a xícara devagar e me encarou.
— Proteja seu irmão também. Você pode lutar contra o mundo, Lorenzo, mas não lute contra o sangue.
Eu respirei fundo.
— Ele vai nos destruir.
— Não. — ela balançou a cabeça. — Não se você não deixar. Vocês são diferentes, mas nasceram para serem dois lados do mesmo império. Um precisa do outro. Não esqueça disso.
A conversa não me acalmou.
Me deixou mais furioso.
Porque mamãe estava certa — e isso era ainda mais doloroso.
Encontrei Matteo na sala de armas horas depois. Ele estava encostado no balcão de madeira, girando uma pistola dourada nas mãos, como se fosse apenas um brinquedo. O sorriso dele era insolente.
— Então… vai me dar o sermão? — ele disse antes mesmo de eu abrir a boca.
— Você não está entendendo. — comecei. — Ela não é uma mulher qualquer, Matteo. Ela é Lorena Mancine.
— E daí? — ele riu, ajeitando o cabelo. — O sobrenome não muda o corpo que ela tem.
Avancei dois passos, e minha voz saiu mais dura.
— O sobrenome muda tudo. Ela é inimiga. É veneno. É uma armadilha, p***a!
Ele me olhou como quem ouve uma piada m*l contada.
— Talvez eu goste de veneno.
Eu perdi a paciência.
Bati a mão na bancada, fazendo a pistola quicar.
— Isso não é sobre você t*****r com mais uma! Isso é sobre colocar o império dos Donatello na m***a porque você não consegue fechar a p***a das calças!
Ele se aproximou de mim, o sorriso sumindo.
— Sabe o que eu acho, Lorenzo? Eu acho que você tem inveja.
— Inveja? — ri, incrédulo.
— É. Você carrega o peso do mundo nas costas, sempre tão sério, tão responsável, tão perfeito. Mas eu… eu vivo. Eu sinto. Eu conquisto. E isso te corrói por dentro.
— Você é um irresponsável. — cuspi as palavras. — Eu não tenho inveja de você. Tenho medo. Medo de que um dia você nos arraste para o buraco com essa sua fome de prazer.
Os olhos dele brilharam, não de raiva, mas de desafio.
— E se eu arrastar? Você vai deixar?
O silêncio se estendeu. Eu podia matá-lo naquele momento. Podia socar sua cara até ele entender. Mas não fiz.
Porque, apesar de tudo, ele era meu irmão.
Suspirei fundo, passando as mãos pelo rosto.
— Eu nunca vou deixar. Nem que eu tenha que enfrentar você.
Ele sorriu de novo, mas dessa vez havia algo diferente em seu olhar. Uma sombra.
— Então você vai ter que me enfrentar muitas vezes, Lorenzo. Porque eu não vou largar Lorena.
Virei de costas, caminhando até a porta.
Antes de sair, disse sem olhar para trás:
— Eu preferia enfrentar o mundo. Mas se for você… eu faço também. ~ sabíamos que isso é mentira, eu nunca o enfrentaria.
O silêncio foi pesado. Mas antes que eu fechasse a porta, ouvi a voz dele, baixa, quase um sussurro:
— Sabe de uma coisa, irmão? No fim, eu morreria por você.
Eu fechei os olhos, deixando as palavras me atravessarem como uma lâmina.
Respirei fundo e respondi:
— E eu por você. Sempre.
Fechei a porta atrás de mim, levando comigo o peso de uma certeza: Matteo podia me irritar até o limite, podia me desafiar, podia me arrastar para o inferno. Mas ele era meu irmão. E, juntos, éramos dois lados do mesmo espelho — quebrados, perigosos, inevitáveis.
E mesmo que o mundo desmoronasse, eu sabia: um morreria pelo outro. Sempre.