Olhar Que Se Afasta

913 Palavras
Depois de um final de semana louco, eu acordo com o corpo pesado e a mente ainda em alerta. Levo alguns segundos para entender onde estou. O quarto está silencioso demais. Respiro fundo, lento, como se precisasse convencer meu próprio corpo de que nada está acontecendo naquele exato momento. Sento na cama e passo a mão pelo rosto. A sensação é estranha, uma mistura de exaustão e antecipação. Como se algo tivesse quase acontecido… ou estivesse prestes a acontecer. Estico o braço e pego o celular descartável na mesa de cabeceira. A tela acende rápido demais para o meu gosto. Nenhuma mensagem da Laura. Sinto o alívio antes mesmo de perceber que estava tensa. Meus ombros relaxam, o ar finalmente entra por completo nos pulmões. Não porque eu não me importe com ela, mas porque o silêncio, naquele instante, é uma trégua. Um intervalo necessário antes da próxima onda. Levanto da cama devagar, observando o quarto como se ele pudesse me dar respostas. Não deu. O fim de semana deixou marcas invisíveis. Decisões tomadas sem planejamento, impulsos que eu costumo controlar melhor. Cuidar da Laura mexeu comigo mais do que eu esperava. Olho novamente para o celular, quase esperando que ele vibre só para provar que eu ainda tenho controle. Não vibra. E isso deveria ser bom. Mas, no fundo, algo em mim sabe: o silêncio nunca dura quando o passado resolve acordar junto com você. No meu escritório, tento manter a rotina. É o único lugar onde a normalidade ainda parece possível. O ar condicionado na temperatura exata, a mesa organizada, a agenda cheia de compromissos que não permitem espaço para pensamentos fora de ordem. Aqui, eu funciono. Cumprimento a Clara com um aceno rápido, pego o café sem açúcar, abro o notbook . E-mails, relatórios, reuniões. Tudo segue como deveria. Tento me convencer de que, se eu repetir os mesmos gestos, nada vai sair do eixo. A normalidade é uma construção frágil, mas ainda assim é uma construção. Falo com clientes, reviso campanhas, tomo decisões rápidas. Sou boa no que faço. Sempre fui. O trabalho nunca me abandonou, diferente de pessoas. E talvez por isso eu confie tanto nele. Aqui, não existe passado. Só resultados. Ainda assim, em pequenos intervalos, minha mente escapa. Um olhar que não sei de quem é. Uma sensação estranha de estar sendo observada, não no sentido literal, mas como se alguém soubesse exatamente onde eu estou. Balanço a cabeça, afastando a ideia. Cansaço. Só isso. Volto para a tela, forçando foco. Se eu continuar ocupada, tudo fica sob controle. Se eu não parar, não sinto. Se eu não sinto, não lembro. É assim que eu sobrevivo. Na hora do almoço, decidimos ir a um restaurante aqui perto do escritório. Nada sofisticado, apenas um lugar conhecido, seguro, onde ninguém espera grandes revelações. Clara fala o tempo todo enquanto caminhamos, como se o silêncio fosse algo a ser combatido. Sentamos perto da janela. Fazemos nossos pedidos quase no automático. Eu escolho o de sempre. Clara muda três vezes antes de decidir. Sorrio de leve. Algumas coisas nunca mudam. Quando a comida demora, ela começa a contar histórias. Casos do fim de semana, situações absurdas do trânsito, comentários sobre pessoas que eu m*l conheço. Tento me distrair com a leveza dela, com o jeito exagerado de narrar tudo, gesticulando demais, rindo sozinha antes mesmo de chegar ao fim da frase. Eu rio nos momentos certos. Participo o suficiente para não levantar suspeitas. Clara é minha secretária, mas também é a pessoa mais próxima que permito no meu dia a dia. Ela me observa mais do que imagina, e eu preciso parecer… normal. Por alguns minutos, funciona. O barulho do restaurante, o cheiro da comida, a voz dela ocupam espaço demais para que pensamentos indesejados se infiltrem. Quase acredito que o fim de semana ficou para trás. Quase. Porque, no meio de uma história sem importância, sinto de novo aquela pressão estranha no peito. Um segundo apenas. Um aperto que não é meu. Levo o garfo à boca e continuo sorrindo, como se nada tivesse acontecido. Mas algo em mim se fecha em alerta. E eu sei: distração nenhuma dura quando o que se aproxima não pede permissão. Instintivamente, olho para trás. O movimento é rápido demais para ser consciente. A porta do restaurante ainda está balançando levemente, como se alguém tivesse acabado de sair. Procuro um rosto, uma silhueta, qualquer coisa que justifique a sensação que me atravessou segundos antes. Não vejo ninguém. O fluxo da rua segue normal. Pessoas passando, carros, o som distante de uma buzina. Nada fora do lugar. Ainda assim, fico alguns segundos a mais observando, tentando capturar algo que já não está ali. Então, tão de repente quanto veio, a sensação desaparece. O aperto no peito se dissolve. O ar volta a circular com facilidade. Meu corpo relaxa aos poucos, como se tivesse respondido a um alarme silencioso que acabou de ser desligado. Volto o olhar para a mesa. — Tudo bem? Clara pergunta, interrompendo a própria história. — Tudo . Respondo rápido demais. — Só achei que conhecia alguém. Ela aceita a resposta sem insistir e continua falando. Eu acompanho, mas agora com atenção redobrada. A normalidade retorna, se encaixando no lugar como uma peça forçada. Ainda assim, algo fica comigo. Não o medo. A certeza. Seja quem for, já foi embora. E, por algum motivo que eu ainda não entendo, a ausência dele me inquieta mais do que a presença teria feito.
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