CAPÍTULO 7

1086 Palavras
✵ Manoel de Arimatéia – Missionário A ideia não era das melhores e tinha certeza que se falhasse morreria junto com aquela criança que continuava a olhando o corpo desfalecido do representante de Nosso Senhor. Era arriscado, e mesmo assim daria minha vida para protegê-la, não havia tido coragem antes e agora as forças pareciam correr dentro do meu sangue, era como se aquele pequeno ser fosse um anjo mandado a terra para provar e alicerçar minha fé. Coloco dentro do baú vários objetos entre eles o cálice de prata, a cruz sagrada e outras indulgências representativas que usávamos para apregoar nossa religião deixando o caixote o mais pesado possível. Visto o casaco grosso não para esconder a batina suja de sangue e sim para transportar a criança para fora da igreja. – Que Deus nos ajude! – Faço uma prece silenciosa e agacho-me em frente ao púlpito. – Vou tirá-la desse lugar horrendo e levá-la comigo, mas para isso preciso da sua ajuda – seus olhinhos cinzas encontram os meus e ali defronte estava a personificação de um anjo em todos seus contornos delicados e mesmo sujos eram inegáveis a beleza que exalava do rostinho fino. – Não tem uma maneira fácil de falar isso – começo a dizer agora com vergonha do que diria a seguir – mas preciso que se esconda dentro da minhas vestes. – A criança apenas mantém o contato firme e não diz nada. – Você terá que andar conforme meus passos para não levantarmos suspeitas. Entendeu? – Ela afirma levemente com a cabeça. Fecho o baú e o puxo até a ponta do tablado com dificuldade, em seguida volto até o púlpito para acomodar a criança entre minhas vestes que agora agradecia por ter colocado mais duas por baixo da batina, entre eles uma calça que achei no quarto, aquele ato não seria nada confortável nem para mim e muito menos para o anjinho. – Vou levantar minha batina e preciso que se esconda em meio as minhas pernas, agarrem nelas e pise em meus pés se for preciso e em hipótese alguma, grite ou fale. – Antes que pudesse escondê-la, ela corre até o púlpito esticando na pontinha de seus pés e alcançando com suas mãozinhas delicadas e encardidas o livro sagrado que continha o desenho ao meio. Ela abre a grossa enciclopédia que havia esquecido de pegar e tira de lá a folha rabiscada, estendendo a Bíblia em minha direção que aceito como um presente. Para minha graça a criança tinha entendido perfeitamente minhas instruções e seus pezinhos pisavam sobre os meus, ela era leve como uma pluma e sair andando normalmente de dentro da Casa do Altíssimo não foi tão difícil como havia imaginado. – Se já terminou sua reza, preciso que se afaste para expurgarmos os pecados dele local – Don Ruan da Corte Espanhola afirma quando me avista saindo da igreja. – Sobre o tablado do altar tem um baú com pertences sagrados, ele está pesado e não consegui movê-lo do lugar, preciso que dois dos seus homens o façam – falei calmamente quando ele se aproxima fazendo-me prender a respiração. Os dedos pequeninos apertam minhas pernas com força, e mentalmente faço outra súplica aos céus, estava apenas cumprindo com as vontades de Nosso Senhor, aquilo não era pecado. – Parece tenso e por qual motivo trocou suas vestes? Não ouse esconder algo de mim – ele profere parando a minha frente, sua baixa estatura me deixava mais alto o que parecia irritá-lo profundamente. Puxei um pouco o casaco deixando a mostra as marcas de sangue onde havia ajoelhado e também a parte que encostei no corpo do padre morto. – Precisei mover o corpo de meu irmão e maculei a batina branca, não me sinto bem em usar as vestes sujas e não achei outras que pudesse trocar, apenas esse casaco que esconde o pecado que me encontro por tocar no sangue de um morto corrompido. – Deveria ter usado calças como o instrui. – Assim me passaria por vocês, porém se vim a mandado do clérigo, devo me portar como eles. Nossas vestes representam a santidade que somos – falei cautelosamente fazendo o homem olhar profundamente em minhas írises castanhas. – Nem todos são santos, só se fingem para esconder seus verdadeiros pecados. Espero que você seja diferente de seu irmão de fé – estranhei sua frase, porém resolvi não o contestar, precisava me livrar dele e dos outros e não entrar em um conflito sobre religião e crenças. – Pegarei uma barcaça, tenho que me livrar do sangue e dos pecados daquele que jaz deitado sobre o altar – disse me afastando a passos lentos, ao fundo escutava o infante dar as ordens para que seus homens entrassem na igreja e pegasse os pertences que separei, ele não contestaria as indulgências, já que sabia bem que as destruir seria um sinônimo para enviá-lo direto ao inferno, não que ele já não fosse depois dos assassinatos. Sigo o rumo pela praia até o barco que repousava ali tranquilamente e o emburro um pouco com dificuldade, a criança entre meus membros se apertava quando curvava o corpo atrapalhando meus movimentos que deveriam ser mais ágeis. Ao subir na pequena embarcação e me acomodar remo até o navio, ao longe via a fumaça que subia do vilarejo destruído que agora queimava para expurgar os pecados que não eram só daquele povo e sim de todos que pisavam sobre as areias ensanguentadas. O pequeno movimento me faz lembrar do pequeno anjo escondido, não pude salvar aqueles que moravam pacificamente, entretanto remiria minhas fraquezas a protegendo como fui incumbido pelo porta voz do santíssimo. – Já estamos chegando no navio, você terá que novamente se agarrar as minhas pernas e tome muito cuidado para não se desequilibrar quando eu for subir as escadas. Não precisava esperar por sua resposta quando parecia que a criança era muda ou não entendia completamente a linguagem que proferia. Continuei a jornada maçante de remar até a grande embarcação pedindo aos céus que a viagem de volta a abadia fosse rápida e que Deus protegesse a criança durante todo esse tempo. Não seria nada fácil mantê-la escondia durante meses dentro de um quarto apertado, e pela graça do Senhor, eu era o único fora Don Ruan que tinha um aposento separado dos demais tripulantes que dormiam em redes espalhadas por toda a extensão do porão. Ser um representante da igreja dava a seus filhos alguns privilégios que agradecia agora por tê-los.
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