Dias atuais...
✵ Viviane
Os dias tinham passado como todos os outros, tranquilidade e paz, só um detalhe me incomodava profundamente, o neto de Yacira havia saído e não voltado já fazia um bom tempo e por mais que minha curiosidade coçasse a língua para perguntar onde ele se encontrava, não o fiz, aquilo não era do meu interesse e negaria até a morte se insinuassem o oposto.
Caminhando entre a areia da praia observava a alegria de muitas jovens que pareciam se preparar com minivestidos cor de areia e pinturas em diversas partes de seus corpos, os cabelos estavam trançados com miçangas produzidas por elas. O mais estranho de tudo era que não foi apenas Regabor que havia sumido, muitos outros rapazes corpulentos e desnudos não se encontravam ali. Possivelmente tinham ido caçar para preparar algum tipo de festança, já que as produções não diminuíam entre dia e noite.
– Vai participar do Dhāranā?
– Dhara o quê? – perguntei olhando para a garota de pele escura que tinha em seu corpo desenhos bem contornados com símbolos antigos entre as ramificações florais, que possivelmente representavam a deusa tríplice.
– Não é Dharana e sim Dhāranā, é uma festa que todos os jovens solteiros participam para se conectar com seu eu interior. São três dias de diversão e se der sorte, ainda consegue arrumar uma companhia – ela diz piscando o olho escuro, seu sorriso malicioso deixava nítido que essa era a intenção dela.
– Vou pensar sobre a oferta tentadora – respondi sem saber realmente se seria uma boa ideia.
– Não precisa pensar, venha – ela pega em minha mão e puxa-me para um amontoado de garotas que se produziam com panos amarrados e trançados pelo corpo, todas como o mesmo padrão, o que seria difícil me parecer com elas, já que bem, eu não possuía a pele amendoada como elas e nem meus passeios pela praia foram o suficiente para ganhar aquela linda cor e é claro, eu havia cortado meus cabelos muito antes de chegar boiando até a ilha, tal penteado não funcionaria em mim.
– Acho que isso não vai dar certo – saliento olhando para elas em um padrão perfeito e invejável.
– Vai sim, confie em nossas habilidades ilusórias – outra respondeu com um mega sorriso estampado em sua face desenhada. Aquilo tinha tudo para dar errado, e eu não estava nem aí para a confusão que certamente causaria quando descobrissem que estava infiltrada em uma festança que pertencia apenas aos membros daquele povo.
⚝ ♱ ⚝
Entre desenhos e trocas de panos, pós coloridos e tranças falsas sendo aplicadas em meus cabelos ao olhar para a tina de água, realmente me parecia como todas elas, um padrão de beleza indescritível e simples. A noite caia e percorríamos uma trilha que nos levaria até uma clareira não muito longe da praia. O som de tambores se tornando mais graves e contagiando a muitas.
Sigo as jovens que giravam alegremente pelo caminho e paramos ao meio daquele amontoado de corpos desenhados. As cabeças animalescas em peles de lobos cinzas escondiam boa parte da face dos rapazes deixando apenas suas bocas e queixo visíveis e delineados, impossível de se diferenciar a fisionomias assim como as nossas que usávamos máscaras feitas com plumas tão escuras que brilhavam na luz provinda da fogueira e os pedrisco ali sendo apenas um mero detalhe na beleza das penas que um dia pertenceu a alguma bela ave de rapina. Todos padronizados e difíceis de distinguir um do outro, onde só os olhos eram visíveis e nem a cor podia ser considerada como vantagem quando a distância e a pouca luz ajudava a ocultar a própria identidade.
– Quando a música acabar, corra o mais rápido possível.
– Por quê?
– Nós somos as presas e eles os caçadores – ela aponta para os rapazes sentados sobre os troncos, uns nos observavam e outros apenas conversavam entre si alheios a nossa presença. – Quem te alcançar primeiro tem o direito de desfrutar de sua presença até o amanhecer.
– E por que não me disseram isso antes? – questionei agora com o coração que começava a bater freneticamente no peito.
– Achei que conhecia as regras – outra responde com naturalidade.
– Quais regras?!
– As do Dhāranā, se está aqui é porque aceitou-as de bom grado e não pode negar após ter passado pelo ritual de preparo – alguém explica, era difícil distinguir de quem era a voz proferida quando todas movimentavam sutilmente seus lábios.
– Vai ser divertido – a jovem ao lado sussurra em meu ouvido. Essa eu conhecia e começava a me arrepender de ter aceitado sua proposta inicial.
A música começa a ganhar maior velocidade e intensidade, o som doce de uma flauta faz meu corpo balançar encantado com as belezas que ali se encontrava, a magia do momento tornava tudo perfeito. Os aromas atrativos junto com a sensação de flutuar fazia meus membros seguirem um ritmo que eles bem sabiam como deveriam se movimentar, me sentia livre para ser quem realmente era, sem amarras e regras de como me portar perante a presença dos homens que consequentemente não conseguiam tirar seus olhares da feminidade que exalávamos.
Ali naquele lugar não era mais a jovem rebelde que fugiu de uma vida de obediência para descobrir exatamente a parte que a muito se perdeu em seu sangue, eu era elas, e elas eram eu. Todas conectadas pelos desenhos que queimavam energicamente o líquido que bombeava em nosso corpo sensual e não era só isso, o chamado sussurrava em meu ouvido que a hora havia chegado e que deveria despertar a verdadeira natureza que me envolvia com intensidade.
Ao olhar para os instrumentos que tocavam sua música agora sem serem instruídos pelos dedos ágeis daqueles que antes sobravam as flautas e batucavam os tambores, pois os mesmos envolvidos pela melodia se movimentavam seus corpos tão próximos aos nossos em um ritmo extasiante. Já havia sentido aquela sensação, só não me lembrava de onde.
As luzes coloridas subiam ao céu como vagalumes que brilhavam com a ânsia de libertar a parte selvagem que se escondia em meu interior.
O som gradativamente vai diminuindo sua intensidade e quando o silêncio reina na clareira meus olhos se cruzam com um daqueles que antes dançava de uma maneira nada descente, aliás, a decência havia se perdido a muito tempo entre o aroma que de uma forma estranha e complementar me puxava até ele. O brilho de suas írises e os gritos em volta me fazem voltar a realidade. Deveria correr como se minha vida dependesse daquela fuga e ela realmente dependia.
Pelo caminho via jovens serem agarradas pelos braços fortes de seus parceiros, e agora eu instruía minhas penas a correr o mais rápido possível. Não me sujeitaria aquilo, ainda mais quando não sabia quem era aquele que me seguia com tanto afinco. Os gritos se tornando em gargalhadas e sons entrecortados entre suspiros e gemidos abafados. Desgraçada!!! Aquilo não era de jeito nenhum como uma festa, estava mais para um ritual de acasalamento e eu havia me envolvido até mais do que deveria.
Minhas pernas ganhando força entre o caminho escuro que percorria sem enxergar quase nada, as árvores passavam como vultos e os olhos animalescos não davam tanto medo quando o som dos gravetos sendo pisado bem próximos.
Sinto dedos grandes segurarem meu braço e ao tentar me desviar meu corpo se choca contra uma árvore, uma eletricidade sobe envolvendo cada m****o e o hálito quente do caçador atinge meu pescoço desnudo causando um arrepio que faz meu estômago se contorcer em um sentimento envolvente. Seus lábios pressionam o local me fazendo contorcer entre seu corpo que me mantinha imóvel. Um gemido extasiado sai de minha boca quando ele levemente distribui beijos nas partes expostas chegando até a maçã facial. Os nossos olhos se cruzam entre um desejo interminável que me faz perder completamente a lucidez que tentava manter.
Aquela não era a maneira que um dia imaginei que me entregaria para alguém, só que o sentimento dominava o meu corpo e não conseguia resistir e nem queria. A suas mãos cravam nos meus cabelos me puxando para sua boca entreaberta, eu precisava provar o seu sabor como ele também necessitava disso. E como em uma alucinação envolvente deixo os seus lábios encostarem aos meus causando uma eletricidade que me faz empurrá-lo para longe, talvez a parte de correr e esconder-me tornaria a caçada mais divertida, tínhamos a noite toda para brincarmos e aumentar a emoção era algo que estava disposta a fazer só para me deliciar no final.
⚝ ♱ ⚝
Dhāranā significa concepção.